Ele entrou pelo corredor que dava acesso a entrada da
hospedaria e viu a janela do quarto em que ela ficava.
O quarto estava escuro, entrou no corredor já
dentro da pensão e antes de subir as escadas viu Chitose abrindo a porta do seu
quarto, afinal ela era a chefe do lugar.
-
Okaerinasai Kiyokazu.
- Tadaima
- ele respondeu sério com um de seus braços enfaixados.
- Onde
está a Hanato Kobato?
- Ela
foi embora - Chitose disse meio triste.
Ele
ficou sem reação, tentando assimilar as palavras que ela dizia.
- Você
não sabia?
- Não...
- Deve
ter sido difícil para Kobato-san se despedir de você - Chitose pegou o avental
e enrolou nas mãos.
- Para
onde? - finalmente se tocou do ocorrido.
- Ela
não disse, só disse que ligaria assim que se estabelecesse.
Kiyokazu
largou a sua mochila na mesma hora e começou a correr por todos os lados para
ver se encontrava a Kobato, mas nada da garota.
Até que
ele a viu em um pequeno parque sobre um
escorregador e disse:
- ONDE
ESTÁ INDO? - ele gritou com a respiração entrecortada e com as mãos no joelho
parando em frente a ela.
-
Fujimoto-san!? - ela olhou para trás e o viu.
- Aonde
você planeja ir - ele perguntou a encarando com os punhos cerrados.
- Eu não
sei... - ela respondeu também o olhando.
- Você
está brincando comigo? - ele ficou muito irritado com ela.
- No
final eu fiz você ficar irritado de novo - ela deu um leve sorriso, estava muito feliz de ele estar ali.
- Claro
que sim... - ele inclinou-se um pouco para frente. - Desaparecer assim sem
dizer uma palavra! O que você estava pensando?
-
Desculpe...
- Você
se aborreceu com o que eu disse? - ele queria saber por que ela queria ir
embora daquele jeito.
- Não...
Não foi isso! - ela ficou meio triste.
- Então
por quê? - ele perguntou, pois queria saber.
Kobato
se surpreendeu com a pergunta, virou um pouco o rosto.
Ela não
podia contar, não sabia como contar, não sabia se ele ia acreditar, juntou as
mãos e virou um pouco mais o rosto, então uma voz grossa e imponente soou.
- Por
causa do contrato dela - Fujimoto procurou de onde vinha à voz, mas não sabia.
- Aqui em cima da bagagem - ele viu o bichinho de pelúcia em forma de cachorro
falando com ele. - Oi.
- Esse é
o Ioryogi-san - ela apresentou o
bonequinho que sempre fingia ser um boneco de pelúcia.
- Isso é
um bichinho de pelúcia?
- Eu só
estava fingindo ser um - respondeu o cachorrinho a ele. - Estávamos falando do contrato - o bicho
cruzou os bracinhos e virou-se para garota. - Mostre a ele Kobato.
- Certo
- ela começou a tirar o seu inseparável chapéu.
- Ei! O
que está acontecendo...? - Kobato acabou de tirar o chapéu e Fujimoto conseguiu
ver o que havia em cima da sua cabeça. - Você é... O que é isso? - Kiyokazu
estava confuso e não entendia se ela era um anjo ou algo parecido.
Não
sabia o que aquela aureola queria dizer.
- Ela
está morta! - Ioryogi comentou enquanto ele processava tudo. - Neste momento a
alma de Kobato não pertence a nenhum mundo. Ela é subviva, uma existência
ambígua, mas por causa de um contrato com alguém lá em cima, foi dada a ela a
chance de renascer e reviver a sua vida.
- Espera!
O que você está dizendo? - ele ficou aflito não entendia.
Fujimoto ouviu um
riso ingênuo e ficou procurando enquanto o pequeno cachorro continuava.
- Mas...
Kobato escolheu passar o restante dos dias com você em vez de realizar o
contrato. E consequentemente ele se quebrou - enquanto a pelúcia falava atrás
da Kobato apareceu um coelho com asas e uma flor em uma de suas mãos.
Uma luz
saiu da flor e foi em direção a aureola da Kobato, onde dela surgiu um tubo em
volta dela.
- Por
isso eu não tenho escolha a não ser desaparecer - ele subiu o escorregador
correndo e tocou o tubo em cores transparente que a rodeada.
- Você
está brincando, não é? - ele estava desesperado, confuso e não queria acreditar
em tudo aquilo que ouvira do Ioryogi.
