Trunks ficara intrigado com os
acontecimentos daquela tarde de sábado e mal se conseguia concentrar no jogo
eletrónico. Teclava os botões do comando da consola de forma automática, sem
ver realmente o que se passava no ecrã, em que os inimigos se enxameavam em
redor do herói da contenda, mal se desviando dos golpes traiçoeiros, não
recolhendo qualquer peça indispensável para aumentar a pontuação, não cumprindo
o objetivo primordial do desafio, superar as sucessivas plataformas
apresentadas.
E quando ficava intrigado, para além de
perder a concentração, sentia uma grande necessidade de desabafar e de contar a
alguém o que se estava a passar. Por isso, largou o comando da consola e o
herói virtual à sua sorte, puxou pelo fio do telefone que gostava de enfiar
debaixo da cama, deitado sobre o colchão, cabeça pendurada, os cabelos a formar
uma cortina lilás.
Agarrou no auscultador e marcou o
número. Mordeu o lábio inferior, nervoso. Foi Chichi que atendeu. Ele pediu
para falar com o amigo e ouviu o grito descabido dela a chamar pelo filho,
seguido de:
- Ele já aí vem, Trunks-kun.
Quando Goten apareceu no outro lado da
linha, disse-lhe:
- Komba-wa,
Trunks-kun… Eu ia dormir agora…
- Sabes? Tenho uma irmã! – disparou
alegre, rodando o corpo de molde a ficar deitado com as costas sobre o colchão.
- Uma irmã?! Como foi que isso
aconteceu?
- Vieram deixá-la à porta da minha casa.
Do outro lado, percebeu a pausa como um
franzir de testa.
- Oh… Só eu não tenho surpresas dessas.
Uma vez deixaram um bebê à porta da minha casa também.
- Honto?
- Hai.
Mas era um bebé dinossauro, dentro de um ovo. O nii-chan teve de o devolver ao ninho, a ‘kaasan obrigou-o a fazer isso.
- Pois… Goten-kun, acho que a minha mãe
também quer devolver a minha irmã, só que não sabe de que ninho veio ela.
- Vai devolver a tua irmã? Não gosta
dela?
- Pelos vistos… não. Quem está a cuidar
da minha irmã é a minha avó e o meu avô.
- Oh!...
- E isso deixa-me muito preocupado.
- Porquê, Trunks-kun?
- Quando eu fizer uma grande asneira…
eles vão devolver-me também.
Goten deu um grito no outro lado da
linha, a indicar que ficara chocado.
- Honto,
Trunks-kun?
- Hai.
E se tu não te portares bem, vais ver… Acontece-te o mesmo!
- Não pode ser! E para que ninho vou eu,
se sair desta casa?
- Sei lá… E eu, que não tenho ninhos por
perto?
- E de que ninho saiu essa tua irmã, se
não existem ninhos por perto?
- De algum ninho deve ter saído… Olha,
se calhar… Vou precisar da tua ajuda.
- Que tipo de ajuda, Trunks-kun?
- Quando as coisas ficarem feias… Mas
mesmo muito, muito feias, o que quer dizer quando o meu pai e a minha mãe
começarem aos gritos um com o outro, eu vou ter de salvar a minha irmã.
- Ah!... Eu ajudo-te, Trunks-kun.
- Arigato,
Goten-kun.
- Mas…
- O que foi?
- Mas se ajudares a tua irmã… pode ser
uma asneira daquelas muito grandes. Não pode?
- Hai.
Já estou a pensar nessa possibilidade – e enrolou a língua a dizer aquela
palavra tão complicada.
- E também vais ser devolvido?
- É o mais provável.
- Podes ficar na minha casa, Trunks-kun.
- Mas se tu vais ajudar-me, também vais
fazer uma asneira muito grande e também vais ser devolvido.
- Ah… Honto? Mas… Acho que a minha mãe não me vai querer devolver, mesmo
que eu faça a maior asneira do mundo.
