Aguardou em frente da porta mais de duas
horas, não sabendo por que motivo o edifício continuava fechado e num silêncio
abandonado, indicando que não estava ninguém a trabalhar como seria normal e
exigível. Já tinha passado por ali algumas vezes, em ocasiões anteriores, e
sempre notara um corrupio de gente junto àquela porta resolutamente trancada.
- Maldição, por que essa joça não abre?
– se perguntou irritado, sem nenhuma paciência.
Não que uma porta trancada constituísse
alguma barreira capaz de o deter.
Podia até ser ele mesmo a procurar nos
arquivos pela pessoa da foto, depois de um pontapé bem colocado que destruísse
a porta. Mas deteve-se, pois precisava de alguém que trabalhasse ali para o
ajudar nessa tarefa inútil de folhear processos e cadastros individuais.
Uma pessoa que passava por perto
escutou-lhe o resmungo. Disse-lhe com certo receio:
- Bom dia, senhor. Não abrirá por que
hoje é domingo, o município só abre de segunda a sexta. Fins de semana está
fechado.
Vegeta olhou para a pessoa com um olhar
mortal, fazendo-a tremer.
- Como é que está dizendo?
- Eh… Só amanhã é que o município… vai
abrir.
E depois a pessoa afastou-se amedrontada
e saiu dali correndo.
Vegeta fechou os olhos, assimilando
aquele dado novo, que entroncava diretamente no que acabaria por ser o seu dia.
- Droga, terei que esperar amanhã para
ver isso...
Aguardava-o mais um dia de tortura, de
dúvidas, de acusações, de insinuações…
Suspirou fundo, passou a mão no rosto
com certa impaciência.
Tirou a foto do bolso, olhou mais uma
vez para a cara do sujeito.
- Vou te achar, verme maldito, nem que
seja no inferno – falou com raiva.
Fletiu os joelhos e impulsionou-se
discretamente para cima. A flutuar sobre os edifícios brancos, olhando a
movimentação pacata das ruas. Vegeta circunvagou a área e pensou: “Tenho outra possibilidade. Posso dar uma
volta na cidade e quem sabe não descubro a cara do idiota que está me causando
tantos problemas”.
***
Bulma escolhera o laboratório e as suas
engenhocas para se distrair das suas preocupações naquele domingo que
amanhecera tão agradável quanto a tarde anterior e as horas se haviam passado.
Queria esquecer a criança, o que era basicamente impossível quando a sua mãe a
carregava como um troféu, exibindo a beleza da criaturinha fofa e delicada. Queria
também esquecer o bilhete, mas as palavras que estavam lá escritas entravam em
sua mente como se fossem ferroadas de vespas que inchavam e ficavam doloridas
por dias.
Tentava descobrir entretenha, mexer em
alguma coisa que lhe parecesse útil e digna do seu incomparável génio, mas não
conseguia abstrair-se da ideia que nutria quase de forma doentia que aquela menina
era filha do príncipe. Já fora traída uma vez, pelo que a dúvida permanecia em
sua mente, rondando sem parar como um urubu sobre a carniça. Determinada em fuçar
algo que servisse como paliativo para mais um dia estragado com conjeturas e autocomiserações,
ouviu um grito.
- Bulma, a comida está pronta!
Era a sua mãe a chamar para almoçar.
Então, tinha sobrevivido à manhã daquele
domingo insonso, porém pacífico, pensou enquanto se levantava da cadeira,
sentindo todo o peso do corpo, como se fossem toneladas.
Entrou na cozinha e viu a garotinha sentada
na cadeirinha antiga de Trunks. A senhora Briefs dava-lhe uma papinha
amarelada, mistura de vários ingredientes batidos no liquidificador. A
menininha brincava com uma colher enquanto a senhora Briefs fazia momices para lhe
chamar a atenção e tornar a refeição mais divertida.
Trunks apareceu também, logo sentou-se à
mesa e reparou na mãe a olhar a garota de viés, sem conseguir classificar que
tipo de olhar seria, mas não perdeu muito tempo com esse problema. Tinha o
almoço para devorar e atirou-se ao prato, comendo sem parar.
Bulma, por seu turno, ficou brincando
com o hashi tentando não olhar para a
garotinha rosada que comia com apetite, entre sorrisos e gritinhos de uma
alegria inocente. Comparou-a com Trunks que exibia o mesmo apetite – idêntico
ou apenas imaginação sua?