- Eu
estava feliz por estar ao seu lado, Fujimoto-san. Não posso fazer isso... Não é
- ela tocou o tubo colorido e transparente. - No final eu queria ir embora com
um sorriso no meu rosto... - as mãos dos dois se juntaram separadas apenas por
aquele tubo.
O
coelhinho girou com a flor r Kobato sentiu o movimento e se encolheu um pouco,
mas não era dor...
- Pare,
por favor! - ele olhou para o coelhinho que voava em volta da Kobato.
- Você é
muito importante para mim... Até agora... De agora em diante e até o fim dos
tempos - lágrimas escorreram pelos olhos de Kobato enquanto as mãos dos dois se
uniam apenas impedidos por aquela redoma colorida e transparente.
- Não vá!
- o peito de Kiyokazu começou a brilhar e o domo começou a se quebrar como se
fosse um vidro.
Os
pedaços caíram no chão e a luz sobre a cabeça da Kobato parou.
No peito
do Fujimoto-san tinha uma luz em forma de dois círculos, um pouco distante do
outro.
Kiyokazu
sorriu vendo que o tubo tinha quebrado deu um sorriso e Kobato correspondeu e
um confeito flutuava no meio dos dois, e lentamente o mesmo entrou na pequena
garrafa que Kobato carregava.
Os
confeitos começaram a se acumular dentro da garrafinha e a enchê-la
completamente.
Kobato a
pegou em suas mãos depois da garrafinha flutuar no ar e disse:
-
Confeito do Fujimoto-san.... É tão quente... - Kobato abraçou a garrafinha
enquanto tudo em volta dela brilhava.
O
coelhinho mensageiro de Kami-sama balançou a flor novamente e pétalas de
cerejeira voaram em volta da Kobato.
Agora
ela poderia reviver, pois havia cumprido o seu contrato, ela poderia ir onde
ela queria e as pétalas de cerejeiras continuavam a rodeando.
- O que
está acontecendo? - perguntou o rapaz a olhando.
- Eu
devo ir para o lugar onde eu deveria estar - ela estava meiga. - Adeus! - ele a
abraçou fortemente e a beijou nos lábios de forma terna.
Ele não
queria que ela se fosse, ele queria continuar com ela, ele aprendeu a gostar
daquela cabecinha de vento, desastrada, alegre, sempre positiva, se esforçava
ao máximo.
Ele não
queria deixá-la ir, de maneira nenhuma, tinha que ter um jeito dele fazê-la
ficar, mesmo que quebrasse a vontade de Kami-sama. Mas quando ele abriu os
olhos ela não estava mais diante de si, havia partido junto com aquelas pétalas
de cerejeira, havia sumido de seus braços para sempre, então ele caiu
adormecido sobre o escorregador infantil e não viu mais nada.
*****
Os dias
passavam rapidamente e um mês depois da Kobato ter partido e exatamente naquela
manhã Fujimoto Kiyokazu acordou, ouviu um barulho no quarto ao lado, se
levantou e foi ver o que era.
Quando
ele saiu do quarto viu Chiho e Chise saindo do quarto ao lado com um futtun,
achou estranho ter um futtun ali. Chegou a pedir a Chitose para deixar o quarto
desocupado mais um tempo.
Sentiu-se
estranho ao dizer aquelas palavras, sentia que tinha alguma coisa faltando, mas
ainda não sabia o que era.
Depois
de trabalhar muito, foi para faculdade e conversou um pouco com o seu amigo Takashi Doumoto onde o mesmo diz:
"Bom,
você perdeu uma coisa muito importante."
Kiyokazu
se surpreendeu com aquelas palavras, encarou com os olhos um pouco arregalados.
"O
que eu perdi?" Se perguntou em pensamento tentando achar algum vestígio em
sua memória, mas nada.
Doumoto
comentou sobre a creche, mas não era isso que o incomodava, era algo bem maior,
mas ele não sabia o que era.
Depois
da faculdade ele trabalhou um pouco e encontrou Sayaka na porta da antiga
creche com as crianças e na conversa saiu às palavras: "vamos todos juntos"
fez ele se sentir mais estranho ainda.
Ele
buscou nas suas memórias, mas não se lembrou de ninguém nem de nada.
Fujimoto
Kiyokazu foi continuar o seu trabalho e quando finalmente voltou para casa
começou a chover e ele correu para pegar as roupas no arame.
