domingo, 1 de dezembro de 2013

Um dia estranho.

No seu quarto, Trunks vestia-se feliz, ajeitando a gravata minúscula que a mãe lhe tinha dito para usar naquele dia importante em que a sua casa se abria a toda a cidade, fazendo de todos os cidadãos de West City os convidados especiais da Capsule Corporation. Ele não se recordava muito bem das outras vezes em que tal tinha ocorrido, era demasiado pequeno para fixar com clareza esse tipo de memórias, mas sabia que tinha de se portar convenientemente e de vestir uma roupa de cerimónia, pois a ocasião solene obrigava o futuro herdeiro da companhia a aparecer com a melhor das aparências. O que ele não entendia era porque o pai, Vegeta, nunca era incluído naquilo e nunca ninguém o obrigara a vestir uma roupa de cerimónia naquele dia especial.
Não que ele se importasse muito de estar vestido como um executivo em tamanho miniatura, analisava enquanto se via no espelho do seu quarto, que o mostrava em corpo inteiro, enfiado naquelas calças azuis vincadas, um casaco abotoado também azul, uma gravata verde sobre uma camisa branca de colarinhos discretos. Era, pelo menos, diferente das roupas de todos os dias e achava que ficava bastante elegante. Com um sorriso malandro piscou o olho ao próprio reflexo. Era também divertido, no fim do dia, descartar-se daquela vestimenta sem qualquer cuidado, espalhando as roupas pelo chão antes de mergulhar numa banheira cheia de água e muita espuma preparada pela avó e sorriu antevendo esse momento em que voltaria a ser uma criança de cinco anos e não a promessa feliz do presidente da Capsule Corporation.
- Sou também um príncipe guerreiro – murmurou. – E antes de ser o chefe da empresa, vou combater inimigos poderosos ao lado do meu pai.
O sorriso foi ainda mais orgulhoso.
Colocou um dedo no queixo, subitamente acometido com uma dúvida.
- Hum… Mas agora temos também uma princesa guerreira, a Panty. Será que ela também vai ser a chefe da empresa comigo? Ou eu, como sou mais velho do que ela, irei ser o chefe máximo da empresa, sendo também o chefe dela? E será que o ‘tousan vai querer treiná-la para combater inimigos poderosos, ao meu lado?
Socou o ar com ímpeto dizendo:
- Os irmãos Briefs, os defensores da galáxia!
O gesto súbito provocou um ruído de tecido em tensão, na axila direita e Trunks baixou o braço muito depressa, puxando pelas abas do casaco para o compor sobre o torso, verificando se tinham ocorrido alguns estragos. Felizmente, o fato ameaçara rasgar-se com o golpe imaginado do meio saiyajin, mas não chegara a acontecer a desgraça ou teria de ouvir os berros estridentes da mãe, em pânico por ele ter destruído a roupa mesmo no dia da festa, que tinha a assinatura de um qualquer costureiro.
Pigarreou, namorando a imagem devolvida pelo espelho, focando a atenção agora no cabelo, certificando-se que as madeixas estavam todas no sítio certo, pois um futuro presidente tinha de ser bastante bonito, como ele já era naquela idade. Sorriu alegre, lembrando-se outra vez da Panty. Ela tinha muita sorte em ser irmã de um menino como ele. E lembrou-se também da aventura no zoológico do avô no dia anterior, com o pai e como tinha sido especial, pois Vegeta não era muito dado a momentos de proximidade. Sentou-se com um pulo na cama. Agarrou no telefone, marcou o número e aguardou, as pernas a balançar. Ao fim de dois sinais de chamada, ouviu a voz de Son Gohan:
- Mochi mochi!
- Ohayo, Gohan-san, sou o Trunks. Preciso falar com o Goten-kun.
- Ohayo, Trunks-kun! Ele está a brincar lá fora, eu vou chamá-lo. Hum… Posso perguntar-te uma coisa?
- Hai.