Fechou os olhos, dirigindo a sua mente
para outro dado – Vegeta não tinha aparecido para almoçar, o seu lugar à mesa
estava vazio. Não quis classificar a ausência do príncipe que, se ela estivesse
a raciocinar normalmente, não seria muito diferente do que ele costumava fazer.
Eram raras as vezes em que almoçavam todos juntos, como uma verdadeira família.
Não quis pensar muito nisso, para não o imaginar com uma sirigaita qualquer… Ou
pior, com a sirigaita, a mãe da
garotinha sorridente que começava a comer o segundo prato de papinha amarelada.
Depois de beber todo o suco que tinha no
copo, para acamar no estômago o que acabara de comer, Trunks perguntou:
- Vovó, eu posso brincar com a Panty depois
de ela comer?
- Claro Trunks. Deixa ela terminar a
papinha.
- Panty?! – exclamou Bulma indignada.
A senhora Briefs abriu um enorme
sorriso.
- Não achas uma delícia o nome que
Trunks escolheu para ela?
- Trunks escolheu… o quê? – gaguejou
Bulma.
- A minha irmã precisava de um nome –
explicou o menino feliz. – Como eu me chamo Trunks, ela podia chamar-se Panty[1]!
A senhora Briefs bateu palmas.
- Eu adoro o nome!
Bulma levantou-se tonta. Não tinha
tocado na sua comida, mas as tonturas eram de indignação ao verificar que a
prisão dos acontecimentos se fechava inexorável e se ela não lutasse
arduamente, haveria de ficar encerrada numa situação que cobraria um preço
impossível de regatear.
- P-Panty… Ela… A garotinha… não é sua…
irmã… Trunks-kun.
Saiu a correr da cozinha, com os olhos a
arder das lágrimas que não queria derramar, segurando o nariz com as costas da
mão, fungando, retendo os soluços e o coração que batia como louco de tanta
amargura.
Trunks olhou para a avó que retirava
Panty da cadeirinha e a colocava num tapete que estava no chão da cozinha. O
menino sentou-se no tapete ao lado da garotinha, deixando a avó livre para
levantar a louça da mesa, o que começou a fazer prontamente cantarolando.
Recordou-se da tal pergunta que o incomodava tanto.
- Obaasan,
como vêm os bebês? – perguntou, fazendo
uma careta à garotinha a fazendo a sorrir.
A senhora Briefs olhou o neto erguendo a
sobrancelha e pensou num modo de responder que ele entendesse e que não lhe
causasse novas dúvidas. Como toda boa avó, ela disse:
- Os bebês são trazidos pela cegonha, em
um cesto em seu bico.
Trunks abriu muito os olhos azuis.
- Então foi assim que eu nasci e foi assim
que a minha irmã veio?
- Hai,
Trunks-chan – confirmou a avó sorridente, satisfeita por ter desempenhado o seu
papel de avó de uma forma perfeita e esclarecedora.
Trunks saiu do tapete, abandonando a
cozinha numa corrida.
***
O garotinho pegou o telefone e discou o
número muito animado, tinha descoberto de onde vinham os bebês, agora bastava
ter a ajuda do amigo.
- Mochi
mochi! – Chichi atendeu o telefone.
- O Goten-kun está? – perguntou a voz infantil.
- Hai,
vou chamar. – Gritou estridente, Trunks teve que tapar o ouvido.
Alguns minutinhos e o outro garoto
estava na linha.
- Trunks-kun!
- Goten-kun, descobri de que ninho vêm
os bebês!
- É mesmo?
- Do ninho das cegonhas.
- Ah…
- Goten-kun, tem algum ninho de cegonha
aí nas montanhas?
- Não Trunks-kun. Só ninhos de
dinossauros.
- Goten-kun, temos que descobrir onde
tem ninhos de cegonha antes que minha mãe descubra e devolva a minha maninha.
- E como vamos descobrir onde tem
cegonhas e ninhos? – Perguntou Goten ingenuamente.
- Baka,
se eu soubesse não estaria te ligando para me ajudar.
- Hai,
mas eu não sei onde tem cegonhas.
- Eu também não, mas poderíamos procurar
amanhã. O que acha?
- Está bem – ele falou animado. – Vou
pedir à mamãe para me levar aí amanhã. Daí, a gente procura as cegonhas e os
ninhos delas.
- Goten-kun, será que vamos encontrar
muitas irmãs e irmãos nesses ninhos?
- Com certeza que sim. Como descobriu
que os bebês vêm pelas cegonhas?
