Ela sentia as pernas a tremer, o coração
aos pulos, o suor gelado descer pela curvatura das costas, a garganta tapada e
a boca seca, mas iria enfrentar corajosamente aquela situação, pois pelo futuro
da sua filha estava disposta a lutar até ao limite das suas forças, mesmo que
soubesse, interiormente, que vencer as pessoas mais ricas do mundo não seria
tarefa fácil. E era o corpinho quente da sua amada bebê, nos seus braços
rígidos, que a mantinham lúcida e inquebrável.
A frescura do automóvel da polícia,
causada pelo ar condicionado, enganava-a, por instantes sentia-se confortável e
abstraída do que a rodeava. Fechava os olhos, sustinha a respiração e tudo era
simples, claro, direto. Mas quando a voz metálica aparecia pelo
intercomunicador montado no painel dianteiro da viatura, seguida de estalidos,
com informações transmitidas pela central da polícia, despertava do transe
momentâneo e recordava-se que estava sob custódia policial, entalada entre dois
agentes da lei, no banco de trás de um automóvel que corria pelas estradas da
cidade com o sirene aberta a soar estridente.
Estava a ser tratada como uma criminosa
e as sensações ruins – as pernas a tremer, o coração aos pulos, o suor gelado,
a garganta tapada e a boca seca – regressavam com redobrada intensidade. E continuava
a ser o corpinho quente da sua bebê a salvá-la da loucura.
Apesar de os seus protestos continuarem
pela estação de comboios afora enquanto estava a ser levada pela polícia,
afirmando categoricamente que era a mãe daquela criança, que devia haver alguma
confusão, que ela não tinha feito nada de mal, que poderiam fazer os testes que
quisessem pois estes haveriam de provar que ela era efetivamente a mãe e que
aquela bebê era efetivamente a sua filha, fora completamente desarmada quando,
acabados de sair do edifício da estação, um dos polícias aparecera diante dela,
empurrando dois rapazinhos. Reconhecera-os, havia sido eles que a tinham
seguido na Capsule Corporation. Nesse momento, soubera que estava perdida, que
as hipóteses estavam todas contra ela, mesmo que um qualquer exame provasse que
ela era a mãe biológica da bebê adormecida que carregava.
- É esta a garota que viste na zona
privada da tua casa?
O rapazinho dos olhos azuis e cabelo
lilás acenara afirmativamente com a cabeça.
- Hai.
É essa mesmo.
O rapazinho dos olhos negros e cabelo
espetado também negro acenara que sim e respondera:
- Hai.
O polícia atrás dos meninos sorrira e
concluíra com um sorriso que seria de satisfação, mas que a ela lhe parecera
malvado, a maneira de um carrasco sorrir antes de desferir o golpe fatal:
- Temos uma identificação positiva. A
suspeita foi encontrada. Levem-na!
Entrara no automóvel e o mundo inteiro
desabara sobre os seus ombros, numa cascata de entulho que a deixara perdida e
temendo pelo futuro da sua bebê.
***
Quando a sirene barulhenta se calou, ela
abriu os olhos – não se recordava exatamente de os ter fechado recentemente – e
isso significou que tinham chegado à Capsule Corporation. Os dois polícias que
a ladeavam saíram ao mesmo tempo do automóvel, deixando-a no banco de trás por
um par de segundos, tempo suficiente para que ela entendesse que estava
definitivamente condenada. Por sorte, a bebê dormia como um anjo, muitíssimo
longe do reboliço e dos problemas. Escutou um grunhido do lado de fora que
teria sido uma ordem para que ela saísse e ela obedeceu. Primeiro, não sentiu
as pernas, mas descobriu que estava definitivamente em pé ao encarar o enorme
edifício amarelo em forma de cúpula, gigantesco, onde se iria desenrolar o
último ato daquela peça teatral de má qualidade, que ela não era nenhuma atriz
excecional. Era sim, uma sobrevivente, desde que tropeçara nos fatos reais da
vida, desde que encontrara aquele maldito homem que a tinha enfeitiçado com os
seus olhos cor-de-mel e muito dinheiro.
Reparou no par de rapazinhos que seguiam
aos pulos mais adiante e que tinham abandonado outro automóvel da polícia. Ao
todo tinham estacionado junto ao grande relvado da Capsule Corporation um total
de seis automóveis, um contingente impressionante que teria servido para
capturar uma simples jovem mulher e uma bebê. Ou seria um caso de utilização
excessiva de meios, ou estavam mesmo decididos a resolver o caso, pois
tratava-se da família mais conhecida do mundo inteiro. O que indicava que ela
não teria qualquer possibilidade de defesa e sentiu-se a afundar em areias
movediças.
