Aspirou cuidadosamente o fumo para
prolongar ao máximo a sensação de relaxamento. Era como se o tempo tivesse
parado naquele instante. Os pulmões encheram-se, sentiu o sabor, o odor, os
sentidos mergulhando no vício. Estava de olhos fechados, pelo que a visão se
focava num ponto qualquer no seu interior que vibrava com o desejo satisfeito.
Depois, expeliu o fumo ainda com mais cuidado, acalmando-se, compreendendo que
o frenesim se ia embora com mais aquela expiração. Nada como um cigarro para
lhe devolver clareza à mente confusa.
Finalmente, um pouco de nicotina na sua
vida, suspirou Bulma.
Chichi tinha acabado de sair da Capsule
Corporation e ela estava na sacada do seu quarto, a contemplar o bulício
vespertino de West City, enquanto fumava o cigarro tantas vezes adiado. O maço
de cigarros saía e entrava no bolso, tentando-a, escarnecendo dela, quase que o
atirara pela janela numa ocasião. Mas sabia que, mais cedo ou mais tarde,
conseguiria aqueles minutos de isolamento que lhe permitiriam saborear a sua
solidão.
Estava sozinha e, se pensasse bem,
talvez a culpa fosse somente dela. Ainda não digerira convenientemente a
situação ou talvez não o viesse a fazer nunca, pois criara instintivamente uma
barreira para impedir que se magoasse para além daquilo que acharia aceitável e
suportável. Soltou mais uma baforada de fumo, pensando se não estaria magoada,
se o facto de estar ali na sacada não era já um sinal de que tropeçara numa
ferida aberta, mas depois ajuizou que não. Todas as decisões que tinha tomado
serviram precisamente o propósito de protegê-la da estocada fatal que haveria
de lhe destroçar o coração para sempre.
Chamara por Chichi e ela viera. De certo
modo, ajudara-a. Mesmo que tenha parecido tão irredutível na sua teimosia e na
sua crença de que a garotinha era filha de Vegeta, ficara um pouco aliviada por
a amiga não ter detetado nenhum sinal evidente de que a bebê tinha sangue saiyajin. Era já um princípio…
O cigarro fumegava entre os seus dedos.
Um princípio de quê? Podia ser do
regresso à normalidade, de uma reconciliação, da aceitação da sua nova
realidade de mulher livre. Crispou os lábios, o rosto tornou-se rígido. Estava
novamente sozinha. Não suportou essa ideia e afastou-a, cansada, puxando outra
passa ao cigarro.
Chichi tinha-se ido embora, alegando que
a viagem era longa e que Gohan ficara sozinho em casa. Deixara-a ir,
agradecera-lhe a visita. Abraçara-a e chegara a parecer carente nesse gesto,
mas precisava do calor de um abraço. Depois, Chichi chamara por Son Goten e o
filho não estava em lado nenhum. Nem Trunks, pelo que estariam juntos, os dois
pestinhas… Calcorrearam os corredores da Capsule Corporation, chamando pelos
nomes dos miúdos. Quando o sumiço lhes parecera esquisito, Trunks e Goten
tinham aparecido a correr, dos lados da sala gravitacional.
- O que estavam a fazer? – perguntara
Bulma desconfiada.
- Estávamos… a treinar – explicara
Trunks ofegante. Goten estava suado, com o polegar enfiado na boca, a olhar de
baixo para cima.
- A treinar?
- São filhos de quem são, Bulma –
rira-se Chichi. – Não é de estranhar que gostem de brincar… treinando!
Para quem massacrava o filho mais velho
com livros desde que deixara as fraldas, aquela declaração fizera Bulma
admirar-se. Mas depois sorrira. Trunks e Goten despediram-se atabalhoadamente,
gaguejando algumas palavras e Chichi partira, por fim, de West City. Vira o
aerocarro distanciar-se nos céus através de uma janela larga, ao lado de
Trunks.
- Será melhor não voltares a utilizar a
sala gravitacional sem a permissão do teu pai, Trunks-kun.