- Perguntei à minha avó e ela me contou,
não ia esperar pela mamãe já que ela nunca iria me dizer. Está louca para
devolver a minha maninha e eu não vou deixar.
- Eu vou te ajudar Trunks-kun. E vou
falar para a mamãe pegar uma irmãzinha para mim nesse ninho quando a gente
achar. Também quero ter uma. O nii-chan
não se vai importar de também ter uma irmãzinha.
- Hai,
Goten-kun. Então, nos vemos amanhã.
- Hai!
Os dois garotos despediram-se e Goten colocou
o telefone no gancho.
***
O domingo tinha, contra todas as
possibilidades mais negras, passado e tantas horas marcadas pelo relógio mudo
do quarto tinham-na transportado, sonâmbula, para o dia seguinte. Tomara um
banho quente, tentara distrair-se com uma revista de futilidades, experimentara
um sem fim de vernizes colorindo e descolorindo as unhas milhentas vezes, mas
nada conseguira demover Bulma da cisma que Vegeta tinha-a, de facto, enganado e
que aquela ausência do saiyajin
significava que a sua desconfiança era mais do que fundada. Aproveitara para
reler o bilhete, muitas vezes, tantas que já o recitava de cor, umas vezes
cantando as palavras, outras vezes dizendo-as enfiadas umas nas outras sem
pausas, outras rangendo os dentes e outras lamentando-se fingindo um rosto
compungido. Era só uma máscara que punha, para tentar exorcizar o mal que o
bilhete lhe tinha trazido para a sua vida.
Passava da uma da manhã e o seu estado
de espírito tinha dado uma volta completa. Totalmente azeda e brava como um
rinoceronte, de olhos vermelhos como um demónio, de braços cruzados, aguardava
pelo saiyajin disposta a colocar um
ponto final naquele tormento.
Recusava-se, determinantemente, a
padecer outro dia igual àquele domingo!
Vegeta entrou pela sacada, vindo a voar da
cidade iluminada. Parou na porta aberta e viu-a naquela postura ameaçadora.
Levantou uma sobrancelha. Antes mesmo de exigir que não queria ser aborrecido,
tinha acabado de varrer a cidade de uma ponta à outra sem conseguir descobrir
alguém vagamente parecido com o idiota da foto, ou outra pista, que não o
maldito bilhete amarrotado, que provasse que aquela pirralha não era a sua
filha, Bulma perguntou-lhe num rosnado:
- Onde você esteve?
Respirou fundo. Podia tomar variadas
opções, mas resolveu ir pelo caminho das brasas, já que, subitamente, sentiu
uma necessidade esquisita de provar o sabor adocicado e férreo do sangue. Até
podia ser o seu… Respondeu grosso:
- Isso não é da sua conta.
- Claro que é da minha conta, pois ainda
estamos juntos, que eu saiba – falou ela apontando-lhe o dedo nervosa.
Vegeta rosnou-lhe de volta. Odiava
aquele dedo espetado, acusando-o, incomodando-o, provocando-o. Nisto, o dedo
recolheu-se num punho fechado que ela apoiou na cintura. Bulma insistiu,
agitando o outro braço:
- Anda Vegeta, diga onde esteve!
A ordem era intolerável. Ele corou de
raiva, sentiu os músculos tornarem-se rijos, a cólera que o fazia explodir num
estado incontrolável e poderoso, chamado super
saiyajin, ferveu-lhe no sangue. Mordeu a língua para evitar despejar para o
exterior toda a frustração e raiva que o transtornava de uma maneira perigosa,
forte o suficiente para destruir metade de West City. Com a dentada surgiu-lhe
no palato o sabor que ele procurava, o vago indício de animalidade que um dia o
guiara através da adversidade. Sangue, o seu sangue entre os dentes e as
gengivas, na ponta da língua. Semicerrou ligeiramente as pálpebras,
excitando-se com a sensação.
- Estás completamente louca! – exclamou
com a voz rouca.
- Você não me deixa escolha, Vegeta,
agora que tenho a certeza que tem outra mulher.
- Ótimo! Já que tem tantas certezas, não
precisa me massacrar mais pedindo respostas às suas perguntas idiotas!
Vegeta entrou pelo banheiro adentro e se
enfiou na cabina de duche, ligando a água que caía com força, como um aguaceiro
inesperado.
Bulma limpou a cara húmida. Não se tinha
apercebido de que começara a chorar. Pegou uma mala e colocou algumas roupas
dentro, tudo num monte, sem qualquer cuidado, empurrando as que ficaram em
cima, fechando depois, calcando a tampa com um joelho enquanto puxava o fecho.
