Na manhã seguinte, Chichi terminava o
café da manhã e preparava-se para uma viagem até à metrópole do Ocidente para
visitar a amiga que lhe parecera tão aflita no telefonema da madrugada. Nem
fixara as horas em que tinha atendido o telefone, mas era muito tarde e quando
existem chamadas a horas tardias só podem significar pedidos de auxílio que não
devem nunca ser ignorados.
Começava mais uma semana, Gohan e Goten
tomavam o café da manhã ao lado dela. Espreitou-os carinhosamente. Tinha
dispensado o tutor do filho mais velho, indicando para vir no dia seguinte, e
pedira a Gohan que aproveitasse o dia a rever as matérias, enquanto ela ia
fazer a tal viagem com Goten. O adolescente concordara com a mudança de planos,
não se importava de passar um dia enfiado nos livros, mesmo que o tutor não
estivesse ali para o orientar. Depois Chichi acrescentara com meiguice que o
avô, Gyumao, haveria de aparecer por lá para lhe fazer companhia.
Goten, por seu lado, estava excitado com
a viagem para ver o amigo e remexia-se na cadeira, pelo que ela já o tinha
admoestado para se concentrar na refeição e que em breve iriam partir. Mas só o fariam depois de ele comer tudo, pois
precisava de crescer e tornar-se num rapaz bonito como o irmão e como o pai.
- Nii-chan, a okaasan
deixou-me ir ver as cegonhas com o Trunks-kun.
- Ver as cegonhas? – perguntou Gohan
admirado, segurando o hashi entre a
tigela e a boca, o ramen enrolado nas
pontas.
- Hai.
Vamos ver os bebês.
- Bebês? – Gohan perguntou à mãe: –
Cegonhas e bebês…? O que é que se passa?
- Não sabes, nii-chan?! – E Goten ergueu uma sobrancelha com ares de sabedoria.
– São as cegonhas que trazem os bebês!
- Na-nani?
Gohan recordou-se do que diziam os
livros de ciências e corou. Olhou para a mãe, que exibia um sorriso plácido.
Acenou ligeiramente com a cabeça e gaguejou outra vez, dirigindo-se ao irmão:
- P-pois sim… As cegonhas. São as
cegonhas que trazem os bebês… Mas por que razão esse interesse agora por bebês
e por cegonhas?
- Apareceu um bebê abandonado na porta
da Capsule Corporation, dentro de um cesto – explicou Chichi. – Vamos hoje
conhecer a garotinha e… conversar com Bulma. Esse acontecimento tem causado
alguma confusão, Gohan-kun, mas nada de importante. Não te apoquentes. Tens de
pensar nos teus estudos!... Bem, quanto ao bebê deixado num cesto na Capsule
Corporation… Trunks-kun e Goten-kun têm conversado sobre isso e a explicação
que encontraram para o sucedido foi que a cegonha deixou esse cesto.
- Foi a cegonha, sim, ‘kaasan! – exclamou Goten empurrando a
malga indicando que tinha acabado o café da manhã e que estava pronto para a
viagem.
- Claro que sim, querido – confirmou
Chichi passando-lhe uma mão pelos cabelos.
- Ah… Já estou a perceber – disse Gohan
bebendo o caldo e acabando também o seu café da manhã.
Chichi recolheu a loiça, deixando os
dois rapazes sozinhos na mesa da sala onde tomavam as refeições diárias. Gohan
retirou os óculos e pôs-se a limpá-los a uma ponta da blusa branca que vestia
naquele dia.
- Nii-chan?
- Hai, Goten-kun.
- Queres ter uma mana?
