sábado, 26 de julho de 2014

A chegada.


 Teria chegado ao destino num piscar de olhos se usasse o Teleporte, era bem a verdade. Mas preferiu sentir a palpitação da ansiedade por vê-los estremecer-lhe as bases, fazê-lo gargalhar rodopiando sozinho pelos ares enquanto pensava que os tempos da mudança haviam chegado, e que finalmente poderia viver como um homem qualquer.
Se seria bom ou ruim, ele não sabia. A única certeza era que iria tentar.
Voou a toda a velocidade. Queria chegar o mais rápido possível, sentir o cheiro fresco da casa, abraçá-los, beijá-la.
E logo, ele estava pousando em frente ao seu lar. Percebeu em volta o olhar das montanhas cúmplices de vigiarem seus passos, saudando-lhes as boas vindas pelo regresso. Os tempos em que vivera ali sozinho com o avô retornaram nostálgicos, claros e quentes como os raios do Sol que iluminavam o vale. Pensou que muitos anos de uma vida conturbada o havia distanciado daquelas auras de molequice inocente, empurrando-as para que ficassem guardadas, com muito cuidado e carinho, bem fundo nas caixas das boas recordações que não podem voltar mais. E o que valia agora, era que tudo ali estava preenchido com sua nova família, seus filhos, sua Chichi, e que por isso não havia motivos para tristezas.
O que ele não percebera foi que havia alguém observando a sua chegada, escondido de tudo e de todos, com o ki baixíssimo para não ser encontrado, olhando o sayajin chegar a seu doce lar. Enquanto o ser se preparava para dar o bote como uma cobra peçonhenta em busca de sua presa, porém esse bote seria na hora certa e em passos lentos e sorrateiros, pois ele queria que fosse tudo perfeito.
Goku entrou voando pela janela aberta da sala só para vê-la irritar-se com a travessura habitual: foi exatamente o que ocorreu. Assim que ele colocou os pés no chão impecável de limpo, a voz que tanto conhecia se fez escutar:
- Aaaiiii Goku! Quantas vezes eu tenho que te dizer para usar a porta? – ela estendia o dedo indicador da mão e brava em direção a ele. Seus cabelos mais curtos, seu rosto um pouco mais enrugado do que se lembrava.
Mesmo assim, achou que estava linda.
Não se atreveu a encolher-se, sorriu. A falta das broncas delas também fazia parte do pacote das saudades, não tinha porque negar, não dava para correr. Permaneceu parado de pé, olhando fixo com ar divertido para a mulher gesticular na sua frente e olhos brilhando.
- Por que está parado aí parecendo um bobo alegre? – perguntou colocando as mãos na cintura, seguindo em sua direção. Abraçou-o forte, enlaçando os braços finos no peitoral forte do marido, aconchegando a cabeça no pescoço do outro – Pelo ao menos vai ficar para almoçar dessa vez?
Ele erguendo-a pela cintura com jeito, rodopiou-a no ar, sorrindo os dois.
- Terminei o treinamento do Oob, Chi – ele a colocou no chão, a olhou nos olhos, passou a mão no seu rosto delicado, levando-as na nuca por detrás dos cabelos escuros.
Não achava certo que cortasse o cabelo, também nuca disse que era a favor. Adorava os cabelos longos e sedosos, principalmente quando grudavam no seu corpo deixando o cheiro dela impregnar na sua pele, mas ele não podia dizer reprimendas caprichosas: ela sempre o apoiou em tudo.
Deslizou as mãos grandes na cintura dela e a puxou de leve pra mais perto e lhe deu um  beijo voraz.
Chichi apenas sentiu as suas pernas amolecerem, não teve tempo de afastá-lo e nem queria. Após alguns segundos, ele soltou dos lábios dela, segurando  pela cintura, percebeu-a mole.
- Odeio quando faz isso! – mais uma vez, ela encostou a cabeça no seu tórax, respirando fundo para sentir o cheiro dele.
- Não parece que você odeia – debochou malicioso.
- Ah, nem vem Goku, logo o Goten logo chegará em casa e a Pan deve estar para chegar da escola...
Ela se afastou, retomando o compasso ímpeto de sempre, arrumando os cabelos por cima da cabeça, consertando a blusa amassada no corpo.
Ele fez bico, suspirou fundo e sussurrou em seu ouvido:
- Dessa vez passa, mas a noite que me aguarde.
Chichi sorriu sincera, achou engraçado. Há alguns anos atrás ele não era assim, não sabia o que era malícia. Há alguns anos atrás quando se casaram por aquela promessa de criança, teve que deixar os pudores de lado para incentivar o marido a ser o seu homem, ensinando-lhe como podia as sutilezas dos prazeres íntimos, dos toques intensos, dos gostos fortes... Quem diria que agora era diferente, um homem viril com fogo nas ventas difícil de apagar.
- Estarei aguardando – respondeu divertida,  seguindo para a cozinha.
- Ver vocês assim é estranho – comentou Goten entrando a porta.
- Assim como? - perguntou o sayajin de sangue puro ao filho.
O rapaz revirou os olhos e achou melhor nem falar nada.