O filho olhara-a assustado.
- Eu… Eu não volto a fazer isso, ‘kaasan.
Saíra esbaforido e fechara-se no seu
quarto. Evitava mais perguntas ou levara o aviso a sério? Qualquer uma das
hipóteses era tão esquisita quanto o sumiço dos dois miúdos e Bulma encolheu os
ombros, esquecendo a dúvida. Não precisava de mais dúvidas ou coisas esquisitas
na sua vida, naquele momento. Então decidira que estava na hora do seu cigarro
tantas vezes reprimido.
Sacava do segundo cigarro quando a porta
se abriu.
- Bulma-chan!
A voz da mãe causou-lhe um arrepio.
Estava alegre e tratando-se da senhora Briefs nunca significava boa coisa.
Equilibrou o cigarro apagado entre os dedos, fazendo-o rolar entre estes.
- Bulma-chan, preciso de ti.
Encarou a mãe desconfiada, pois nunca
precisava dela e certamente que não o declarava assim tão levianamente. A senhora
Briefs sempre fora impecavelmente eficiente e independente.
- Precisas… de mim?
- Hai,
vou ao shopping.
- E precisas de mim… para ir ao shopping?
A senhora Briefs deu uma risada
discreta.
- Oh, não, Bulma-chan! Preciso que
cuides da Panty enquanto vou às compras.
Bulma escancarou a boca, o cigarro
caiu-lhe dos dedos.
- Na-nani?!!
- Ela já tem uma fralda nova e está a
dormir. Quando acordar, basta dares-lhe uma papinha e brincar um pouco com ela.
Nada muito difícil… Ainda te deves lembrar como é. – Juntou as mãos no peito
com um suspiro. – Ela é tão adorável como Trunks era quando tinha a mesma
idade. E tu cuidavas tão bem do Trunks-chan! Com a Panty é a mesma coisa.
Bulma endireitou as costas, estremecendo
com a indignação.
- ‘Kaasan,
não sei se te apercebeste, mas essa garotinha…
A senhora Briefs interrompeu-a, ficando
repentinamente muito séria.
- Hai,
Bulma-chan, apercebi-me. Claro que me apercebi.
Não estava à espera daquela mudança de
humor, nem da réplica e Bulma baixou as suas defesas.
- Ah… sim? – disse com a voz trémula.
- Claro! Essa garotinha… não tem nada
para vestir!
A declaração soube-lhe a um banho de
água gelada.
- Nani…
‘kaasan?!
- É uma tragédia, Bulma-chan. Concordo
contigo. Mas não devemos exigir demasiado da pobrezinha da mãe da Panty. Se a
abandonou, é porque deve estar a passar por grandes dificuldades… Não devia ter
um grande guarda-roupa para a menininha.
Bulma engoliu em seco, nem conseguia
reagir convenientemente àquela conversa descabida da mãe depois do banho
gelado.
- Acho que o escasso guarda-roupa da
bebê é das preocupações menos importantes que devemos ter… – murmurou.
A senhora Briefs não pareceu que a
tivesse escutado e prosseguiu o discurso:
- Mas não há qualquer problema. A mãe
deixou-nos a garotinha ao nosso cuidado e nós vamos cuidar bem dela, não é
assim? A começar por vesti-la convenientemente, de acordo com o padrão de um
membro da família Briefs.
Bulma cruzou os braços, agastada.
- Ah… Agora ela é um membro da família
Briefs? Caiu aqui há menos de três dias e já goza desse estatuto?
- Oh, Bulma-chan… A Panty faz parte da
família!
- Faz?
- Hum-hum. Falei com o teu pai e ele
concorda. Teremos de proceder à adoção formal da Panty, quanto mais cedo
melhor. Não devemos prolongar uma situação ilegal no interior da Capsule
Corporation.
- Adoção formal?
- Ela é a nossa neta!
- E filha de quem?!
Bulma avançou furibunda para a mãe.