- Vamos – disseram-lhe com rispidez. –
Temos muito a esclarecer com os Briefs, menina.
Reentrou no imponente átrio e subiram a
escadaria até ao piso superior, para onde se dirigiram ao grande salão da casa.
O local estava num silêncio quente, agora que a comoção do dia aberto tinha terminado
e ela estranhou tanta calma, aquele ambiente quase asséptico. Tinha penetrado
num templo exclusivo e iria pagar pela transgressão. A bebê, pela primeira vez,
reagiu nos seus braços e ela assustou-se. A sua filha já conhecia aquela casa,
sabia-lhe os cheiros e os segredos, sentia provavelmente que pertencia ali.
O salão da Capsule Corporation abriu-se
diante dos seus olhos e tinha tanta luz, era tão bonito, amplo e perfeito que
ela sentiu-se primeiro encandeada, depois maravilhada, a seguir anestesiada e,
por fim, esmagada.
Todos olharam para as portas que se
abriam, deslizando, revelando-a na pose ideal de suspeita, acusada, criminosa,
condenada, o que fosse. A garota misteriosa, vestida de forma simples e sem
maquiagem, com a bebê nos braços, escoltada por um par de polícias vigilantes.
Todos olhavam, de facto, para ela que
era, sem qualquer dúvida, o centro das atenções. Uma mulher de cabelos azuis a
fumar sentada num sofá, ao lado de uma outra mulher de cabelos negros apanhados
num carrapito. Os dois rapazinhos estavam junto ao sofá, acompanhados por um
tenente da polícia que escrevinhava num pequeno bloco de notas de capa azulada.
Um homem de cabelo grisalho, vestido com uma bata branca de laboratório, também
a fumar, com um pequeno gato preto sobre o ombro. Uma mulher loira, de pé ao
lado do homem, direita como uma vara comprida, segurava um lenço encostado ao
nariz. Ela conhecia-os, menos a mulher do carrapito e os dois rapazinhos. Bulma
Briefs, o doutor Briefs e a senhora Briefs.
Assim que ela colocou um pé dentro do
salão, a senhora Briefs lançou um grito, correu para ela com os braços
esticados:
- Panty!!
Ela estranhou o nome, nunca o tinha
escutado antes. Ela não se chamava assim, nem certamente a sua querida filha.
Deu um passo atrás com medo, pela primeira vez com verdadeiro medo do que a
aguardava.
E então aconteceu algo que a deixou
ainda mais alarmada. A sua bebê reagiu com aquele grito. Abriu os olhitos
estremunhada, despertava finalmente do seu plácido sono, mexeu-se no amplexo
que a protegia e voltou a cabecinha na direção de onde vinha o som. A senhora
Briefs agarrou na bebê, mas ela rodou o corpo de maneira a manter a sua filha
nos seus braços, não deixando a mulher loira arrebatá-la com a ânsia que
demonstrava ter nos gestos desesperados. A bebê imobilizou-se, voltou a
cabecinha, olhou-a pestanejando com um toque sedutoramente pueril e os olhos da
jovem mulher, da mãe verdadeira, ficaram húmidos de lágrimas. A senhora Briefs
indignou-se.
- Oh!
- ‘Kaasan,
espera!
Bulma tinha-se levantado do sofá e
apagava o cigarro num cinzeiro.
- Mas, Bulma-chan…
- Espera. Julgo que precisamos ouvir o
que essa garota tem para nos contar. E não estamos a ser bons anfitriões…
Sorriu-lhe afável e ela recuou ainda
mais, esbarrando com um dos polícias que estavam atrás dela. Os crocodilos
sorriam sempre antes de morder. Bulma indicou-lhe o sofá com a mão.
- Vem sentar-te, por favor. Queremos
conhecer a tua história e a história dessa pequenina. Queres alguma coisa para
beber? Para comer?
Ela abanou a cabeça.
- Como te chamas?
Mordeu primeiro os lábios. Estava muito
nervosa, o medo a arder por dentro como um fogo gelado. A bebê remexeu-se e ela
mudou-a de posição, pois se já tinha despertado queria estar sentada no colo,
de onde poderia ver o que estava a acontecer. Respondeu a Bulma num tom baixo:
- Hato[1]…
- Bem, Hato-san. Vamos sentar-nos.
Uma vez no sofá, a bebê soltou um
gritinho de alegria, começando a parlar. A senhora Briefs ficara amuada e não
se sentou com ela e com Bulma, escolhendo regressar para o seu posto de
observação ao lado do marido. A mulher do carrapito saíra do sofá e postava-se
junto aos dois rapazes que, tal como os demais, incluindo os polícias,
esperavam pelo seu relato.
Hato quis engolir a saliva que tinha na
boca, mas a garganta estava trancada. O terror era demasiado e a incerteza do
que lhe poderia acontecer, o que lhe fariam aquelas pessoas ricas – e ela tinha
razões muito fortes para desconfiar das pessoas ricas, pois fora miseravelmente
enganada por um homem rico – estavam a massacrá-la insuportavelmente.
Não tinha escapatória e encheu-se de
coragem, insuflou os pulmões de ar, a alma de calor e resolveu contar a
verdade, pois nunca ninguém fora condenado por contar a verdade.
- Eu sou a mãe dela – começou,
estreitando o abraço que mantinha a alegre bebê no seu colo. – Sou a mãe dela… Eu
sei que não sou uma boa mãe, nem uma mãe perfeita, porque abandonei a minha
filha à porta da vossa casa, mas eu estava desesperada. Já não conseguia
sustentá-la, dar-lhe o que uma bebê precisa para crescer saudável, feliz e
forte… Perdoem-me por vos ter deixado este encargo, este problema… Sei que
criar uma criança não é fácil, mas vocês eram muito conhecidos e… tinham
dinheiro suficiente para serem uma excelente família para a minha pequenina. A
decisão de deixá-la foi mais difícil do que a decisão de vos escolher. Peço que
me perdoem por todo o transtorno que causei. Gomen nasai! – exclamou baixando a cabeça. Fios de lágrimas
desceram-lhe pelo rosto agora corado.
Bulma ficou tensa. A primeira intuição
de que aquela garota era a mãe da Panty estava correta. Faltava confirmar a
identidade do pai. Levou a mão ao bolso da jaqueta, sentiu o papel áspero e
enrugado da fotografia rasgada.
Hato levantou a cabeça de repente,
limpando as faces molhadas. Prosseguiu com a voz mais segura:
- Nos dias que se seguiram ao abandono,
o meu coração ia morrendo por cada hora que passava longe da minha filha.
Descobri que abandoná-la, mesmo com todas as dificuldades que sentia em cuidar
dela e de mim, fora o pior erro que cometi em toda a minha vida. Nunca me
arrependi de ter engravidado, nunca me arrependi de ter tomado a decisão de a
fazer nascer. Ela… é o que eu tenho de mais importante. Lembrei-me do dia
aberto da Capsule Corporation, sabia que estava quase a acontecer… Preparei um
plano para esse dia em que iriam receber uma multidão de estranhos. Eu seria
mais uma, não me dariam tanta importância… Bastava conseguir descobrir onde
estava a minha menina e levá-la comigo, sem dar muito nas vistas. Ela não me
estranharia, sou a mãe dela, não iria gritar, ninguém se aperceberia que eu a
estaria a levar. Foi o que eu fiz… E, mais uma vez, as minhas decisões
causaram-vos transtorno. Gomen nasai,
gomen nasai! – implorou chorando outra vez.
Bulma acalmou-a.
- Hato-san, nós compreendemos a tua
situação. Não precisas pedir mais desculpas pelo que fizeste, pois… eu também
sou mãe. Imagino o que deves ter passado, o desespero e todo o sofrimento que
esta situação te causou. Num ponto, no entanto, tens razão, a tua filha foi
muito bem tratada por nós. A minha mãe, a senhora Briefs, foi incansável em
prestar-lhe todos os cuidados e enchê-la de carinhos.
- Arigato
gozaimasu – murmurou Hato sorrindo entre lágrimas. – Nunca vos poderei
agradecer o suficiente por tudo aquilo que fizeram pela minha bebê. Mas eu
posso pagar, estou disposta a pagar! Digam-me o que querem que eu faça, eu
posso trabalhar para vocês e eu trabalharei.
- Não será necessário, Hato-san –
contrapôs Bulma. – Depois veremos isso… Mas não terminaste ainda a tua
história. Existe uma parte importante que queria muito que explicasses. Tem a
ver com o pai da bebê…
- Ah, sim – disse Hato limpando as
lágrimas, endurecendo a voz. – O pai dela… sim.