Chichi apenas sorriu apesar de tudo o marido ainda guardava aquele ar de inocência nato dentro dele. 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Prólogo.

Se havia uma coisa que Goku fazia melhor  do que lutar, mesmo sendo o melhor combatente dentre os conhecidos, era nunca fugir das suas obrigações com as artes marciais. Desde pequeno, abdicava de tudo e todos para se dedicar a esse hobbie, que tornou-se mais que simples diversão. Um estilo de vida, que o fazia respirar golpes precisos e disciplina exemplar nas artes das lutas em busca de tornar-se um guerreiro imbatível como se fosse oxigênio. Mais tarde, a descoberta de que pertencia a raça dos lendários guerreiros sayajins e como bônus, a certeza da força descomunal e de que o apetite indômito por guerras corria em suas veias, só o fazia ser destaque dentre dos lutadores de sua geração. Com seu carisma e boas intenções ele tornou-se um homem destemido, confiável e com mais obrigações para o além das batalhas: o salvador da raça humana. E com este título conquistado com muita labuta e força de vontade, veio grandes responsabilidades que naquela altura da sua jornada, decidiu que precisava partilhar com mais alguém que não fosse seus amigos queridos e já conhecidos companheiros de tormentas.
Com a ajuda de Vegeta,venceu Majin Boo numa das inúmeras batalhas que decidiu o destino da Terra. Alguns anos depois, após descobrir que a face maligna do vilão derrotado havia reencarnado na pele de um jovem humilde e extremamente forte chamado Oob, viu a chance em auxiliá-lo para que não pendesse para o lado negro das estradas da vida: haveria de treiná-lo, um pupilo a sua imagem e semelhança.
Com mais esse fardo pesado nas costas, que não podia negar: também refletia do seu egocentrismo particular de bem feitor universal. Saiu para longe de casa sem pensar duas vezes. Mais uma vez  treinaria o jovem aprendiz em seu próprio vilarejo, num pedaço de terra remoto no mundo onde só eles sabiam a localização ao certo.
Goku passou tempos incontáveis longe da família, largando-os à própria sorte sem ter notícias boas ou ruins, aparecendo vez ou outra quando se lembrava vagamente das obrigações patriarcas as quais nunca fora adepto,  numa via de mão única, já que só ele poderia ir visitá-los e nunca o contrário.
Mas esse tempo de distância havia acabado. Missão cumprida: terminara o Oob muito bem passando todos os seus conhecimentos e técnicas que o menino fora capaz de adotar.
Oob tornou-se um rapaz ávido e disciplinado, pronto para duelar com quem quer um que tentasse tirar a ordem natural de paz.
Moldara uma pessoa do bem. Entretanto, apesar de ter passado bons momentos com o garoto, ensinando-o truques marciais e se divertindo nas horas de descanso, firmando um laço verdadeiro de afeto entre os dois, queria mesmo era voltar para o seu canto.
 A lembrança dos sorrisos sinceros dos seus filhos, das mãozinhas rechonchudas de sua única neta ainda pequenina, do cheiro da comida quente lhe servida com tanto carinho e do gosto da pele doce dela. Sim, daquela mulher por vezes irritante, grossa e inquieta, mas de uma alma meiga transbordante de um amor voraz que só ele sabia domar o saturava a com a certeza de que era hora de voltar para casa. Já não era tão jovem, apesar da aparência. Já não era tão livre, apesar da necessidade.
Sentindo que não restava mais o que fazer naquele lugar, e que as ondas da saudade começavam a fazer redemoinhos em seu coração tirando-lhe o ar dos pulmões, tamanha a profundidade dos sentimentos. Goku sabia que finalmente estava na hora de voltar para seu lar.
Era uma manhã morna e sem nuvens no céu. De pé na relva, ele olhou a sua volta, estava tão calmo, reparou em cada casinha singela da aldeia onde Oob mora, lembrando-se da sua própria, pensamento longe. Colocou as mãos na cintura, suspirou o ar fresco do local, fechou os olhos com o vento leve a balançar os cabelos revoltos...
- Senhor Goku, já vai? – perguntou Oob olhando para cima.
- Sim Oob, chegou a minha hora – abriu os olhos ao garoto, passando a mão na cabeça dele, brincalhão.
– Venha me visitar de vez em quando, não se esqueça - o jovem olhou nos olhos do sayajin.
Goku, com o semblante meigo, apenas fez um gesto de sim com a cabeça em resposta: era hora de partir.
Respirou fundo. Acenou para o pupilo e levantou voo. O alvo cravado no ponto certo onde aterrissar na Montanha Paozu fixo na mente

E nos lábios, um sorrido carregado de promessas se formou.