- O dia aberto da Capsule Corporation… Está quase a acontecer, não é?
- É hoje, Gohan-san.
- Hoje? – Fez-se silêncio. O filho mais velho de Son Goku confessou envergonhado: – Eu gostava muito de ir, este ano… Conhecer alguns cientistas, assistir às demonstrações…
- Podes aparecer, Gohan-san. A festa está a começar, eu ainda estou no meu quarto.
- Vou falar com a ‘kaasan. Até logo, Trunks-kun! – Gohan soava entusiasmado do outro lado da linha. Parecia que ia desligar, para aflição de Trunks, mas acrescentou subitamente: – Ah, vou já chamar o Goten! Espera um pouco.
Após um instante sem qualquer ruído, escutou o som de passos numa correria, um movimento abrupto de alguém que levantou o auscultador que estava pousado e um guincho alegre:
- Trunks-kun! A minha mana já nasceu?
- Não. O ovo está ainda inteiro.
- Foste outra vez com o dinossauro até ao ninho?
- Não, Goten-kun. Fui com o meu pai. Ele me carregou e voámos juntos.
A pausa foi grande, como se do outro lado Goten estivesse a decifrar o verdadeiro significado das palavras.
- Honto?!! – exclamou finalmente com um grande sopro que fez Trunks retirar o auscultador da orelha.
- Hai, Goten-kun! Foi incrível! E depois, o meu pai disse-me que me vai ensinar a voar. Olha, mas não quero que contes a ninguém… Senão, o meu pai zanga-se por sabermos o que ele anda a fazer comigo e depois não me ensina nunca a voar.
- Não te preocupes, Trunks-kun. Eu não conto nada a ninguém. Vai ser um segredo só nosso.
- Ótimo! Tu também vens aqui para a festa?
- Hum… Que festa?
- Gohan-san disse-me que quer vir… Vem com ele, Goten. É o dia em que a minha casa recebe a cidade inteira.
- Ah! Está bem, vou pedir à minha mãe. Quero brincar contigo!
- Até logo, Goten-kun.
- Até logo.
Trunks desligou o telefone e saltou da cama, saindo do quarto numa correria. O amigo iria visitá-lo e aquele dia iria ser melhor do que esperava. Até poderiam regressar ao zoológico e visitar novamente o ninho, onde a irmãzinha de Goten esperava para nascer, dentro do ovo imaculado e branco que repousava sossegado entre a palha e os raminhos, no cimo de um poste gigante.
Virou uma esquina de um longo corredor e ia alcançar a escadaria que levava ao piso inferior, de onde subiam vozes animadas, indicando que o átrio da Capsule Corporation já estava cheio, quando, pelo canto do olho, espreitou um movimento que lhe pareceu estranho, mesmo que a sua casa naquele dia recebesse um sem fim de gente e que acabasse por encontrar pessoas em qualquer canto, espevitando-lhe o instinto saiyajin.
Parou, intrigado, uma sobrancelha levantada. Sentiu a eletricidade subir das solas dos pés para os tornozelos e daí para as pernas, inundando-lhe o corpo todo e, sem se aperceber, fechou os punhos. Caminhou até ao sítio que lhe parecera suspeito. Era uma ala pouco utilizada do complexo, onde havia quartos de hóspedes raramente ocupados. Foi cauteloso, como se fosse surpreender um ladrão, mas acabou por descobrir uma garota. Apanhou-a em flagrante, a abrir uma porta devagar e a espreitar para dentro do compartimento de respiração suspensa, como se procurasse por alguma coisa misteriosa e inacessível.
- Posso ajudá-la?
A garota deu um salto com o susto. Colou as costas à parede junto à porta entreaberta. Os óculos descaíram para a ponta do nariz, desvendando uns olhos grandes e expressivos, pestanas enroladas.
- Posso ajudá-la? – repetiu Trunks abrindo as mãos, soltando a tensão que se apoderara dele, acalmando o instinto saiyajin.