Bulma mostrou a fotografia rasgada. Hato
endireitou as costas e desenhou uma expressão implacável no rosto, em todo o
corpo, numa dureza ainda maior do que aquela que demonstrara na voz. Bulma
disse:
- Esta foto estava no cesto da bebê
juntamente com um bilhete manuscrito.
- O bilhete escrevi-o, antes de deixar o
cesto na porta da Capsule Corporation. A foto… Bem, a foto…
Um arrepio deixou Bulma apreensiva.
- A foto é do miserável do pai dessa
cria humana!
A declaração irrefutável tinha o tom
imperioso do príncipe dos saiyajin
que chegava ao salão trazendo com ele um infeliz vestido apenas de sunga e uma
camisa transparente desabotoada, chinelos enfeitados com brilhantes e mais
pálido que um fantasma, agarrado com ambas as mãos ao próprio torso inchado.
- Vegeta! – Bulma levantou-se.
Hato também se levantou e ao reconhecer
o infeliz murmurou surpreendida, mais pelo aspeto deplorável do que por vê-lo
ali, a acrescentar o retumbante argumento final que encerraria aquele drama, e
de uma vez por todas:
- Miruku-san…
- O que é isto, Vegeta? O que faz ele
aqui?
O príncipe cruzou os braços, levantando
o queixo.
- Esse miserável vai confessar a verdade.
Se mentir, já sabe que lhe acabo com a vida.
O tenente da polícia arqueou as
sobrancelhas, atónito com aquela ameaça.
Bulma olhou para Miruku que soltava
gemidos curtos. Estava ferido, devia ter algumas costelas partidas. Vegeta
tinha feito das suas… Limpou o suor que lhe encharcava a testa com as costas da
mão e gaguejou com os lábios trémulos:
- Eu… Eu estava… Festa… Eu…
O saiyajin
inclinou-se ligeiramente e disse-lhe:
- É melhor começares a falar
convenientemente, ou parto-te um braço.
O tenente da polícia descartou-se
definitivamente do bloco de notas e adotou uma posição defensiva. Não estava a
gostar do rumo que aquilo estava a tomar e Bulma percebeu-lhe o nervosismo.
Miruku fechou os olhos, abanou a cabeça
como se quisesse sair de um pesadelo ruim e desabafou gemendo, chorando e
tremendo:
- Eu sou o pai da bebê! E essa garota
que está com ela ao colo é a mãe e chama-se Hato. Conhecemo-nos… há algum
tempo. Foi divertido... Mas depois ela engravidou e eu não poderia assumir a
criança. A minha namorada é filha do neurocirurgião mais importante de West
City, menina de boas famílias. Seria um escândalo se eu tivesse um filho com
outra mulher, seria repudiado, difamado pela cidade inteira! E os meus negócios
dependem do meu bom nome… Oh, compreendam! Por favor!
Bulma rangeu os dentes, apertando os
punhos.
- Maldito!
Vegeta permanecia de braços cruzados,
pernas afastadas, cara fechada, sem demonstrar qualquer pingo de emoção,
misericórdia ou compaixão. A pose de um guerreiro, mesmo num cenário tão
corriqueiro quanto aquele, resolvendo um assunto tão mundano como aquele.
Miruku soluçava ao lado de Vegeta e a diferença de postura entre os dois
marcava a diferença abissal que existia entre eles, enaltecia a vilania do
homem e ostentava a nobreza do saiyajin.
- E o exame de DNA?! – perguntou Bulma
irritada.
Gohan entrou no salão nesse momento
agitando uma folha de papel na mão.
- Foi falsificado! – anunciou. – Fui
buscar uma cópia do exame à clínica, Bulma-san e estive a analisar melhor os
resultados. Mesmo que apresente uma compatibilidade do DNA de Vegeta-san com a
pequenina Panty, o DNA de Miruku-san não é verdadeiro. – Sacou de um livro
grosso que trazia na mochila que carregava a tiracolo, desfolhou-o, abriu-o na
página que queria e prosseguiu – O DNA de Miruku-san é idêntico ao de uma
árvore, de acordo com o que leio no meu compêndio de ciências naturais. Mais
precisamente com o DNA de um… pinheiro! A falsificação é muito amadora.