Depois de ter chorado, por breves segundos de fraqueza, sentia-se novamente a
arder de fúria.
Quando Vegeta saiu do banho enrolado
numa toalha, não olhou para ela, indo diretamente até ao guarda-roupa. Escolheu
o que vestir em silêncio e com uma carranca de fazer derreter um glaciar – uma camisa
gola polo preta, um bermudão bege, um ténis meio social. Arrancou a toalha,
atirando-a para um canto do quarto e vestiu-se, sabendo que ela estava atrás
dele e que contemplava o seu corpo despido. Quando se virou, encontrou Bulma com
uma mala estendida na sua direção.
- Na-ni?
– perguntou confuso.
- Aqui dentro estão algumas roupas e uma
cápsula-casa. Quero que suma daqui!
A voz era determinada, exigente,
disfarçando o mal-estar que ele lhe sentiu no ki alvoroçado. Segurava-se com bravura para não se desmanchar num
choro que lhe era típico, com laivos de drama e de histerismo. Se fosse uma
mulher da sua raça, apostava que ela se conseguiria transformar em super saiyajin à custa dos seus ataques
de choradeira irritante.
Mas a ocasião não era passível de
distrações. Ele inclinou a cabeça para a direita, analisando o que ela lhe
apresentava.
- Você enlouqueceu de vez?
- Não, estou a falar a sério. Suma da
minha casa, Vegeta.
- É isso mesmo que você quer?
Uma concessão no seu orgulho… Depois
arrependeu-se de ter feito a pergunta. Indicava que ele não queria ir-se
embora, que esperava por uma segunda chance, uma possibilidade de poder
continuar ali, ao lado daquela mulher que, sem que ele percebesse muito bem
como, tinha conseguido tocar-lhe na alma. Não esperou pela resposta. Arrancou a
mala das mãos dela, encarou a porta da sacada que continuava aberta e apercebeu-se
de como o quarto estava gelado.
- Muito bem, eu vou, sua mulher teimosa…
Vai me pagar caro, Bulma, por duvidar de mim.
Saiu voando pela janela, movimentando as
cortinas que emularam fantasmas tristes que lhe queriam seguir a peugada, mas
não o puderam fazer pois estavam presos à mágoa que forrava todo o quarto. As
formas etéreas brancas ondularam, ulularam, assombrando o coração de Bulma que
arrefeceu de súbito.
Ela se ajoelhou no chão, colocou as mãos
no rosto e chorou desesperadamente. O coração doía-lhe por ver que Vegeta tinha
aceitado depressa demais abandoná-la e que isso só podia significar uma coisa: ele
admitia a traição.
***
Bulma pegou o telefone em plena
madrugada e discou um número...
- Mochi...
Mochi – atendeu uma voz sonolenta.
O choro desesperado e as fungadelas
fizeram a mulher do outro lado da linha espantar o sono.
- Bulma, o que houve? Por que está
assim?
- Acabou Chichi, acabou. Eu mandei o
Vegeta ir embora de casa.
- Na-ni?...
O motivo é a tal criança?
- Hai
– Bulma fungou, assoou o nariz nos dedos, tentando acalmar-se. – Ele sumiu o
dia todo, anda distante… Não quer conversar comigo sobre o assunto. É culpado,
sabe disso, não quer enfrentar o problema. Cansei-me de insistir… Não o quero
ver por perto, sabendo que ele… E uma sirigaita qualquer…
- Fez o que eu te disse e observou a
criança?
- Hai.
- Então...
- Ela não tem cauda, não tem muita
semelhança com ele. Mas… sei lá! As crianças podem mudar, quando crescem… Além
disso, o Vegeta andou sumido durante um tempo. Ele disse que nunca mais ia
lutar, depois de Son-kun ter morrido… Então, também nunca mais treinou… O que
fez ele, durante esse tempo todo? Quando voltou, perguntei e ele disse-me que
não era da minha conta. Na altura, pensei que ele tivesse cedido à sua promessa
e que tinha ido treinar, sim, para algum lugar remoto do mundo, para que eu não
soubesse que ele tinha fraquejado… Mas agora, ao ver a criança, fazendo contas
à idade da garotinha, dezassete meses… – A voz de Bulma tremeu e ela pigarreou,
para que a garganta continuasse a corresponder e não lhe abafasse a fala. – Isso
aconteceu há dezassete meses e dezassete meses é exatamente o tempo… Para que a
criança fosse concebida e…
Calou-se, a garganta fechara-se
finalmente.