- Okaasan,
a garotinha não é como um daqueles animais abandonados que o pai recolhe no seu
zoológico particular… É… É uma menina, que tem um pai e uma mãe.
A senhora Briefs fez um único aceno
positivo e vigoroso com a cabeça.
- Precisamente. É uma menina, que foi
deixada na porta da Capsule Corporation, rejeitada pela mãe. Não a podemos
rejeitar outra vez. O que querias que fizéssemos com ela, Bulma-chan?
Não tinha resposta para aquilo. Desviou a
cara, fechou os olhos, mordeu o lábio inferior, abraçou o próprio corpo. O
efeito calmante da nicotina já se tinha diluído na conversa com a mãe. Como só
as mães conseguem fazer, conseguira em poucas palavras acusá-la de estar a ser
uma tremenda egoísta.
Como se nada tivesse dito, a senhora
Briefs soltou um gritinho e anunciou antes de deixar a sacada:
- Vou gastar uma pequena fortuna no shopping! Vai ser tão divertido comprar
roupinha de bebê e agora para uma menina! Ai, tantos vestidinhos, tantos
lacinhos, tantos ganchinhos! Já estava com saudades de cometer uma loucura
destas… Trunks-chan cresceu demasiado depressa… E de ti, minha pequenina Bulma,
nem falo.
Bulma ficou sozinha na sacada, sem
qualquer vontade de acender o segundo cigarro ou vontade de se mexer. Gostaria
de ficar ali para sempre, imóvel, petrificada na sua angústia, uma decoração da
sacada, uma nova obra de arte para a Capsule Corporation.
Estava cada vez mais isolada naquela
história toda.
***
Não teve outro remédio senão ir ao
antigo quarto de Trunks e espreitar a garotinha. Abriu a porta devagar, pois a
mãe tinha-lhe dito que ela estava a dormir, e entrou em bicos dos pés, com
extremo cuidado para não fazer qualquer ruído brusco que a pudesse assustar.
Parou junto ao berço e espreitou lá para dentro, a medo.
Tinha medo, sim. Principalmente de
enfrentar a verdade.
Sacudiu a cabeça.
“Esquece,
Bulma! Estás a tornar-te paranoica com a garotinha… Não passa de um inocente
bebê rejeitado pela mãe. E tu também a vais rejeitar? E se toda a gente desta
casa a rejeitasse, o que seria dela? Até Chichi te disse que ela não tem sangue
saiyajin nas veias, por que razão
continuas a insistir nessa ideia?”.
Esfregou a cara, os olhos, como que a
querer despertar do transe.
Ela sabia a resposta. Porque queria ter
a absoluta certeza de que a garotinha não era, definitivamente, filha de Vegeta
e queria saber isso pela boca dele. Uma afirmação indesmentível, nada de meias
palavras.
E de que lhe serviam as palavras? Raios,
ela estava a enlouquecer e a esquecer-se de quem era. Nada de palavras,
decidiu. Nada de conversas perversamente sérias. Ela iria exigir um teste de
DNA.
Cruzou os braços, empinando o nariz.
Chamaria Vegeta de volta a casa e pediria
uma amostra de sangue. Se ele se negasse, haveria de a roubar. Bastava que o
inebriasse e que o distraísse, ela tinha os atributos necessários para isso.
Fingiria que estava arrependida, atraía-o à sua cama e quando o tivesse
acalmado, domado e adormecido, bastava uma picadinha e conseguiria o sangue que
precisava.
Sorriu. No dia seguinte, começaria a
procurar pelo paradeiro do príncipe.
A garotinha despertou a choramingar.
Bulma empalideceu, volvendo os olhos
azuis para o berço.
Nunca tinha agarrado nela, nunca lhe
tinha dispensado mais do que um punhado de segundos da sua atenção, nunca se
tinha rido para ela, ou brincado, ou simplesmente cuidado dela. A bem de ver,
eram duas completas estranhas uma à outra.