- Eh… – Ela pigarreou, cobrindo a boca com uma mão. Com dois dedos empurrou os óculos para cima, escondendo os olhos e as pestanas. – Eu estava… Eu queria ir até ao banheiro.
- Ah, não é por aqui. Venha comigo, que eu mostro onde ficam os banheiros.
Trunks sorriu entusiasmado e desatou a saltitar pelo corredor afora. A garota hesitou, olhou para trás, por cima do ombro, suspirou e foi atrás dele arrastando os pés, apertando uns folhetos que tinha recolhido de uma mesa do átrio que continham o programa detalhado do evento.
Ao fundo, numa passagem afastada, a senhora Briefs apareceu com Panty nos braços e Trunks lançou um aceno rápido à avó e à irmãzinha. A garota estacou imediatamente soltando os folhetos, espalhando-os pelo chão. Trunks perguntou-lhe, parando também:
- Aconteceu alguma coisa?
A garota passou por ele cabisbaixa e nervosa:
- Não, nada!
Entrou no elevador próximo, as portas fecharam-se e a luz do painel exterior indicou que descia. Trunks levantou o dedo indicador, piscando os olhos desnorteado:
- Mas… Não queria ir até ao banheiro? Que garota estranha!

***

As pontas começavam a enrolar subtilmente, indicando o desgaste de um manuseio intensivo. Ou talvez da baixa qualidade do espécime, que não passaria de um artigo contrafeito, a julgar pela última avaliação. Mas o avaliador era parte interessada em frustrar todo e qualquer intento para que se descobrisse a verdade, e provavelmente deveria descartar essa hipótese, de falsificação tosca. O que necessitava absolutamente era de esclarecer a questão.
Durante uma curta pausa daquele dia aberto na Capsule Corporation, quando o doutor Briefs dava uma curta palestra sobre a evolução da companhia e dos seus inventos mais emblemáticos, as cápsulas hoi-poi à cabeça, encostada à parede, Bulma cismava com a foto rasgada de Miruku que tinha vindo no cesto da Panty. Retirara-a do bolso da jaqueta e contemplava-a com um certo grau de indiferença, que se podia classificar como ceticismo.
A senhora Briefs apareceu cantarolando carregando uma bandeja de cupcakes acabados de sair de forno, quentes e aromáticos, deixando um rasto adocicado pelos corredores. Iriam adornar a mesa onde se serviam bebidas e comidas de consumo rápido a oferecer aos convidados, eram como a joia da coroa, os deliciosos bolinhos confecionados pela esposa do eminente doutor Briefs. Bulma interpelou a mãe.
- ‘Kaasan, onde está a Panty?
- Deixei-a por um momento na cozinha, sentada na sua cadeirinha – explicou a senhora Briefs parando. – Não te preocupes, ela ficou bem. Já vou buscá-la. Só vou servir os meus bolinhos… Que ficaram pavorosos! Oh, que desgraça.
- Hum… ‘Kaasan, não te preocupes. Os convidados vão adorar os teus bolinhos. Só com esse cheiro esquecem qualquer imperfeição.
- Ainda vou fazer outra fornada… Estava a pensar em chocolate e baunilha. O que achas?
- Perfeito – suspirou Bulma desinteressada. O pedaço de fotografia entre os dedos estava a incomodá-la.
A senhora Briefs continuou a sua caminhada pelo corredor. Bulma guardou a fotografia no bolso da jaqueta e foi atrás dela.
- ‘Kaasan, queria perguntar-te uma coisa…
- Diz, queridinha. Tem a ver com a Panty?
- Hai… Bem, não. Quero dizer, diretamente não. Preciso que te lembres de uma festa. Julgo que aconteceu há um ano atrás, mas não tenho a certeza.
- Um ano atrás? – A voz da senhora Briefs assumiu um tom alarmado. Bulma mordiscou o lábio inferior. Ora aí estaria um problema. A mãe nunca se lembrava do que tinha vestido no dia anterior. Recordar eventos com essa distância temporal poderia ser complicado.