Chichi disse do outro lado da linha,
após uma pausa:
- Amanhã eu vou levar o Goten aí para
brincar com o Trunks e nós falamos melhor. Vou dar uma olhada na criança e
depois te digo a minha opinião. Pode ser?
Bulma pensou nas palavras da amiga.
- Pode ser – respondeu derrotada,
descaindo os ombros, deixando lágrimas silenciosas escorrerem pelas faces. –
Então… nos vemos amanhã.
***
Numa montanha apartada do rebuliço
daquele fim-de-semana, sentado na terra pedregosa, Vegeta olhava o céu. Ao
fundo escutava-se o barulho de uma cachoeira e dos animais noturnos, incluindo
os uivos esporádicos dos lobos. A mala pousava-se ao lado.
No horizonte longínquo estava o mar de
luzes de West City.
Pensava na terráquea maldita que lhe tinha
tirado o sono tantas vezes, que tinha entrado na sua vida e que o tinha mudado
pouco a pouco, que tinha conseguido fazer com que ele se fixasse num lugar.
Agora, a mesma terráquea maldita acusava-o de ter tido um envolvimento com uma
mulher qualquer. Como se isso fosse sequer possível. Ele era o orgulhoso
príncipe dos saiyajin, não andava por
aí a conquistar fêmeas sem destino, ainda por cima, de uma raça que ele
desprezava por considerar irritantemente inferior. Já tinha bastado deixar-se
enfeitiçar pela terráquea maldita… Não veria ela como isso era inconcebível,
segundo os padrões dele?
Sentiu o vento soprar os seus cabelos
rebeldes. Não iria dormir durante aquela noite, não tinha motivos para se
sentir relaxado ao ponto de querer esquecer o que se estava a passar. Haveria
de ficar de vigília, remoendo os seus problemas e depois, quando o sol
nascesse, haveria de regressar aos arquivos municipais para descobrir a
identidade do maldito homem da foto que ele guardava no bolso.
Fechou os olhos, magoado.
Embalou-se na brisa e nos uivos dos
lobos.
Nisto, sentiu um ki familiar. Olhou para o lado e encontrou-o, contemplando, tal
como ele o fazia, o bonito céu estrelado. Os dois tinham vindo daquele universo
negro pejado de corpos celestes e, a sentir aquele chão pedregoso debaixo de
si, Vegeta percebeu que esses dias estavam longe, longe demais.
A auréola por cima da cabeça do outro
denunciava a irrealidade da sua presença naquelas montanhas, mas Vegeta não se
quis deter em detalhes. Ele estava ao seu lado e seria por algum motivo.
- O que faz aqui verme? – perguntou enfezado,
apartando o olhar das alturas e fixando-o no horizonte.
- Vi que está com problemas. Pedi permissão
ao senhor Kaio para vir até aqui.
- Não devia se meter onde não é chamado
– argumentou aborrecido, cruzando os braços.
O outro sorriu olhando em redor, punhos
na cintura. Confessou:
- A Terra é linda, tenho saudades
daqui...
- Não voltou porque não quis.
- Os meus motivos…
- Não interessam!
Vegeta atirou sem convicção, completando
o que tinha dito:
- Ainda me deve uma revanche.
- Um dia eu te pago essa revanche… Mas,
Vegeta… Sobre os seus problemas…
- Humpf...
- Se não achar o cara da foto... Existe
um modo de provar a Bulma que você não e o pai da criança. Tem um exame que se
faz para ver o D... O Dn...
Coçou a cabeça, entre os cabelos
espetados, lamentando-se:
- Droga! Senhor Kaio me disse e eu
esqueci o nome.
- DNA!! – gritou a voz de Kaio, um eco
refletido na grande montanha.
- É isso aí! – riu-se o outro.
- Você nem serve para dar recados –
censurou Vegeta.
- Com esse exame, apura-se a linhagem
genética da pessoa – acrescentou Kaio telepaticamente. – Basta uma amostra de
sangue para fazer o exame.
Vegeta abriu os olhos e descobriu-se
sozinho.
Levantou-se atarantado à procura do
outro, mas não o encontrou. Esfregou os olhos e pensou que talvez tivesse
adormecido, contra a sua própria vontade. E nesse curto sono, tivera um
estranho encontro com o seu eterno rival. Respirou fundo, disposto a prosseguir
na vigília, não cedendo mais a caprichos vergonhosos do seu corpo fatigado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário