No seu quarto, Trunks vestia-se feliz,
ajeitando a gravata minúscula que a mãe lhe tinha dito para usar naquele dia
importante em que a sua casa se abria a toda a cidade, fazendo de todos os
cidadãos de West City os convidados especiais da Capsule Corporation. Ele não
se recordava muito bem das outras vezes em que tal tinha ocorrido, era
demasiado pequeno para fixar com clareza esse tipo de memórias, mas sabia que
tinha de se portar convenientemente e de vestir uma roupa de cerimónia, pois a
ocasião solene obrigava o futuro herdeiro da companhia a aparecer com a melhor
das aparências. O que ele não entendia era porque o pai, Vegeta, nunca era
incluído naquilo e nunca ninguém o obrigara a vestir uma roupa de cerimónia
naquele dia especial.
Não que ele se importasse muito de estar
vestido como um executivo em tamanho miniatura, analisava enquanto se via no
espelho do seu quarto, que o mostrava em corpo inteiro, enfiado naquelas calças
azuis vincadas, um casaco abotoado também azul, uma gravata verde sobre uma
camisa branca de colarinhos discretos. Era, pelo menos, diferente das roupas de
todos os dias e achava que ficava bastante elegante. Com um sorriso malandro
piscou o olho ao próprio reflexo. Era também divertido, no fim do dia,
descartar-se daquela vestimenta sem qualquer cuidado, espalhando as roupas pelo
chão antes de mergulhar numa banheira cheia de água e muita espuma preparada
pela avó e sorriu antevendo esse momento em que voltaria a ser uma criança de
cinco anos e não a promessa feliz do presidente da Capsule Corporation.
- Sou também um príncipe guerreiro –
murmurou. – E antes de ser o chefe da empresa, vou combater inimigos poderosos
ao lado do meu pai.
O sorriso foi ainda mais orgulhoso.
Colocou um dedo no queixo, subitamente
acometido com uma dúvida.
- Hum… Mas agora temos também uma
princesa guerreira, a Panty. Será que ela também vai ser a chefe da empresa
comigo? Ou eu, como sou mais velho do que ela, irei ser o chefe máximo da
empresa, sendo também o chefe dela? E será que o ‘tousan vai querer treiná-la para combater inimigos poderosos, ao
meu lado?
Socou o ar com ímpeto dizendo:
- Os irmãos Briefs, os defensores da
galáxia!
O gesto súbito provocou um ruído de
tecido em tensão, na axila direita e Trunks baixou o braço muito depressa,
puxando pelas abas do casaco para o compor sobre o torso, verificando se tinham
ocorrido alguns estragos. Felizmente, o fato ameaçara rasgar-se com o golpe
imaginado do meio saiyajin, mas não
chegara a acontecer a desgraça ou teria de ouvir os berros estridentes da mãe,
em pânico por ele ter destruído a roupa mesmo no dia da festa, que tinha a
assinatura de um qualquer costureiro.
Pigarreou, namorando a imagem devolvida
pelo espelho, focando a atenção agora no cabelo, certificando-se que as
madeixas estavam todas no sítio certo, pois um futuro presidente tinha de ser
bastante bonito, como ele já era naquela idade. Sorriu alegre, lembrando-se
outra vez da Panty. Ela tinha muita sorte em ser irmã de um menino como ele. E
lembrou-se também da aventura no zoológico do avô no dia anterior, com o pai e
como tinha sido especial, pois Vegeta não era muito dado a momentos de
proximidade. Sentou-se com um pulo na cama. Agarrou no telefone, marcou o
número e aguardou, as pernas a balançar. Ao fim de dois sinais de chamada,
ouviu a voz de Son Gohan:
- Mochi mochi!
- Ohayo, Gohan-san, sou o Trunks. Preciso falar
com o Goten-kun.
- Ohayo,
Trunks-kun! Ele está a brincar lá
fora, eu vou chamá-lo. Hum… Posso perguntar-te uma coisa?
- Hai.
- O dia aberto da Capsule Corporation…
Está quase a acontecer, não é?
- É hoje, Gohan-san.
- Hoje? – Fez-se silêncio. O filho mais
velho de Son Goku confessou envergonhado: – Eu gostava muito de ir, este ano…
Conhecer alguns cientistas, assistir às demonstrações…
- Podes aparecer, Gohan-san. A festa
está a começar, eu ainda estou no meu quarto.
- Vou falar com a ‘kaasan. Até logo, Trunks-kun! – Gohan soava entusiasmado do outro
lado da linha. Parecia que ia desligar, para aflição de Trunks, mas acrescentou
subitamente: – Ah, vou já chamar o Goten! Espera um pouco.
Após um instante sem qualquer ruído, escutou
o som de passos numa correria, um movimento abrupto de alguém que levantou o
auscultador que estava pousado e um guincho alegre:
- Trunks-kun! A minha mana já nasceu?
- Não. O ovo está ainda inteiro.
- Foste outra vez com o dinossauro até
ao ninho?
- Não, Goten-kun. Fui com o meu pai. Ele
me carregou e voámos juntos.
A pausa foi grande, como se do outro
lado Goten estivesse a decifrar o verdadeiro significado das palavras.
- Honto?!!
– exclamou finalmente com um grande sopro que fez Trunks retirar o auscultador
da orelha.
- Hai,
Goten-kun! Foi incrível! E depois, o meu pai disse-me que me vai ensinar a
voar. Olha, mas não quero que contes a ninguém… Senão, o meu pai zanga-se por
sabermos o que ele anda a fazer comigo e depois não me ensina nunca a voar.
- Não te preocupes, Trunks-kun. Eu não
conto nada a ninguém. Vai ser um segredo só nosso.
- Ótimo! Tu também vens aqui para a
festa?
- Hum… Que festa?
- Gohan-san disse-me que quer vir… Vem
com ele, Goten. É o dia em que a minha casa recebe a cidade inteira.
- Ah! Está bem, vou pedir à minha mãe.
Quero brincar contigo!
- Até logo, Goten-kun.
- Até logo.
Trunks desligou o telefone e saltou da
cama, saindo do quarto numa correria. O amigo iria visitá-lo e aquele dia iria
ser melhor do que esperava. Até poderiam regressar ao zoológico e visitar
novamente o ninho, onde a irmãzinha de Goten esperava para nascer, dentro do
ovo imaculado e branco que repousava sossegado entre a palha e os raminhos, no
cimo de um poste gigante.
Virou uma esquina de um longo corredor e
ia alcançar a escadaria que levava ao piso inferior, de onde subiam vozes
animadas, indicando que o átrio da Capsule Corporation já estava cheio, quando,
pelo canto do olho, espreitou um movimento que lhe pareceu estranho, mesmo que
a sua casa naquele dia recebesse um sem fim de gente e que acabasse por
encontrar pessoas em qualquer canto, espevitando-lhe o instinto saiyajin.
Parou, intrigado, uma sobrancelha
levantada. Sentiu a eletricidade subir das solas dos pés para os tornozelos e
daí para as pernas, inundando-lhe o corpo todo e, sem se aperceber, fechou os
punhos. Caminhou até ao sítio que lhe parecera suspeito. Era uma ala pouco
utilizada do complexo, onde havia quartos de hóspedes raramente ocupados. Foi
cauteloso, como se fosse surpreender um ladrão, mas acabou por descobrir uma
garota. Apanhou-a em flagrante, a abrir uma porta devagar e a espreitar para
dentro do compartimento de respiração suspensa, como se procurasse por alguma
coisa misteriosa e inacessível.
- Posso ajudá-la?
A garota deu um salto com o susto. Colou
as costas à parede junto à porta entreaberta. Os óculos descaíram para a ponta
do nariz, desvendando uns olhos grandes e expressivos, pestanas enroladas.
- Posso ajudá-la? – repetiu Trunks
abrindo as mãos, soltando a tensão que se apoderara dele, acalmando o instinto saiyajin.
- Eh… – Ela pigarreou, cobrindo a boca
com uma mão. Com dois dedos empurrou os óculos para cima, escondendo os olhos e
as pestanas. – Eu estava… Eu queria ir até ao banheiro.
- Ah, não é por aqui. Venha comigo, que
eu mostro onde ficam os banheiros.
Trunks sorriu entusiasmado e desatou a
saltitar pelo corredor afora. A garota hesitou, olhou para trás, por cima do
ombro, suspirou e foi atrás dele arrastando os pés, apertando uns folhetos que
tinha recolhido de uma mesa do átrio que continham o programa detalhado do evento.
Ao fundo, numa passagem afastada, a
senhora Briefs apareceu com Panty nos braços e Trunks lançou um aceno rápido à
avó e à irmãzinha. A garota estacou imediatamente soltando os folhetos,
espalhando-os pelo chão. Trunks perguntou-lhe, parando também:
- Aconteceu alguma coisa?
A garota passou por ele cabisbaixa e
nervosa:
- Não, nada!
Entrou no elevador próximo, as portas
fecharam-se e a luz do painel exterior indicou que descia. Trunks levantou o
dedo indicador, piscando os olhos desnorteado:
- Mas… Não queria ir até ao banheiro?
Que garota estranha!
***
As pontas começavam a enrolar
subtilmente, indicando o desgaste de um manuseio intensivo. Ou talvez da baixa
qualidade do espécime, que não passaria de um artigo contrafeito, a julgar pela
última avaliação. Mas o avaliador era parte interessada em frustrar todo e
qualquer intento para que se descobrisse a verdade, e provavelmente deveria
descartar essa hipótese, de falsificação tosca. O que necessitava absolutamente
era de esclarecer a questão.
Durante uma curta pausa daquele dia
aberto na Capsule Corporation, quando o doutor Briefs dava uma curta palestra
sobre a evolução da companhia e dos seus inventos mais emblemáticos, as
cápsulas hoi-poi à cabeça, encostada
à parede, Bulma cismava com a foto rasgada de Miruku que tinha vindo no cesto
da Panty. Retirara-a do bolso da jaqueta e contemplava-a com um certo grau de
indiferença, que se podia classificar como ceticismo.
A senhora Briefs apareceu cantarolando
carregando uma bandeja de cupcakes
acabados de sair de forno, quentes e aromáticos, deixando um rasto adocicado pelos
corredores. Iriam adornar a mesa onde se serviam bebidas e comidas de consumo
rápido a oferecer aos convidados, eram como a joia da coroa, os deliciosos
bolinhos confecionados pela esposa do eminente doutor Briefs. Bulma interpelou
a mãe.
- ‘Kaasan,
onde está a Panty?
- Deixei-a por um momento na cozinha,
sentada na sua cadeirinha – explicou a senhora Briefs parando. – Não te
preocupes, ela ficou bem. Já vou buscá-la. Só vou servir os meus bolinhos… Que
ficaram pavorosos! Oh, que desgraça.
- Hum… ‘Kaasan, não te preocupes. Os convidados vão adorar os teus
bolinhos. Só com esse cheiro esquecem qualquer imperfeição.
- Ainda vou fazer outra fornada… Estava
a pensar em chocolate e baunilha. O que achas?
- Perfeito – suspirou Bulma
desinteressada. O pedaço de fotografia entre os dedos estava a incomodá-la.
A senhora Briefs continuou a sua
caminhada pelo corredor. Bulma guardou a fotografia no bolso da jaqueta e foi
atrás dela.
- ‘Kaasan,
queria perguntar-te uma coisa…
- Diz, queridinha. Tem a ver com a
Panty?
- Hai…
Bem, não. Quero dizer, diretamente não. Preciso que te lembres de uma festa.
Julgo que aconteceu há um ano atrás, mas não tenho a certeza.
- Um ano atrás? – A voz da senhora
Briefs assumiu um tom alarmado. Bulma mordiscou o lábio inferior. Ora aí
estaria um problema. A mãe nunca se lembrava do que tinha vestido no dia
anterior. Recordar eventos com essa distância temporal poderia ser complicado.