Estendeu as mãos, dedos abertos, fazendo
um esgar. Reparou na sombra maquiavélica que estas faziam sobre a bebê, como
garras de uma bruxa e recolheu as mãos envergonhada.
- Não hesites, Bulma! – remoeu.
A garotinha abriu a goela num berreiro
estarrecedor.
E Bulma não hesitou. Retirou-a do berço,
segurando-a por debaixo das axilas. Deixou-a suspensa sobre a pequena cama, a
observá-la, a analisar o choro, a tentar descodificar qual a necessidade que se
escondia atrás daqueles vagidos.
Continuava com medo.
Respirou fundo, determinada. Iria vencer
todos os seus receios, a começar pela reticência em ter a garotinha mais perto
dela. Por isso, num impulso, abraçou-a.
- Pronto… Pronto, o que tens tu, bebê?
“Panty”,
pensou com uma careta. “Ela chama-se
Panty. Por que não a tratas pelo nome dela? Até pareces o Vegeta quando embirra
com alguma coisa e desata a tratar as pessoas com desdém… Eh, mulher… Oh,
loira… Ei, cientista!... Pirralho, vem cá!”.
Foi capaz de se rir de si própria.
Mas a garotinha continuava agitada. Ao
respirar fundo pela segunda vez, percebeu que a fralda precisava ser mudada. Bem,
a mãe tinha-lhe dito que ela ainda se devia lembrar como era tratar de um bebê
e ela queria provar que era competente nessa área, mesmo que se tivessem
passado três anos desde a última fralda que mudara.
Deitou a garotinha no trocador, muniu-se
com os adereços necessários: fralda, creme para as assaduras, toalhitas
humedecidas. Desempenhou a tarefa com uma rapidez e acerto extraordinário.
Completada a mesma, a garotinha estava calada e ela estava orgulhosa. De mãos
assentes na cintura, exclamou:
- Bulma Briefs é um génio! Nada a
assusta!
Próxima tarefa, alimentar a garotinha.
Carregou-a ao colo até à cozinha, sentou-a na cadeirinha, preparou a papinha.
Puxou uma cadeira e sentou-se à mesa, defronte da bebê que a mirava desconfiada,
uma sobrancelha carregada. Não quis pensar muito naquela expressão, nem que
esta lhe faria, provavelmente, recordar alguém.
- Vamos comer, pequenina?
Continuava sem conseguir chamá-la pelo
nome, mas tudo no seu devido tempo. Ter chegado até ali já era uma conquista
tremenda e se lhe exigissem demasiado, apesar de toda a segurança exibida exteriormente,
era bem capaz de se partir em mil bocados impossíveis de ligar e restaurar o
que ela tinha sido e o que era na atualidade.
- Vamos comer? – repetiu, enchendo uma
colher de papa.
A garotinha voltou a cara ligeiramente,
mas não apartou o olhar. Bulma sorriu-lhe para tranquilizá-la e, de certo modo,
conquistá-la. A garotinha era inteligente, não estava a reconhecê-la como quem
cuidava habitualmente dela naquela nova casa e não se entregava assim tão
facilmente. Era uma sobrevivente e isso era excelente. Bulma gostou da sua
atitude defensiva. Mas ela não era sua inimiga. Balançou a colher enquanto ia
transpondo o espaço até aproximá-la dos lábios rosados da bebê. Ao sentir o
contacto e o odor apetitoso da comida, Panty entreabriu a boca e Bulma
conseguiu dar-lhe a primeira colher de papa.
- É bom, não é, pequenina? Papinha
boa!... Vamos agora à segunda? Vais ver que vai saber tão bem quanto a
primeira.
Encheu a segunda colher de papa e
levantou-a devagar. Tudo muito lentamente, para não amedrontá-la e destruir a
confiança construída até ali, desde a primeira colherada. Sorria-lhe sempre.
Panty abriu a boquita antes de sentir o contacto do metal. Cada vez estava a
correr melhor.