Gohan arregalou os olhos, os óculos
suspensos a caminho do rosto admirado com aquela pergunta do irmão. Goten
saltou da cadeira, acercou-se dele e sussurrou, como se fosse um enorme segredo
que não podia ser escutado por mais ninguém que não fosse Gohan, nem mesmo a
mãe que lavava a loiça murmurando uma cantiga, nem sequer as paredes redondas
da casa:
- Sabes? Eu e Trunks vamos encontrar os
ninhos das cegonhas para descobrir onde estão escondidos, para que Bulma-san
não possa devolver a Panty. A Panty é a irmãzinha do Trunks-kun e Bulma-san
quer mandá-la de volta porque… não sei porquê, nii-chan. Então, eu disse a Trunks-kun que também queria ter uma
mana, pois deve ser muito engraçado ter um bebê para nós cuidarmos e para
brincar e disse-lhe que te ia perguntar. Queres ter uma mana?
Com um gesto rápido, Gohan recolocou os
óculos.
- Goten, os bebês… Os bebês…
Por momentos, considerou contar a
verdade para o irmão, mas a expressão ingénua naquela cara redonda demoveu-o. E
depois, como explicaria a física e a mecânica do ato de gerar um bebê a uma
criança de quatro anos que ainda caçava borboletas, nadava atrás dos peixes
gigantes no rio e acreditava em espíritos mágicos escondidos debaixo das
pedras? Sorriu-lhe, assentou-lhe as mãos nos ombros e respondeu-lhe:
- Não me importava nada de ter uma mana,
Goten-kun.
O garotinho sorriu e acenou com a
cabeça.
- Hai!
Vou trazer uma mana quando voltar.
O sorriso esmoreceu, espreitando para a
porta da cozinha, atrás da cadeira onde se sentava Gohan.
- Achas que a ‘kaasan não se importava de termos um bebê cá em casa, nii-chan?
- Acho que não! – riu-se Gohan.
- Bulma-san importa-se…
- Mas a ‘kaasan não é como Bulma-san.
Goten abanou a cabeça.
- Pois não, pois não.
Minutos depois, Chichi saiu com Goten num
aerocarro que acionou no terreno relvado que se estendia diante da casa, antes
deixando Gohan com os mesmos conselhos que já tinha debitado no café da manhã,
repetindo-os, pelo menos, umas três vezes. Deixou-o com a última indicação de
que deveria esperar pelo avô.
No caminho, Goten ia muito calado.
Chichi espreitou-o. Cruzava os bracitos, colava o queixo ao peito e tinha as sobrancelhas
unidas sobre os olhos fixos num ponto invisível do horizonte. Estava a matutar
em algum problema para o qual considerava não haver uma resolução que se
adequava às suas expetativas de menino. Não lhe perguntou nada, sabia que, mais
cedo ou mais tarde, haveria de surgir a frase retumbante que quebraria a
máscara cerrada que resolvera colocar naquela viagem.
E que veio inesperadamente, quando
Chichi acabava de ligar o piloto automático do aerocarro depois de ter definido
a rota até West City.
- Okaasan…
E quando utilizava a palavra inteira, okaasan, com todas as letras, sem a
resumir num apelo mais carinhoso, significava que vinha aí uma bomba. Chichi
sentiu os cabelos da nuca eriçarem-se com um calafrio.
- Eu também quero ter uma mana!
Ao escutar aquela declaração a seco,
Chichi julgou ter escutado mal. Piscou os olhos várias vezes, como se tivesse a
necessidade de clarear a visão e visionar melhor o inimigo invisível que a
atacava inesperadamente.
Mas era apenas o seu filho mais novo,
Son Goten, que tinha acabado de completar quatro anos, que lhe falava.
Rodou o pescoço lentamente e que ficara rígido
para encarar o miúdo. Saiu-lhe um sorriso amarelo, a mostrar os dentes todos e
suspendeu a respiração.
- Queres… ter uma mana?
“Ai,
meu kami! Estes meninos têm com cada
uma!”, pensou aflita.
Goten insistiu assertivo:
- Hai,
quero ter uma mana.
- Mas… uma mana?
- Hai,
o Trunks também tem uma mana.
O pensamento seguinte, eivado de cinismo,
torceu-lhe o sorriso numa careta, Bem,
isso é o que vamos comprovar, pelo menos como uma primeira observação, se o
Trunks tem mesmo uma mana ou não.