- Porque é que dizes isso, Goten-kun?
- Porque o meu pai não está aqui comigo
e com o nii-chan. E ela diz que eu
sou como o meu pai e gosta muito de mim, pois eu faço-lhe lembrar o meu pai.
- Quando fizeres a asneira muito grande,
ela vai esquecer-se do que disse. E manda vir outro igualzinho a ti.
- Ahn?
Mesmo sem o ver, Trunks sabia que o
amigo estava a piscar os olhos muito depressa.
- É assim que funciona, Goten-kun –
explicou com um toque de sabedoria na vozita pueril. – Mandamos vir os meninos
e as meninas que queremos.
- Ahn? Então… E a tua irmã? Quem é que a
mandou vir?
Uma falha no seu raciocínio, nada que o
incomodasse. Trunks encolheu os ombros.
- Não sei. Mas ela está aqui.
- Como é que se chama?
Trunks percebeu que havia essa falha.
Coçou a cabeça com um dedo.
- Ah… Não sei.
- Ela ainda não tem nome?
- Não, Goten-kun.
- Podemos dar-lhe um nome?
- Acho que sim…
- Então, como é que a vais chamar?
Após uns segundos de congeminação,
Trunks exclamou:
- Panty!
Goten bateu palmas do outro lado do
telefone.
- Gosto, gosto!
- Hai.
E de seguida despachou o amigo, pois
tinha de contar a novidade à avó – que arranjara um nome para a sua irmãzinha.
Pousou o auscultador, enfiou o telefone debaixo da cama com um safanão. Saiu do
quarto a gritar pela senhora Briefs, correndo eufórico pelos corredores, de
olhos brilhantes e coração aos saltos de tão feliz.
***
Vegeta encontrou a porta do quarto
trancada.
Fechou os olhos, irritado.
Ela estava disposta a prolongar aquela
estupidez até aos limites da sua paciência. O que não seria muito inteligente
da parte dela, dado que ela conhecia como ele reagia diante de situações
enervantes.
Pensou, por momentos, regressar ao antigo
quarto de Trunks e matar a cria humana. Depois considerou que seria o pior erro
que faria em toda a sua vida, pois haveria de ser escorraçado daquela maldita
casa que ele, insensata e inesperadamente, começava a considerar como sua e
quando ele tomava posse de um lugar, era como se o conquistasse, marcando-o
seu. Mesmo que nunca o tivessem ouvido afirmar isso categoricamente, que aquela
era a maldita da sua casa e que tinha direito àquele espaço, onde também
poderia ditar as suas regras.
Depois pensou cansado que deveria ter
dado um pontapé no maldito cesto. Assim, ninguém ficava a saber que tinha
enviado a cria pelos ares e a tarde de sábado voltaria a ser agradável.
Endireitou as costas, com o olhar fixo
na porta. Não se ouvia um som do interior. Outra indicação de que Bulma estava
zangada. Quando estava nos seus dias normais – que não eram frequentes,
pensando bem – ela gostava de ouvir música e cantarolava. Ele costumava
postar-se ali, atrás da porta, que não estava trancada nesses dia, a ouvi-la,
enquanto sorria. Um prazer secreto e inconfessado.
Naquela tarde, houvera algo que se
quebrara entre eles. Não que ele percebesse inteiramente a razão daquela
mudança estúpida e repentina, pois não alcançava o papel dele naquela confusão
e que ela queria à viva força colar-lhe à pele, mas percebia que teria, de
qualquer modo, mesmo inocente, mesmo alheado, de consertar o que tinha sido
quebrado.
Retirou o pedaço de foto do bolso, olhou
para o rosto do homem. Fora aquele idiota que o tinha colocado naquela situação
e haveria de encontrá-lo. Por enquanto, era de noite e só queria descansar.
Desistiu de arrombar a porta, deu meia
volta e saiu dali, descendo o corredor.