A dor foi demasiado forte e Miruku
deixou-se cair de joelhos. Fazia pena, mas ninguém naquele salão sentia
qualquer pena por aquele homem sem carácter. Bulma estava capaz de o desfazer
e, por alguns segundos, ao encarar o gelado Vegeta, percebeu que se ela
tentasse fazer alguma coisa contra Miruku, ele a impediria. Porque ela não
merecia sujar as mãos num verme daqueles.
- Então, parece que tudo se esclareceu!
– exclamou o doutor Briefs.
- Oh! A minha querida Panty! –
acrescentou a senhora Briefs emocionada.
Trunks deu uma cotovelada em Goten.
- Ei, Goten-kun…
- Hai, Trunks-kun?
- Percebeste alguma coisa?
- Não.
- Eu também não… Mas acho que… a Panty,
afinal…
Os dois amigos olharam-se expectantes.
Um apito intermitente cortou a tensão
gerada no salão da Capsule Corporation. O doutor Briefs pediu desculpas aos
presentes e retirou do bolso da bata branca um pequeno dispositivo que
desapareceu no interior da palma da mão.
- Hum… O ovo vai chocar – comentou lendo
as informações do minúsculo ecrã.
Bulma perguntou indignada com semelhante
tipo de distração:
- ‘Tousan!
Que ovo é que vai chocar?!
- O ovo da minha cegonha.
Nisto, Goten soltou um grito que
surpreendeu todos. Saltou no ar entusiasmado, batendo palmas, como se acabasse
de ganhar um brinquedo há muito desejado. Chichi olhou escandalizada para o
filho.
- Goten-kun! Comporta-te!
- Mas é o ovo, ‘kaasan! O ovo vai chocar!
Trunks também fez uma festa semelhante,
Bulma e Chichi entreolharam-se. Os dois rapazes saíram do salão a correr,
passando como um furacão duplo pelos dois polícias que continuavam a guardar a
porta escancarada. O doutor Briefs saiu atrás deles.
- Onde vais, ‘tousan?! – perguntou Bulma perplexa.
- Ora… Vou conhecer o membro mais
recente do meu zoológico. E vou acompanhar o meu neto e o amiguinho dele nesse
momento especial. Já venho!
Bulma não conseguiu contrariar o seu
excêntrico pai.
***
Com a ajuda de uma grua munida de um
cesto, o doutor Briefs, Trunks e Goten alcançaram o ninho da cegonha e
assistiram ao momento exato em que o ovo chocou no cimo do poste altaneiro. O
rapazinho mais novo quedou-se em suspenso e assim que viu a pequena avezita
surgir através da casca, não se desiludiu por não ser uma pequena menina, já de
vestido e lacinho no cabelito, como usava a Panty. Ficou muito feliz por
assistir ao nascimento da pequena criatura e pediu ao avô do amigo para adotar
o animalzinho, ao que o doutor Briefs concordou.
- Como é que se vai chamar, Goten-kun?
- Vai chamar-se Pudim.
- Isso não é um nome adequado para a tua
irmã, Son Goten! – censurou Trunks. – Isso é nome de uma coisa que se come!
- Ora, Trunks-kun! – protestou Goten
amuado. – A irmã é minha e eu chamo-a como eu quiser.
O doutor Briefs soltou uma gargalhada.
***
Só depois de assinar um acordo em que se
comprometia a providenciar uma pensão mensal vitalícia de cem mil zeni para
sustentar a filha e ajudar Hato, verificado, atestado e autenticado pelo
advogado da Capsule Corporation, é que Vegeta levou Miruku, à beira do desmaio,
para um hospital. Carregou-o por um braço, assim como o tinha trazido, sem
qualquer cuidado e totalmente insensível aos lamentos e gritos, que
substituíram os contidos gemidos iniciais.
Bulma dispensou o tenente e os demais
polícias, agradeceu-lhes a disponibilidade e pediu desculpas por qualquer
inconveniente, mas o mistério da bebê no cesto e o caso do rapto tinham sido
resolvidos e a contento para todas as partes, incluindo a senhora Briefs que
fazia gracinhas para a garotinha que se ria no colo da mãe.
Chichi despediu-se pouco depois, pois a
viagem até às montanhas Paozu ainda era demorada, Gohan e Goten saíram com ela,
este último levava consigo um pedaço do ovo da cegonha que chocara, como se
carregasse um tesouro inestimável.