- Hai,
um ano atrás – insistiu Bulma assertiva, convencida de que os detalhes seriam
fundamentais para puxar pela fraca memória da mãe. – Foi uma festa de
angariação de fundos para a Associação dos Amigos das Artes. Uma grande festa,
até esteve lá o prefeito de West City.
- Ah…
A interjeição foi vaga, mas parecia que
a senhora Briefs estava quase a recordar-se.
- Tu usaste aquele vestido especial –
atirou Bulma, como um anzol, o primeiro detalhe.
A senhora Briefs parou à porta da sala
onde iria deixar a bandeja dos cupcakes.
Fez um sorriso delambido e afirmou melosa:
- Hai!
O meu vestido cor de pêssego, com mangas largas e cauda.
- Esse mesmo! – confirmou Bulma
estalando os dedos, alegre, sabendo que tinha conseguido pescar a memória enterrada
na inconstância da mente da sua mãe. – Diz-me: lembras-te se lá estava um homem
de negócios chamado Miruku-iri Kohi? Dinheiro novo?
- Um jovem bem-parecido, com uns olhos
cor-de-mel?
A descrição foi assombrosa e Bulma
acenou avidamente com a cabeça.
- Hai,
esse mesmo – respondeu, sustendo o fôlego.
- O senhor Miruku estava lá, sim… Tirou
muitas fotografias. Vestia um terno caríssimo, que foi muito comentado pela
esposa do prefeito da cidade. Um corte impecável, um modelo único segundo me
contaram. E foi muito generoso, fez uma contribuição enorme para a Associação,
maior do que a nossa. Lembro-me de ter criticado o teu pai por não ter coberto
a oferta do senhor Miruku.
Bulma sacou do pedaço amassado da
fotografia de repente, tão de repente que assustou a senhora Briefs que deu um
passo para trás, estremecendo os cupcakes
sobre a bandeja.
- Seria… este o modelo único, o terno
caríssimo de corte impecável?
A senhora Briefs entreabriu os lábios,
confusa, encurralada pelo interrogatório da filha. Analisou a imagem maculada
com alguns vincos, um péssimo exemplar de fotografia. A confusão foi-se
esbatendo do rosto macio, a boca de espanto torceu-se num sorriso meigo, calmo,
perfeitamente seguro. Respondeu prestável, como era sempre o seu jeito:
- Hai,
Bulma-chan. Esse é o senhor Miruku com o seu magnífico terno na festa de
angariação de fundos para a Associação dos Amigos das Artes.
***
O miúdo quisera ajudá-la, mas ela acabara
por encontrar o banheiro sozinha. Não era assim tão difícil, já que existiam
indicações precisas que direção tomar, pois a Capsule Corporation era
percorrida por dezenas de visitantes que aproveitavam aquele dia invulgar para
visitarem a maior companhia do mundo e teriam, de vez em quando, de satisfazer
as suas necessidades fisiológicas.
Parou as mãos molhadas sobre as faces
escaldantes. Toda a cara escorria uma fina película de água, que alcançara até a
raiz dos cabelos, junto à testa, repuxados para trás num rabo-de-cavalo
desengraçado. Os óculos estavam pousados na bancada de mármore junto à pia onde
a torneira estava aberta. O brilho da iluminação refletia-se por todo o lado,
em cada minúscula gota de água que pingava entre os dedos, que lhe lambia a
pele.
Procurava refrescar-se e, sobretudo,
acalmar-se. Fora apanhada na sua indiscrição, quase que deitara tudo a perder,
mas o coração desfeito de mãe não a deixara ser racional.
Quando vira a bebê nos braços da esposa
do doutor Briefs, sentira ainda mais fundo a dor que a massacrava desde que a abandonara.
Todos os dias que tinham passado, apenas reforçaram a vilania do gesto e a
cobardia da decisão.
Deixou as faces molhadas, fechou a
torneira com um safanão. Crispou o rosto, estreitou o olhar, endureceu a boca,
transfigurou-se numa máscara empedernida de uma mulher determinada. Recolocou
os óculos, ajeitou-os sobre a cana do nariz, respirou fundo, cerrando punhos,
estremecendo todos os músculos, convertendo-se numa estátua de aço inquebrável.