No fim da papinha, a garotinha já batia
palmas. Bulma sorria satisfeita, o instinto maternal a vir à tona,
inesperadamente, enchendo-lhe o coração de alegria e de calor. Aquele primeiro
encontro estava decididamente a correr bem.
***
A clínica destacava-se no centro de um
jardim bem cuidado, um edifício austero com uma indesmentível aura de
eficiência e de organização. Havia gente vestida com batas brancas junto à
porta principal aberta, conversando. Num edifício adjacente funcionava a
entrada para o serviço de urgências, onde estava estacionada uma ambulância.
Vegeta pousou no gramado, soltando o
miserável que carregara através de metade de West City. Este gemeu ao bater no
chão, depois ao esfregar o braço dorido.
- Levanta-te e caminha à minha frente!
O miserável obedeceu à ordem sem
contestar. Continuava com o cheiro característico do medo e Vegeta reteve a
tentação de o pontapear. Odiava que se mostrassem subservientes, perdia-lhes o
respeito e acicatava-lhe o instinto assassino. Rangeu os dentes, procurando
acalmar-se.
Franquearam a porta principal,
abeiraram-se do balcão das informações. Vegeta exigiu saber onde se faziam
exames de DNA e a mulher que os atendeu indicou calmamente o segundo piso e que
deveria tomar o elevador que ficava à direita. Ele arrastou o miserável pela
gola da blusa e alcançaram o segundo piso.
- Quero fazer um exame de DNA! –
exclamou irritado ao verificar que se deparava com um segundo balcão de
informações.
A mulher anafada que o atendia
semicerrou os olhos.
- Tem marcação, senhor?
Lembrou-se do episódio no edifício
municipal e o sangue começou-lhe a ferver. O miserável do Miruku continuava
preso pela gola da blusa, calado que nem um rato, a suar em bica. Vegeta
inclinou-se sobre o balcão, inclinou-se sobre a mulher anafada dos olhos
semicerrados e disse rouco:
- Escuta, mulher… Estou a ter um dia
horrível e quando os meus dias são horríveis, torno-me perigoso. Por isso,
arranja maneira que eu possa fazer um exame de DNA… imediatamente! Ou vais ter
de procurar outra clínica para tratar dos ferimentos que eu te vou provocar,
pois esta vai ficar reduzida a escombros.
Na pausa que se seguiu à ameaça, a
mulher anafada abriu os olhos, pestanejou quatro vezes, inspirou e expirou e
inspirou, humedeceu os lábios. Considerou as palavras dele, acreditou nelas e
disse, apontando o monitor com a esferográfica que segurava na mão direita.
- Hum… Acho que tenho uma vaga neste
momento para o doutor Sulla.
Vegeta endireitou as costas.
- Ótimo! E onde fica o consultório desse
doutor Sulla?
- Primeiro temos de preencher uma ficha…
- Que se dane o raio da ficha! – gritou
Vegeta. – Onde fica o gabinete desse doutor Sulla?
A mulher anafada susteve a respiração,
esticou a esferográfica por cima do balcão, sem dizer uma palavra. Vegeta puxou
pelo miserável do Miruku, resmungando:
- Ótimo…
Abriu uma porta castanha, onde leu numa
placa escrita com letras douradas o nome que fora indicado pela mulher anafada.
O médico estava à secretária a escrever, levantou os olhos do papel assim que
deu pela porta aberta. Reparou nos dois homens, retirou os pequenos óculos
redondos e perguntou num tom cordial:
- Posso ajudá-los?
Vegeta entrou no consultório empurrando Miruku
com uma destreza tal que o fez sentar, sem qualquer esforço ou movimento
denunciável, na cadeira que ficava defronte da secretária. Cruzou os braços e
explicou brusco:
- Preciso que esse miserável faça um
exame de DNA. E rápido! Não tenho tempo a perder.
O médico pousou a caneta de tinta
permanente que estava a utilizar. Entrelaçou os dedos e passou primeiro aos cumprimentos:
- Boa tarde, senhor. E boa tarde também
para si, senhor Miruku.