Assim
que ele pegou as roupas do varal um confeito caiu sobre a mesa e ele olhou
fixamente para aquela bola brilhante e pequena. A mesma começou a brilhar diante de seus olhos e lembranças
dela vieram em sua mente. As lembranças daquela menina desastrada, esforçada,
alegre e que ele gostava tanto, depois que o clarão passou, Fujimoto olhou a
foto, mas ela não estava lá. Ele não entendia o que estava acontecendo, saiu de
seu quarto ao lado que supostamente fora dela, mas não havia nada nem ninguém.
Ele saiu
da pensão correndo com os pingos de chuvas caindo sobre ele, procurou por toda
a cidade se alguém havia visto, falado, ou se lembrado dela, mas nada.
Ele
andou e andou sem um rumo, ainda com os pingos de chuva sobre ele e não
entendia por que ninguém se lembrava dela.
Ele
continuou caminhando e viu aquela casa onde ele sempre deixava os jornais, lá e
viu Kohaku entrando com um sombrinha. Abordou a garota e entrou para conversar
com ela e para sua surpresa Kohaku se lembrou perfeitamente da Kobato, enquanto
ninguém mais se lembrava.
Kohaku
então esclareceu tudo sobre a menina a ele, o porquê dela ter morrido em uma
guerra entre os mundos e como ela recebeu a chance de realizar o seu desejo de
voltar aonde ela queria estar, ou seja, Kobato queria renascer ao lado da
pessoa que ela amava.
Kiyokazu
ouviu atentamente cada palavra de Kohaku e tentava entender por que só ela se
lembrava de Kobato. Após ouvir toda a história, Fujimoto-san sai da casa da
ex-anja e volta a sua, pois agora ele teria que esperar renascer, ou aparecer
em algum lugar. Ele guardava essa esperança em seu coração, junto com aquele
confeito, pois sabia que ele era precioso e iria fazer algo muito importante na
sua vida.
*****
Quatro
anos depois...
Kiyokazu
Fujimoto se formou em direito e agora trabalhava em uma advocacia, estava
olhando uns livros na prateleira, quando o outro advogado pediu para que ele
desse uma olhada na papelada, pois era um testamento.
Esse
testamento era de um cliente que tinha morrido a poucos dias e por causa da
morde de seu filho decidiu deixar tudo para sua filha adotiva, então ele se
dispôs a olhar a área onde ficava a residência.
Na manhã seguinte Fujimoto foi até a
área a ser repassada a garota e assim que chegou parou em frente à casa e viu
algumas árvores de cerejeira. Um jardim
de flores coloridas e uma escada que passava em meio a elas dividindo lado a
lado.
O mesmo
entrou a residência e olhou cada canto da mesma, para depois entrar em uma sala
onde havia um piano.
Há muito
tempo ele não via, ou tocava, deu um leve sorriso e tirou o tecido de cima,
apertou algumas teclas do mesmo fazendo um pequeno barulho, que lhe trouxe
algumas recordações, deu outro leve sorriso. Sentou-se ao banco, colocou o
confeito sobre o mesmo e começou a tocar as notas, formando a melodia musical
que lembrava tanto aquela garota destrambelhada. Suas recordações viajavam no
tempo que passaram juntos na creche, foi lá que ele aprendeu a gostar e ela
teve que partir.
Agora
ele apenas aguardava o dia que a veria retornar do outro mundo para poder viver
ao lado dela enquanto pudesse.
Enquanto
dedilhava as teclas formando a melodia, sentia o seu coração se aquecer e
acreditar que em breve iria reencontrar com ela, não sabia por que, mas o seu coração
sentia isso de uma forma. Ele não conseguia controlar, apenas tocava era como
se fosse um chamado daquela que o mudou e curou o seu coração carregado de
amarguras e sofrimentos.
Parou de
tocar suspirou fundo, ouviu o piar dos pássaros e uma pétala de cerejeira
entrou pela janela com a ajuda da leve brisa. Mas logo em seguida ouviu uma voz
meio distante cantar. Reconheceu aquela voz cativante e meiga, olhou pela
janela e viu que ela vinha subindo as escadas que cortava o belo jardim.
Ele saiu
da casa e foi conversar com ela, ela se apresentou como se não o conhecesse,
mas ele sabia quem era ela, sabia que a tinha encontrado e era isso que o seu
coração queria lhe dizer.
Ele
também se lembrou do que Kohako disse a ele há alguns anos atrás quando ele
saiu à procura de alguém que se lembrasse dela.
Kiyokazu
saiu das suas recordações com a voz suave dela entrando em seus ouvidos.