Os dois garotinhos, Trunks e Goten, não
foram castigados por terem saído de casa atrás da polícia para brincar aos
detetives, pois, no final, tudo tinha terminado em bem – a bebê tinha sido
encontrada e o mistério da sua origem desvendado. Os dois garotinhos até tinham
ajudado a polícia na solução do caso. Não ganharam nenhum prémio, mas também
não sofreram as consequências das suas irresponsáveis traquinices.
Para além de ter conseguido o acordo com
Miruku, Hato também concordara em visitar a Capsule Corporation de vez em
quando, pois a senhora Briefs confessou emocionada que já não conseguiria viver
longe da sua querida bebê que amava como sua neta, apesar de não haver qualquer
possibilidade de esta ser sua neta, corrigiu ante a carantonha de Bulma, que
ainda se incomodava com essa possibilidade, agora desmascarada como
irrefutavelmente descabida. A senhora Briefs acabou ainda por dizer que toda a
roupinha que comprara era da bebê e que Hato deveria considerar tal como um
presente especial dos Briefs.
Mas havia ainda um pormenor que era
preciso esclarecer, a derradeira peça que fecharia o quebra-cabeças e
encerraria o assunto.
- Hato-san – disse Bulma curiosa –, como
se chama a bebê? Nós demos-lhe o nome de Panty, mas ela terá certamente outro
nome.
- Hai.
O nome dela é Suzume[2].
A cientista sorriu.
- É muito bonito!
***
Bulma correu pelo relvado afora e parou
ofegante diante da nave redonda que repousava ali, brilhante e pronta para
viajar pelo espaço interestelar.
- Vegeta! – chamou.
O príncipe parou junto à rampa. Ficou de
costas para ela e continuava zangado, pois não se voltou. Bulma parou a alguma
distância. Sabia que não devia penetrar no espaço dele quando ele estava com os
humores azedos. E agora, no fim de tudo, ela dava-lhe toda a razão.
- Vegeta…
E agora ela devia-lhe um pedido de
desculpas, todo o seu arrependimento. Arriscou um princípio:
- Eu julgo que não devia ter agido como
agi…
- Não quero ouvir, Bulma.
Ele cortava a direito, sem qualquer
hipótese de argumentação ou refutação. E ela não conseguia ficar zangada ou
indignar-se. Olhou para a nave. Ele iria deixá-la. Seria por uma ninharia, mas
estranhamente não conseguia censurá-lo. Ela fora quem o expulsara primeiro de
casa. Olhava para a nave. Nem sabia que esta ainda existia, o local onde se
tinham encontrado e amado, no início, às escondidas. Tinha o peito apertado,
dor no lugar do coração.
- Vais despedir-te de mim assim, de
costas?
Houve um silêncio grande, elétrico.
Vegeta encaminhou-se para a rampa,
contornou-a. Abriu um pequeno painel, calcou num botão específico e encapsulou
a nave. Quando a nuvem branca assentou, recolheu a pequena cápsula na mão,
guardou-a no bolso das calças e sempre de costas voltadas para ela
respondeu-lhe:
- Não sejas ridícula, mulher.
Bulma olhou para o espaço vazio no
relvado, onde estivera a nave. Então… ele não iria embora? Então, significava
que ficava? Que a perdoava?
Continuando de costas, o orgulhoso
príncipe dos saiyajin concluiu:
- Mereces uma boa lição… Esta noite, no
teu quarto. Entro pela sacada.
O sorriso de Bulma foi radioso, como um
sol a furar as nuvens negras depois de uma tempestade terrível, mas passageira.
Uma daquelas tempestades de primavera.
***
Ele coçou o cabelo devagar, absorvendo
tudo o que tinha acabado de acontecer.
- Ei, Kaio-sama?
- Hai,
Goku – disse o deus sonolento, enquanto se estirava numa espreguiçadeira no
Outro Mundo.
- Afinal, a bebê… não era filha do
Vegeta, pois não?
O deus sorriu complacente, sem abrir os
olhos.
- Não, Goku. A garotinha é filha do
Miruku e da Hato.
- Ah…
- Pensava que tinhas percebido.
Goku abriu um sorriso largo.
- Claro que sim, Kaio-sama! A garotinha não tinha aspeto de saiyajin.
- E como conseguiste descobrir isso?
Goku limitou-se a rir divertido.
- Não descobri. Eu sempre acreditei no
Vegeta! Ele não mente… Os saiyajin
não sabem mentir.
- Tens razão, Goku – concordou o deus
com um bocejo. – Tens razão.
FIM
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