Vegeta arqueou uma sobrancelha.
- Conheces este miserável?
- É um dos meus pacientes… E o senhor?
Creio que não se apresentou – acrescentou, arqueando também uma sobrancelha.
Vegeta fez um esgar.
- Quem eu sou, não interessa! É ele que
vai fazer o exame de DNA, não eu. E se já se conhecem, melhor. Podem-se poupar
certas formalidades.
- E para que é que precisa de um exame
de DNA do senhor Miruku, posso perguntar?
- Não pode perguntar.
A mulher anafada apareceu na porta do
consultório, Vegeta espreitou-a pelo canto do olho. Aguardou indicações do
médico, que apenas lhe fez um sinal mínimo com a cabeça para não dizer nada e
esperar. Miruku limpou o suor da testa com a mão.
- Muito bem, senhor Miruku – disse o
médico num tom amigável. – Temos aqui alguém que está a exigir um exame de DNA.
- Eu faço, eu faço – respondeu Miruku
muito depressa.
O médico olhou Vegeta de relance, antes
de continuar:
- Então, se está de acordo, senhor Miruku,
julgo que podemos passar ao procedimento que determina o exame.
- Quero saber se isso vai ser demorado –
disse Vegeta.
- Os resultados ficarão prontos dentro
de três dias.
- Impossível! – contestou Vegeta
zangado. – Não posso esperar esse tempo!
- Mas vai esperar – retorquiu o médico
autoritário. – Trata-se de um teste complicado e o laboratório precisa de tempo
para apurar os resultados cientificamente corretos. Julgo que pretende rigor,
senhor. E nós também queremos servi-lo da melhor maneira. Por isso, vai dar-nos
os três dias de que necessitamos para lhe entregar um excelente exame de DNA.
Vegeta rugiu.
- Posso adiantar-lhe, senhor, que três
dias é o tempo mínimo. O prazo normal de entrega de um exame de DNA é de um
mês.
- Se eu descubro que me estás a enganar.
O médico, de cotovelos apoiados na
secretária, mostrou-lhe as mãos.
- Por favor, senhor. Somos todos homens
sérios.
Levantou-se da cadeira e Miruku, ato
contínuo, fez o mesmo.
- Agora, se nos der licença, senhor, o
exame será feito pelo senhor Miruku e vamos precisar de privacidade.
- Não basta tirar uma simples amostra de
sangue?
O médico sorriu complacente.
- E não só, senhor. Por favor, queira
acompanhar a minha colaboradora para tratarmos de aspetos burocráticos.
Desculpe fazer-lhe a pergunta, mas quem vai pagar o exame?
Vegeta sorriu de viés.
- A Capsule Corporation – respondeu.
Contrariado, mas satisfeito com a
disponibilidade do médico, Vegeta saiu do consultório atrás da mulher anafada.
Ela pediu-lhe para esperar um pouco, iria trazer a tal ficha que ficara por
preencher e talvez um café ou uma água. Vegeta disse-lhe que não queria beber
nada, que só queria tratar da porcaria dos aspetos burocráticos e que o exame
fosse realizado, de uma vez por todas.
No interior do consultório, subitamente,
Miruku agarrou no médico pela gola da bata branca, debruçou-se tanto que colou
o seu nariz ao do espantado clínico. A voz era trémula.
- Doutor Sulla… Ajude-me, onegai shimass!
Espreitou por cima do ombro e reparou
que o louco dos cabelos espetados distraía-se a olhar para uma mesa quadrada,
onde se espalhavam revistas sobre viagens. Teria ainda alguns segundos mais e
poderia explicar melhor o pedido desesperado, pois o médico estava com uma cara
que indicava que pensava que ele é que estava louco e não o homenzinho que
sabia voar.
Então explicou, a tremedeira a
estender-se da voz às mãos que amarrotavam a gola da bata branca.
- Fui sequestrado! Preciso chamar a
polícia e denunciar o crime!
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