- O
piano... Você toca muito bem - ela estava com as mãos juntas em frente ao seu
colo de pé em frente a ele.
- Sinto
muito por tocar sem pedir antes - ele a olhava penetrantemente.
- Não
sei por que, mas de algum modo eu, eu já conhecia essa musica. Isso é estranho,
não é?
- Será
mesmo - ele apenas falava. - Uma pessoa importante para mim a cantou no passado
e eu sempre estive procurando por ela.
- Nossa!
Espero que você seja capaz de encontrá-la.
Ele deu
um sorriso ainda a olhando e pensou. "Já a encontrei".
- Sim.
Então eu posso verificar o interior da sua casa.
- Com
certeza - ela sorriu aquele sorriso que ele tanto gostava de ver nela.
Eles
entraram e ele olhou o que faltava, então ele disse:
- Eu vou
voltar ao escritório para começar os procedimentos de sucessão.
- Muito
obrigada! - ela deu um sorriso a ele que o cativou.
- Também
gostaria de devolver isso a você - ele colocou o confeito na mão dela.
- Hã? -
ela viu a pequena bala redonda em sua mão. - Um confeito?
- E por ultimo... Poderia cantar
aquela canção para mim mais uma vez? - ele queria tanto abraçá-la, beijá-la,
mas com ela sem as memórias ele não poderia fazer isso então tentaria fazer ela
se recordar com aquela musica.
- Claro,
com prazer.
Fujimoto
sentou-se novamente e começou a dedilhar as teclas, formando as notas musicais,
dando asas à pequena musica enquanto ela entrou com sua voz de anjo que
encantava a todos quando a ouvia.
Enquanto
as notas dançavam pelo ar, junto com as petas de cerejeira que entravam pela
janela como se fossem flocos de neve cor de rosas e a doce voz da garota saia
como sinfonia para os ouvidos de Kiyokazu. Suas lembranças iam voltando
lentamente como se fosse uma caixinha de musica a ser aberta para que a
bailarina pudesse aparecer rodopiando com a melodia que lhe convinha.
Uma pequena lagrima caiu sobre o confeito dela
quando ela viu o rosto do rapaz que tocava a melodia no piano.
As
pétalas de cerejeira entraram com mais força pela janela e uma luz branca saiu
do confeito, era como se todas as lembranças dela viessem a tona naquele exato
momento, trazidas pelas flores de cerejeiras.
Depois
de passar a luz branca e o chão coberto com as pétalas formando um pequeno
tapete.
Fujimoto
levantou apressado do banco perto do piano e disse:
- Você
está bem? - ela estava de costa a ele olhando pela a janela, as mãos unidas em
forma de concha.
- Agora
eu entendi. O lugar onde eu devo ir... - Kiyokazu apenas a fitava a ouvindo
ainda de costas a ele. - O lugar onde a pessoa com quem eu mais queria estar...
- Fujimoto se surpreendeu enquanto ainda ouvia a voz doce dela. - Se eu fosse
capaz de encontrar aquela pessoa mais uma vez, dessa vez eu queria ter certeza
de cumprimentá-la com um sorriso... Mas isso é mesmo impossível para mim, não
é? - sua voz saia embargada pela emoção.
-
Kobato? - ele não acreditava que ela havia lembrando e dizia aquelas palavras
com tanta emoção em estar perto dele novamente.
- Sim
Fujimoto-kun, eu voltei - ela sorriu com lágrimas nos olhos.
- Você
me fez esperar por tantos anos... Você está terrivelmente atrasada sabia?
-
Fujimoto! - as lagrimas rolam pelo rosto dela como cascata.
Ela
corre até ele se lançando com os braços em volta do seu pescoço e o rapaz a
beija de uma forma meiga e saudosa.
Fujimoto
sentiu as lágrimas salgadas dela entrando por seus lábios que tocavam o dela.
Sabia
que um dia a encontraria novamente e alguma coisa lhe dizia que seria aquele
dia, e então foi exatamente o que aconteceu, ele estava com quem ela amava
novamente e agora ele iria aproveitar cada segundo de sua vida junto a ela.
Ushagi
derramava o posinho sobre a cidade trazendo as lembranças de todos que
conviveram com aquela menina alegre, determinada e destrabelhada, mas o mais
importante era para o advogado, agora ele estaria perto dela para o resto de
sua vida.
O beijo
ainda continuava em meio a um abraço saudoso e nada mais iria separá-los nesse
momento...
Fim.