- Hai, um ano atrás – insistiu Bulma assertiva, convencida de que os detalhes seriam fundamentais para puxar pela fraca memória da mãe. – Foi uma festa de angariação de fundos para a Associação dos Amigos das Artes. Uma grande festa, até esteve lá o prefeito de West City.
- Ah…
A interjeição foi vaga, mas parecia que a senhora Briefs estava quase a recordar-se.
- Tu usaste aquele vestido especial – atirou Bulma, como um anzol, o primeiro detalhe.
A senhora Briefs parou à porta da sala onde iria deixar a bandeja dos cupcakes. Fez um sorriso delambido e afirmou melosa:
- Hai! O meu vestido cor de pêssego, com mangas largas e cauda.
- Esse mesmo! – confirmou Bulma estalando os dedos, alegre, sabendo que tinha conseguido pescar a memória enterrada na inconstância da mente da sua mãe. – Diz-me: lembras-te se lá estava um homem de negócios chamado Miruku-iri Kohi? Dinheiro novo?
- Um jovem bem-parecido, com uns olhos cor-de-mel?
A descrição foi assombrosa e Bulma acenou avidamente com a cabeça.
- Hai, esse mesmo – respondeu, sustendo o fôlego.
- O senhor Miruku estava lá, sim… Tirou muitas fotografias. Vestia um terno caríssimo, que foi muito comentado pela esposa do prefeito da cidade. Um corte impecável, um modelo único segundo me contaram. E foi muito generoso, fez uma contribuição enorme para a Associação, maior do que a nossa. Lembro-me de ter criticado o teu pai por não ter coberto a oferta do senhor Miruku.
Bulma sacou do pedaço amassado da fotografia de repente, tão de repente que assustou a senhora Briefs que deu um passo para trás, estremecendo os cupcakes sobre a bandeja.
- Seria… este o modelo único, o terno caríssimo de corte impecável?
A senhora Briefs entreabriu os lábios, confusa, encurralada pelo interrogatório da filha. Analisou a imagem maculada com alguns vincos, um péssimo exemplar de fotografia. A confusão foi-se esbatendo do rosto macio, a boca de espanto torceu-se num sorriso meigo, calmo, perfeitamente seguro. Respondeu prestável, como era sempre o seu jeito:
- Hai, Bulma-chan. Esse é o senhor Miruku com o seu magnífico terno na festa de angariação de fundos para a Associação dos Amigos das Artes.

***

O miúdo quisera ajudá-la, mas ela acabara por encontrar o banheiro sozinha. Não era assim tão difícil, já que existiam indicações precisas que direção tomar, pois a Capsule Corporation era percorrida por dezenas de visitantes que aproveitavam aquele dia invulgar para visitarem a maior companhia do mundo e teriam, de vez em quando, de satisfazer as suas necessidades fisiológicas.
Parou as mãos molhadas sobre as faces escaldantes. Toda a cara escorria uma fina película de água, que alcançara até a raiz dos cabelos, junto à testa, repuxados para trás num rabo-de-cavalo desengraçado. Os óculos estavam pousados na bancada de mármore junto à pia onde a torneira estava aberta. O brilho da iluminação refletia-se por todo o lado, em cada minúscula gota de água que pingava entre os dedos, que lhe lambia a pele.
Procurava refrescar-se e, sobretudo, acalmar-se. Fora apanhada na sua indiscrição, quase que deitara tudo a perder, mas o coração desfeito de mãe não a deixara ser racional.
Quando vira a bebê nos braços da esposa do doutor Briefs, sentira ainda mais fundo a dor que a massacrava desde que a abandonara. Todos os dias que tinham passado, apenas reforçaram a vilania do gesto e a cobardia da decisão.