***
Bulma releu o bilhete, apoiando o queixo
na mão, os dedos cobrindo os lábios que repetiam mudos as palavras escritas
apressadamente sobre o pequeno papel branco amarrotado, os vincos fazendo
sobressair as letras com um certo desespero e um toque de amargura, ondulando
como que a pedir ajuda em cada traço.
“Para
que nunca te esqueças. Perdoa-me pelo erro, sempre se poderá reparar mais
tarde. Adoro-te, és a minha vida. Mas há decisões que nos partem o coração e eu
acabei de partir o meu. Quero que saibas que nunca me esquecerei de ti, minha
doce filha. Espero que sejas cuidada com muito carinho, te amo.”
Se lhe parecia que todo o texto era
dirigido à menina, a primeira frase desmanchava qualquer raciocínio nesse
sentido.
“Para
que nunca te esqueças”.
Tinha tomado um banho a ferver, demorado,
imersa numa banheira coberta de espuma cor-de-rosa. Tentou lavar as
preocupações daquele dia estranho, o que conseguira parcialmente. Enrolara-se
num roupão, secara os cabelos à pressa. Uma das vantagens de os usar curtos,
naquele penteado arrapazado que lhe evidenciava a elegância do pescoço e dos
ombros estreitos. Não aguentara a pressão da resolução do mistério e sentara-se
diante da cómoda, onde relia o bilhete.
Aquela frase, “Para que nunca te esqueças” era dirigida, com toda a certeza, ao
pai da criança. Ali estava o deslize do qual ele tentara fugir, escapando-se às
responsabilidades, entregue devidamente embrulhado, na porta do culpado. Para
que ele nunca se esquecesse do que fizera – o abandono da filha e também da
mãe. Era dirigida ao pai e começava o bilhete com esse recado, pois no fim,
havia a frase, essa sim, dirigida à criança sem qualquer equívoco, “Quero que saibas que nunca me esquecerei de
ti, minha doce filha.”.
Depois havia uma segunda frase.
“Adoro-te,
és a minha vida”.
Que podia ser dirigida tanto à criança,
quanto ao pai. Apesar da desilusão e do coração partido, a mãe ainda amava o
pai da sua filha. Ainda amava aquele maldito desgraçado e cruel que fizera o
estrago e não quisera assumir o que fizera, por estar agarrado a outra
situação, uma casa estável, uma mulher, um filho. Uma outra família, que se
desmancharia se surgisse aquela infidelidade, um deslize momentâneo, um
acontecimento imprevisível.
A boca de Bulma amargou.
- Eu podia ter rebentado com a porta.
Ela levantou-se sobressaltada, olhou para
a janela.
- Fora daqui!! – berrou a Vegeta. – Não
te quero ver hoje! É isso o que significa uma porta trancada, sabes?
Ele saltou para o quarto. Reparou no
bilhete torcido sobre a mesa.
- Uma porta trancada não é o suficiente
para me deter, mulher.
Ela acalmou-se, enchendo os pulmões de
ar. Voltou-lhe as costas.
- Eu sei disso…
- Continuas a ler aquele maldito
bilhete? Achas que tem o meu nome lá escrito?
- Ainda não consegui descobrir que não o
tem.
- Ah, julgas mesmo que aquela cria é
minha? Aquela coisa insignificante… é filha do príncipe dos saiyajin?
- Todos os bebês são insignificantes.
- Nem todos. Os bebês saiyajin têm uma força diferente dos
bebês terráqueos, para tua informação.
- Son-kun quando nasceu, ao que parece,
não tinha essa força diferente. Por isso, foi enviado aqui para a Terra. A tua
lógica não me convence.
- Kakarotto foi sim mandado para a Terra
por ter um poder de luta baixo, mas tu conhece-lo melhor que ninguém para saber
que ele foi diferente e é diferente de vocês, terráqueos.
- Ainda não me convenceu. – Bulma o
olhava desconfiada.
- Aquela cria não é saiyajin. Não tem nenhum traço que a identifique com os da minha
raça. Sei que já o foste verificar…
- Sabes?