Pigarreou, agarrou-se aos comandos do
aerocarro, mesmo que não necessitasse de o fazer, pois o veículo voava sozinho
auxiliado pelo piloto automático, mas precisava de se segurar em alguma coisa.
A resolução seria mais fácil do que se
supunha. Afinal, tratava-se do seu filho com quatro anos acabados de completar.
A declaração do menino não tinha as implicações que ela tinha imaginado num
primeiro momento, aflita e desesperada, enredada no raciocínio intricado de uma
mulher adulta para quem a magia já se tinha esfumado na banalidade de todos os
dias, mesmo que se tivesse casado com um guerreiro alienígena e de todas as
aventuras já passadas e inscritas a letras douradas no livro interior das suas
memórias.
Depois de pigarrear, respirou fundo,
relaxando os músculos da face.
- E vais encontrar uma mana… no ninho
das cegonhas?
Ao perceber que a mãe estava a
compreendê-lo, a falar a mesma linguagem dele, Goten abriu um sorriso sincero e
luminoso.
- Hai,
‘kaasan!
Chichi sorriu-lhe de volta.
- Posso ir buscar uma mana ao ninho das
cegonhas?
Disputava com Trunks o privilégio de ter
uma irmã bebê, assim como disputaria um qualquer brinquedo apetecível, sonhado
e imensamente desejado.
E Chichi respondeu-lhe maternal:
- Claro que sim, Goten-kun. Podes ir
buscar uma mana ao ninho das cegonhas.
***
O átrio do edifício municipal
enxameava-se de gente que vinha para iniciar o seu dia de trabalho, para tratar
de assuntos que necessitavam de alguma aprovação ou certificado do município,
de visitantes que se propunham a visitar a galeria de arte adjacente onde se
expunham, de forma gratuita e recorrente, obras de artistas locais.
Apresentava a costumeira agitação que
ele sempre conhecera do local e cruzou a porta dupla com imponência, queixo
espetado para diante, olhos negros semicerrados, carrancudo, mãos fechadas em
dois punhos, a mesma porta que, no dia anterior, tinha estado encerrada de uma
forma tão determinada quanto a sua vontade de esclarecer aquele assunto do raio
da cria humana.
Parou no centro do átrio, observando o
lugar com atenção, absorvendo todos os detalhes com o instinto assassino e
sobrevivente que lhe era próprio, coisa incutida na sua aprendizagem inicial de
guerreiro. Descobriu um balcão que formava um meio círculo onde uma mulher e um
homem vestidos com o mesmo casaco justo azul-escuro, apenas com um corte
diferente para se adaptar às formas feminina e masculina, atendiam de uma forma
profissional e irrepreensível quem se aproximava. Seria aquele o primeiro passo
a dar naquele labirinto humano e que o levaria à solução pretendida: descobrir
a identidade do homem da foto, acrescentando o endereço e o contacto telefónico
do miserável, pois agora que tinha posto um pé dentro do edifício municipal, só
de lá sairia com essa gloriosa informação.
Vegeta afastou sem cerimónias um casal
com mochilas às costas, indicando tratar-se de um casal de forasteiros, e
encarou a mulher, que tinha a cara exageradamente pintada. A mulher não desfez
o sorriso modelado nos lábios vermelhos, mas os olhos perderam o brilho
simpático. Vegeta assentou as mãos no balcão e retribuiu o olhar intenso. A
mulher censurava-o com aquela cara dura, sorriso fingido e olhos dardejantes,
por ter passado à frente de quem estava a atender.
- Ei… Não sabe esperar a sua vez,
senhor?
E o rapaz de mochila às costas ousara
fazer mais: censurava-o de viva voz. Vegeta ignorou-o, pois apreciara o
tratamento respeitoso. Ao menos, tratara-o por “senhor” e evitara, por uma
nesga de sorte, um murro no meio do nariz.