Deixou as faces molhadas, fechou a torneira com um safanão. Crispou o rosto, estreitou o olhar, endureceu a boca, transfigurou-se numa máscara empedernida de uma mulher determinada. Recolocou os óculos, ajeitou-os sobre a cana do nariz, respirou fundo, cerrando punhos, estremecendo todos os músculos, convertendo-se numa estátua de aço inquebrável. Podia ter as faces molhadas, mas logo secariam, pois sentia o sangue em ebulição. Medo e atrevimento a fazer a adrenalina fluir.
Sabia que não a conseguiria sustentar, mas era-lhe impossível viver longe da filha amada. Haveria de arranjar uma forma, haveria de encontrar uma solução, haveria de saber ser feliz com a sua pequenina.
A garota misteriosa saiu do banheiro determinada em descobrir onde estava a bebê e raptá-la daquela casa estranha.
Ou melhor, recuperá-la.

***

- Gohan-kun! Que surpresa!
Bulma depositou um beijo na face do filho mais velho de Son Goku que corou com o cumprimento. Continuava a ser um rapazinho adorável, mesmo que tivesse sangue saiyajin nas veias, mesmo que tivesse, anos antes, reunido a raiva necessária para acabar com o terrível monstro Cell e se convertido no maior guerreiro do universo, por muito que Vegeta custasse a admitir esse facto.
Encontrou a acompanhar o rapaz, a mãe Chichi e o irmão mais novo, Son Goten. Bulma sentiu um nó na garganta. O processo de decifração do mistério que rodeava a pequena Panty tinha acabado de sofrer um sério revés, quando a mãe confirmara as palavras de Miruku e colocara a fotografia no cenário descrito pelo homem. Teve o impulso de puxar Chichi de parte e de lhe contar esse pormenor, peça que não encaixava naquele imbróglio, mas se a amiga estava ali, viera acompanhar o filho mais velho. E de Son Gohan estava ali, viera ao dia aberto da Capsule Corporation e deveria receber bem aqueles convidados que, no final de contas, eram dos mais especiais, ainda mais que qualquer entidade política da grande metrópole.
Depositou um beijo amigável na face de Chichi.
- Que bom, vocês vieram.
- O Gohan-kun, todos os anos, fala-me que quer vir até à Capsule Corporation, neste dia em que tens aqui tantos cientistas – explicou Chichi. – Mas, por algum ou outro motivo, acabamos sempre por falhar o dia certo… Este ano, conseguimos acertar na data. Já sabes que as notícias chegam tarde à montanha Paozu.
Trunks surgiu numa correria, braços lançados ao ar.
- Goten-kun!!
O pequeno Goten descolou da saia da mãe que agarrava com avidez e correu para o amigo, também com os braços no ar, guinchando de alegria. Deram-se as mãos, pulando e rindo.
- Vieste!
- Hai, Trunks-kun!
- Que bom! Queres conhecer o novo robot que o meu avô inventou?
- Hai!
- Vamos!
Bulma interrompeu-os com a advertência:
- Crianças! Este é um dia especial, para gente crescida. Podem assistir aos eventos organizados, ver as novas invenções e as demonstrações das máquinas. Mas não podem incomodar, nem sequer intrometer-se nos discursos dos cientistas. E muito menos causarem problemas!
O pequeno Trunks esfriou o entusiasmo, fazendo beicinho, carregando as sobrancelhas sobre o olhar azul.
- ‘Kaasan, nós sabemos comportar-nos.
Goten enfiou o polegar na boca, atrapalhado. Trunks completou dando a mão ao amigo:
- E eu cuido dele.
- Eu sei cuidar de mim – sussurrou Goten ofendido.
Gohan e Chichi sorriam. A morena agachou-se junto ao filho, ajeitando-lhe a fatiota, recomendando com brandura:
- Goten-kun, eu sei que sabes cuidar de ti. Já és um menino bastante grande. E sei também que vais portar-te muito bem. Vais deixar o nii-chan orgulhoso.
Goten dispensou um olhar ao irmão e depois confirmou:
- Hai, ‘kaasan.