Podia ter as faces molhadas, mas logo secariam, pois sentia o sangue em
ebulição. Medo e atrevimento a fazer a adrenalina fluir.
Sabia que não a conseguiria sustentar,
mas era-lhe impossível viver longe da filha amada. Haveria de arranjar uma
forma, haveria de encontrar uma solução, haveria de saber ser feliz com a sua
pequenina.
A garota misteriosa saiu do banheiro
determinada em descobrir onde estava a bebê e raptá-la daquela casa estranha.
Ou melhor, recuperá-la.
***
- Gohan-kun! Que surpresa!
Bulma depositou um beijo na face do
filho mais velho de Son Goku que corou com o cumprimento. Continuava a ser um
rapazinho adorável, mesmo que tivesse sangue saiyajin nas veias, mesmo que tivesse, anos antes, reunido a raiva
necessária para acabar com o terrível monstro Cell e se convertido no maior
guerreiro do universo, por muito que Vegeta custasse a admitir esse facto.
Encontrou a acompanhar o rapaz, a mãe
Chichi e o irmão mais novo, Son Goten. Bulma sentiu um nó na garganta. O
processo de decifração do mistério que rodeava a pequena Panty tinha acabado de
sofrer um sério revés, quando a mãe confirmara as palavras de Miruku e colocara
a fotografia no cenário descrito pelo homem. Teve o impulso de puxar Chichi de
parte e de lhe contar esse pormenor, peça que não encaixava naquele imbróglio,
mas se a amiga estava ali, viera acompanhar o filho mais velho. E de Son Gohan
estava ali, viera ao dia aberto da Capsule Corporation e deveria receber bem
aqueles convidados que, no final de contas, eram dos mais especiais, ainda mais
que qualquer entidade política da grande metrópole.
Depositou um beijo amigável na face de
Chichi.
- Que bom, vocês vieram.
- O Gohan-kun, todos os anos, fala-me
que quer vir até à Capsule Corporation, neste dia em que tens aqui tantos
cientistas – explicou Chichi. – Mas, por algum ou outro motivo, acabamos sempre
por falhar o dia certo… Este ano, conseguimos acertar na data. Já sabes que as
notícias chegam tarde à montanha Paozu.
Trunks surgiu numa correria, braços
lançados ao ar.
- Goten-kun!!
O pequeno Goten descolou da saia da mãe
que agarrava com avidez e correu para o amigo, também com os braços no ar, guinchando
de alegria. Deram-se as mãos, pulando e rindo.
- Vieste!
- Hai,
Trunks-kun!
- Que bom! Queres conhecer o novo robot que o meu avô inventou?
- Hai!
- Vamos!
Bulma interrompeu-os com a advertência:
- Crianças! Este é um dia especial, para
gente crescida. Podem assistir aos eventos organizados, ver as novas invenções
e as demonstrações das máquinas. Mas não podem incomodar, nem sequer
intrometer-se nos discursos dos cientistas. E muito menos causarem problemas!
O pequeno Trunks esfriou o entusiasmo,
fazendo beicinho, carregando as sobrancelhas sobre o olhar azul.
- ‘Kaasan,
nós sabemos comportar-nos.
Goten enfiou o polegar na boca,
atrapalhado. Trunks completou dando a mão ao amigo:
- E eu cuido dele.
- Eu sei cuidar de mim – sussurrou Goten
ofendido.
Gohan e Chichi sorriam. A morena
agachou-se junto ao filho, ajeitando-lhe a fatiota, recomendando com brandura:
- Goten-kun, eu sei que sabes cuidar de
ti. Já és um menino bastante grande. E sei também que vais portar-te muito bem.
Vais deixar o nii-chan orgulhoso.
Goten dispensou um olhar ao irmão e
depois confirmou:
- Hai,
‘kaasan.