- Preciso de descobrir a identidade de
alguém. Onde são os arquivos?
A mulher, nunca deixando de sorrir,
respondeu-lhe:
- No segundo piso, senhor. Se apanhar os
elevadores, deverá seguir para a sua esquerda e depois escolher a porta da
direita, onde encontrará a sala de espera dos serviços do registo civil. Os
arquivos encontram-se nesses serviços.
- Hum…
Achava que devia agradecer, era exigível
segundo os padrões humanos, mas ele não era humano. Vegeta limitou-se a retirar
as mãos do balcão e afastou-se.
- Tenha um bom dia, senhor.
- Que malcriado… Nem sequer agradeceu –
observou a rapariga de mochila às costas.
- Há com cada um! – apontou o rapaz.
Seguiu as indicações da mulher, depois
de sair do elevador e tomar os caminhos certos, alcançou a tal sala de espera.
Contou vinte e duas pessoas distribuídas entre as cadeiras que se encontravam
ali para proporcionar descanso a quem esperava e aquelas que estavam a ser
atendidas nas cinco mesas individuais iluminadas propositadamente com lâmpadas
brancas, onde os funcionários do município faziam o atendimento com o auxílio
de computadores. Ao fundo existiam outras secretárias com outros funcionários,
alguns a passar de um lado ao outro com papéis nos braços, e que tratariam dos
processos relacionados com esse tal registo civil. Na parede mais afastada viu
estantes com encadernações diversas e mais papéis, não lhe pareceu nada
semelhante a um arquivo de cadastros de pessoas e começou a sentir-se nervoso.
Encaminhou-se para uma das mesas
individuais, assentou uma mão no tampo e exigiu:
- Quero consultar os arquivos.
O funcionário olhou-o de forma fria e
indicou a parede à sua direita com a esferográfica que tinha entre os dedos:
- Tem de tirar uma senha, senhor, se
quiser ser atendido.
- Não vou tirar senha nenhuma. Quero
consultar os arquivos.
- E esperar a sua vez, senhor –
completou o funcionário a fingir que não o tinha escutado.
- Estás a ouvir-me, verme? Quero
consultar os arquivos!
- Tem de tirar uma senha, senhor –
repetiu o funcionário automaticamente, como se fosse um androide engasgado.
- Não vou tirar porcaria de senha
nenhuma! – irritou-se, crescendo para cima do funcionário, do homem calvo que
este atendia, da mesa e do computador, colocando-se em bicos de pés.
- Se quiser ser atendido, senhor…
- Já ouvi!
- Tem de tirar uma…
- Se me falares outra vez do raio da
senha…
Mas o funcionário não se demoveu da sua lengalenga,
mesmo ameaçado por um saiyajin que
não tinha dormido nada na noite anterior, que tinha sido expulso da sua casa,
que continuava sem perceber por que razão a sua vida fora estragada por uma
insignificante cria humana.
- …senha, senhor.
Os olhos de Vegeta injetaram-se de
sangue. E quando ia explodir num berro que haveria de fazer tremer aquele
edifício todo, desde os alicerces até às telhas, sentiu um puxão suave, mas
firme, no braço esquerdo. Descobriu uma mulher com óculos redondos, franja a
roçar a parte de cima das armações, o cabelo apanhado num rabo-de-cavalo,
vestida com um conjunto saia-casaco verde justo, que lhe acentuava as curvas de
um corpo jovem. Vegeta mirou-a da cabeça aos pés, reparando ainda no detalhe de
uns sapatos de salto verdes que combinavam com o que vestia.
- Venha comigo, senhor.
A voz era agradável, com um timbre
imperioso que não admitiria qualquer espécie de argumentação, recusa ou interrogação.