Bulma sorriu aos dois meninos. Mas no fundo sentia-se mais descansada por ter lançado o aviso, pois quando Trunks e Goten se juntavam eram imprevisíveis, como todos os daquela idade. Voltou-se para Gohan com um sorriso mais luminoso:
- Gohan-kun, por onde queres começar? Eu vou cuidar da tua visita. Terás o prazer de ser acompanhado por Bulma Briefs no giro pelo mundo tecnológico da Capsule Corporation.
Gohan corou quando Bulma enrolou o braço no dele.
- Eh… Arigato gozaimasu, Bulma-san… Mas basta indicares-me o caminho e eu irei sozinho…
- Nada disso! A partir do momento em que aqui chegaste, serás o meu convidado especial.
- Eh… Está bem… Aceito.
- Oh, aceita! – exclamou Chichi unindo as mãos, vaidosa, de olhos brilhantes. – É uma honra, Bulma-san, ter-te como anfitriã do meu filho Son Gohan.
- Ora, Chichi… Vai ser um prazer acompanhar um jovem tão bonito como o Gohan-kun.
O pobre adolescente corava cada vez mais. Estava já tão afobado que alargou o colarinho e o nó na gravata criando uma pequena folga com o dedo. Fez um ruído estranho com a garganta, sinal de que queria dizer qualquer coisa, mas as palavras amontoavam-se na glote, numa pilha desorganizada de letras. E apenas resmungou, sorrindo pateticamente, numa expressão que fez lembrar muito o pai. Bulma sorriu-lhe para o acalmar. Olhou de relance para baixo e descobriu Trunks e Goten pregados ao chão, sérios. Girou devagar, arrastando Gohan, para perceber o que os dois miúdos viam e encontrou, nas costas de Chichi, no átrio da Capsule Corporation onde estavam todos, o carrancudo Vegeta. Chichi, percebendo que havia algo atrás de si que motivava tanta atenção, também se voltou e encarou o príncipe que trazia consigo um envelope.
O exame de DNA. Bulma suspendeu a circulação de ar e sangue no corpo por alguns milissegundos. Contudo, nada havia a temer, mesmo que a primeira prova, a maldita fotografia, fosse, de facto, uma mísera falsificação. Por isso, relaxou, mostrou um dos seus habituais sorrisos e acolheu-o dizendo:
- Vegeta… voltaste depressa.
Ele não gostou, obviamente, da assistência. Mas achou que não devia recuar e deixar para outra ocasião a entrega do envelope e a revelação do resultado do teste que tinha feito a contragosto. Nada havia a temer, realmente. E avançou três passos, passou por Chichi, estendeu o braço, ainda longe de Gohan, a quem dispensou um olhar de desprezo.
O combate contra Cell ainda pesava imenso entre os dois.
De sorriso firme, Bulma estendeu também o braço e agarrou no envelope. Vegeta cruzou os braços, enchendo a expressão de azedume, uma irritação velada. Estava claramente a detestar estar a fazer aquilo diante de Chichi, de Gohan, de Goten e do próprio filho.
Mas se nada havia a temer…
Bulma soltou o braço de Gohan que percebendo a eletricidade negativa vinda do príncipe, o ki borbulhando instável, se afastou ligeiramente. Com os dois braços livres, Bulma abriu o envelope, retirou a folha. Leu-a, o olhar azul a passear pelas linhas, a deter-se na conclusão. Detida no sentido literal. Petrificada, congelada.
Um frio impossível lambeu-lhe a coluna vertebral.
O sorriso esboroou-se. Bulma baixou os braços, afastando a folha e o envelope da cara. Cravou em Vegeta o olhar azul que agora vomitava chispas, dardos assassinos, balas mortíferas, toda a espécie de projéteis malignos com os quais se poderia atingir e ferir um ser humano. Ou mesmo um saiyajin.
Vegeta arreganhou os dentes, rosnou de volta àquela ameaça muda.
Depois olhou fixamente para o papel na mão de Bulma.
Havia qualquer coisa errada nos resultados do exame.




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