Bulma sorriu aos dois meninos. Mas no
fundo sentia-se mais descansada por ter lançado o aviso, pois quando Trunks e
Goten se juntavam eram imprevisíveis, como todos os daquela idade. Voltou-se
para Gohan com um sorriso mais luminoso:
- Gohan-kun, por onde queres começar? Eu
vou cuidar da tua visita. Terás o prazer de ser acompanhado por Bulma Briefs no
giro pelo mundo tecnológico da Capsule Corporation.
Gohan corou quando Bulma enrolou o braço
no dele.
- Eh… Arigato gozaimasu, Bulma-san… Mas basta indicares-me o caminho e eu
irei sozinho…
- Nada disso! A partir do momento em que
aqui chegaste, serás o meu convidado especial.
- Eh… Está bem… Aceito.
- Oh, aceita! – exclamou Chichi unindo
as mãos, vaidosa, de olhos brilhantes. – É uma honra, Bulma-san, ter-te como
anfitriã do meu filho Son Gohan.
- Ora, Chichi… Vai ser um prazer
acompanhar um jovem tão bonito como o Gohan-kun.
O pobre adolescente corava cada vez
mais. Estava já tão afobado que alargou o colarinho e o nó na gravata criando
uma pequena folga com o dedo. Fez um ruído estranho com a garganta, sinal de
que queria dizer qualquer coisa, mas as palavras amontoavam-se na glote, numa
pilha desorganizada de letras. E apenas resmungou, sorrindo pateticamente, numa
expressão que fez lembrar muito o pai. Bulma sorriu-lhe para o acalmar. Olhou
de relance para baixo e descobriu Trunks e Goten pregados ao chão, sérios.
Girou devagar, arrastando Gohan, para perceber o que os dois miúdos viam e
encontrou, nas costas de Chichi, no átrio da Capsule Corporation onde estavam
todos, o carrancudo Vegeta. Chichi, percebendo que havia algo atrás de si que
motivava tanta atenção, também se voltou e encarou o príncipe que trazia
consigo um envelope.
O exame de DNA. Bulma suspendeu a
circulação de ar e sangue no corpo por alguns milissegundos. Contudo, nada
havia a temer, mesmo que a primeira prova, a maldita fotografia, fosse, de
facto, uma mísera falsificação. Por isso, relaxou, mostrou um dos seus
habituais sorrisos e acolheu-o dizendo:
- Vegeta… voltaste depressa.
Ele não gostou, obviamente, da
assistência. Mas achou que não devia recuar e deixar para outra ocasião a
entrega do envelope e a revelação do resultado do teste que tinha feito a contragosto.
Nada havia a temer, realmente. E avançou três passos, passou por Chichi,
estendeu o braço, ainda longe de Gohan, a quem dispensou um olhar de desprezo.
O combate contra Cell ainda pesava
imenso entre os dois.
De sorriso firme, Bulma estendeu também
o braço e agarrou no envelope. Vegeta cruzou os braços, enchendo a expressão de
azedume, uma irritação velada. Estava claramente a detestar estar a fazer
aquilo diante de Chichi, de Gohan, de Goten e do próprio filho.
Mas se nada havia a temer…
Bulma soltou o braço de Gohan que percebendo
a eletricidade negativa vinda do príncipe, o ki borbulhando instável, se afastou ligeiramente. Com os dois
braços livres, Bulma abriu o envelope, retirou a folha. Leu-a, o olhar azul a
passear pelas linhas, a deter-se na conclusão. Detida no sentido literal.
Petrificada, congelada.
Um frio impossível lambeu-lhe a coluna
vertebral.
O sorriso esboroou-se. Bulma baixou os
braços, afastando a folha e o envelope da cara. Cravou em Vegeta o olhar azul
que agora vomitava chispas, dardos assassinos, balas mortíferas, toda a espécie
de projéteis malignos com os quais se poderia atingir e ferir um ser humano. Ou
mesmo um saiyajin.
Vegeta arreganhou os dentes, rosnou de
volta àquela ameaça muda.
Depois olhou fixamente para o papel na
mão de Bulma.
Havia qualquer coisa errada nos
resultados do exame.
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