Então, Vegeta seguiu-a. Passaram pelas secretárias interiores, muitos olhos
voltando-se discretamente na direção deles – ele sabia que o observavam, a sua
truculenta interpelação com o colega deveria estar a criar animosidades e
críticas entre aquela gente. Voltaram à esquerda, a mulher abriu uma porta estreita,
com uma janela no cimo resguardada por um gradeamento de malha fina. Assim que
ele entrou, a mulher fechou a porta atrás deles e as lâmpadas do teto
acenderam-se automaticamente revelando um compartimento onde se alinhavam
estantes altas pejadas de pastas pretas perfeitamente ordenadas. O cheiro
adocicado do papel pairava no ar.
- Desculpe dizê-lo, senhor, mas não
estava a ter um comportamento muito civilizado na sala de espera. Os outros
utentes estavam a ficar incomodados. Nós estamos aqui para servi-lo, senhor,
mas deverá compreender que não é o único que necessita ser atendido e deverá
esperar pela sua vez. Cumprir regras é muito importante para mantermos um
atendimento de qualidade.
Mas Vegeta, distraído com a visão
ordeira das estantes, compreendendo que alcançara o sítio certo naquele
edifício confuso e barulhento, perguntou seco:
- Aqui é o arquivo onde está o cadastro
individual dos habitantes de West City?
O silêncio da mulher fê-lo encará-la com
um olhar negro exigente. Ela empurrou os óculos com a ponta do dedo e que
tinham escorregado por ação de uma fina película de suor que se formava sobre a
pele do rosto. Ela estava, de algum modo, nervosa. Ele jogou com isso. Cruzou
os braços e repetiu:
- Aqui é o arquivo onde está o cadastro
individual dos habitantes de West City?
A mulher era astuta e inteligente,
contudo, mesmo que fosse jovem, pois não aparentava mais do que vinte e cinco
anos. Facilmente manobrável se ele utilizasse alguns truques de sedução que
funcionavam em Bulma, mas orgulhosa o suficiente para fingir que lhe resistia
quando ele esgrimisse esses truques. Teria de ir com cuidado, não queria perder
a vantagem que acabava de conquistar. Ela contornou a pergunta dele com outra
pergunta:
- O senhor quer consultar os arquivos?
- Hai.
Ela inclinou-se ligeiramente, os óculos tornaram
a deslizar pela cana do nariz revelando uns olhos bonitos de cor violeta e
perguntou num sopro:
- O senhor é agente da polícia?
- Não.
A resposta dele fê-la endireitar
imediatamente as costas, sentenciando:
- Senhor, se não é agente da polícia,
não poderei ajudá-lo.
Enfastiado, Vegeta arqueou uma
sobrancelha e ela prosseguiu no mesmo tom profissional, decalcado daquele utilizado
pelo funcionário que lhe exigia o raio de uma senha, imitando um androide
engasgado:
- E teremos de abandonar este local
imediatamente. Os arquivos do cadastro individual dos habitantes de West City
estão protegidos pelas leis de proteção de dados e só estão acessíveis para
consulta em situações especiais. Se pretender, ainda assim, fazer a sua
consulta, sugiro que se dirija ao balcão 1L ponto 20 e que preencha um
requerimento indicando o que pretende, deixando os seus contactos para
recebimento da nossa resposta, que dependerá de despacho superior.
- Ah cala-te, mulher! – exclamou Vegeta
sem paciência.
A mulher indignou-se, mas ele percebeu
que estremecia com um ligeiro odor de excitação. Gostara do tratamento brusco
que lhe dirigira e Vegeta mostrou um sorriso enviesado. Com o estômago às
voltas por desempenhar aquele papel degradante, deu um passo em frente, encurralando
a mulher que se encostou à parede adjacente à porta estreita. Apoiou uma mão na
mesma parede, junto à cara da mulher.
- Tu não me vais negar acesso aos
arquivos, pois não?
Ela inspirou uma grande porção de ar e começou
a gaguejar:
- Senhor, os arquivos do cadastro
individual dos habitantes de West City estão protegidos pelas leis de proteção…
- Já me disseste isso. Anda, preciso da
tua ajuda.