- Conheço-te o suficiente para saber
isso.
- Então se me conheces, poderás, por
favor, respeitar o que estou a sentir?
O silêncio dele indicava que considerava
as palavras dela. Ou simplesmente continuava sem se conseguir enquadrar naquela
situação plenamente.
Escutou-o respirar profundamente. O
orgulho inundando-o de cima a baixo. Nunca iria admitir a culpa, nunca iria
rebaixar-se a tentar explicar algo que não lhe merecia um milímetro de atenção,
preocupação ou escárnio. A teimosia dele poderia fazer com que insistisse em
ficar naquele quarto e ela não estava preparada para tê-lo ali, pois cairia na
tentação de lhe fazer a mesma pergunta, vezes e vezes seguidas, até conseguir
provocá-lo de uma forma irreversível. Assustou-se com esse cenário. Mesmo com
um possível erro daquela magnitude, Vegeta com uma filha de outra mulher, ela
não o queria perder…
Sentiu uma pontada no peito. Talvez já o
tivesse perdido, algures…
- Vou provar-te, Bulma, como estás
enganada. E depois…
- E depois?
Quando se voltou novamente, o saiyajin já não estava no quarto.
As cortinas agitavam-se pela brisa
noturna que entrava pela janela escancarada.
- E depois, vais-te embora… – completou
ela triste.
Porém começou a se lembrar das palavras
dele.
“Kakarotto
foi sim mandado para a Terra por ter um poder de luta baixo, mas tu conhece-lo
melhor que ninguém para saber que ele foi diferente e é diferente de vocês,
terráqueos.”
Depois começou a lembrar-se de quando
conheceu o pequeno garotinho há alguns anos, quando fora em busca das esferas
do dragão.
“Goku realmente nunca foi um garoto
normal”, pensou ponderando um pouco. Mas a sua teimosia era maior que qualquer
ponderação.
***
Vegeta saiu da Capsule Corporation de
madrugada. Dormira no quarto que utilizara quando não estava a treinar na nave,
antes do nascimento de Trunks e antes de se ter envolvido com aquela mulher de
cabelos e olhos azuis que tivera a sagacidade e os atributos necessários para
conquistar o príncipe dos saiyajin e
fazê-lo assentar bases naquele planeta insignificante.
Levava o pedaço de foto no bolso das
calças de ganga e dirigia-se ao arquivo municipal de West City, onde estavam
arquivadas as identificações de todos os habitantes da grande metrópole. Aquele
rosto masculino era a chave do enigma, muito mais importante e incisivo que
aquele maldito bilhete que Bulma insistia em ler, em agitar-lhe na cara, onde
queria encontrar a prova incriminatória irrefutável contra a inocência dele.
Quando saíra, escutara os berros
estridentes da cria humana, a exigir alimento. Escutara os passos preocupados
da senhora Briefs, que era ela quem cuidava da cria, pois Bulma não se
aproximava dela por causa daqueles receios infundados. Sentira Trunks despertar
e ficar atento ao choro da cria, a remexer-se na própria cama. Sentira também
Bulma despertar levemente. Mas afastara-se, para cuidar daquele assunto à sua
maneira – descartando, claro, a hipótese de eliminar fisicamente a cria.
Aterrou defronte do edifício do
município. Estava ainda fechado. Cruzou os braços diante da porta e ficou à
espera, pacientemente, de olhos fechados.
Depois de identificar o homem, iria
identificar a mulher depois. Haveria de os arrastar até à Capsule Corporation
para que removessem dali a cria incómoda. E depois a tranquilidade dos seus
dias haveria de ser restaurada.
Não tinha pedido nada daquilo, apenas
queria uma existência apagada e pacífica depois da morte de Kakarotto, em que
jurara nunca mais lutar. E haveria de conseguir restaurar a monotonia aos seus
dias, nem que tivesse de ir até aos confins do Universo e do próprio tempo.
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