Fez roçar a mão devagar pela parede,
provocando um barulho mínimo captado pelo ouvido esquerdo da mulher, que
entreabriu os lábios pintados. Os óculos moravam na ponta do nariz e ela não
fazia nada para os empurrar para cima. Provavelmente já nem conseguia coordenar
os membros com o próprio corpo que tremia e que se contorcia indelevelmente,
lançando aquele odor peculiar. A vitória era dele e Vegeta acentuou o sorriso
travesso, semicerrando os olhos.
Retirou a mão da parede, tocando ao de
leve e de propósito no ombro da mulher. Levou-a ao bolso e retirou a foto
rasgada com o principal suspeito do crime que ele, mesmo sem ser agente da
polícia, andava a investigar. Prendendo o pedaço de papel fotográfico entre
dois dedos, mostrou o rosto do indivíduo à mulher, explicando:
- Preciso saber quem é ele.
A garganta dela moveu-se indicando que
tentava engolir e restabelecer as funções vitais. Disse-lhe:
- Não vai ser fácil…
Vegeta afastou-se para o lado e indicou
um computador que zunia sobre uma pequena secretária, indicando que estava
ligado, apesar de o monitor estar negro.
- Pesquisa nos ficheiros informáticos por
homens residentes em West City, entre os vinte e os trinta e cinco anos de
idade, cabelos castanho-claro e olhos cor de mel ou castanhos.
- E diz que não é… agente da polícia,
senhor?
Vegeta não lhe respondeu. Ela sentou-se
e ativou o computador dando um ligeiro toque no rato posto junto do teclado,
para retirá-lo do modo adormecido. Perguntou interessada, à medida que surgia
um ecrã da aplicação informática que fazia a gestão das pastas arquivadas ali:
- Faz as perguntas certas e sabe o que
quer… É algum detetive particular?
Ele cruzou os braços e postou-se atrás
da cadeira giratória exigindo:
- Faz o que te peço e rápido. Se estás a
fazer uma coisa ilegal, não queres ser apanhada, pois não?
Uma interjeição indignada saiu dos
lábios da mulher, que teclou rapidamente um login
e uma password, os dedos súbitos
sobre as teclas a revelar que se zangara. Nunca mais falou com ele. Fez a
pesquisa pedida e o computador, ao fim de quinze segundos de uma espera
inquietante, devolveu um total de seis linhas com um código específico que,
decifrado, apontava para as pastas certas da prateleira certa.
Vegeta deixou a mulher seguir os
respetivos códigos, levando a foto rasgada para compará-la com a imagem
existente nos registos. Na quarta pasta, ela demorou-se mais do que fizera com
as anteriores. Olhou com mais cuidado para a foto rasgada e para o registo que
tinha em mãos e depois decidiu-se que a procura tinha terminado. Levou a pasta
entre os braços e mostrou-a a Vegeta, em silêncio.
- Hum… Encontrei-te, miserável! –
exclamou o príncipe.
O homem de cabelos castanho-claro, olhos
cor de mel, chamava-se Miruku-iri Kohi[1] e
morava no bairro sul de West City, uma zona exclusiva de novos-ricos, que
gostavam de exibir as suas fortunas em grandes moradias e em automóveis
luxuosos, que jogavam ténis e nadavam na piscina olímpica de um clube exclusivo
da mesma zona – assim tinha uma vez ouvido Bulma contar à loira. Uma
inutilidade que escutara na ocasião, que descartara por não constituir assunto
de interesse para o príncipe dos saiyajin,
mas que agora regressava à sua mente, rebuscada das funduras da memória, como
algo tão indispensável para a sua vida quanto o ato de respirar.
Vegeta saiu do edifício municipal
triunfante.
Iria mover céu e terra para devolver a
cria humana àquele idiota chamado Miruku. Depois faria o tal exame de DNA que
Kakarotto lhe tinha falado no sonho daquela noite e obrigaria o idiota a fazer
o mesmo exame. E depois…
Depois pensou em Bulma e sentiu-se enfurecer.