Caminhava
calmamente pela trilha que começava atrás da casa olhando as árvores em volta,
a grama verde, a vegetação serrana, as flores daquele lugar que sempre foram
bonitas.
O
sol começava a ficar avermelhado se preparando vagarosamente para deixar o dia
e dar espaço à noite, assim como eu que caminhava devagar. Sabia que ia
encontrar o rapaz dos cabelos negros e dos olhos verdes que tinha penetrado em
meu coração. Era por isso que eu caminhava por ali devagar, para forçar esse
encontro, mãos metidas nos bolsos da saia.
Alcancei
depressa a entrada da gruta, mas não entrei. Preferi me sentar em uma pedra não
muito distante, de mãos unidas, pernas cruzadas e continuei a contemplar a
natureza com o mesmo enlevo, como se fosse à primeira vez. Os pássaros voavam
para os seus ninhos, piando alegres, celebrando o término de um longo dia e o
começo de uma linda noite.
Alguém
me abraçou por trás, uns braços quentes, fortes e ternos me envolveram e eu
sabia quem era. Fechei os olhos, retendo um suspiro, quando escutei um sussurro
baixo:
– Me
procurando?
Rodei
o corpo e ele estava ali, tal como eu esperava que estivesse. Ele já não estava
com as muletas, já não tinha a perna enfaixada. Estava perfeito e ainda mais
bonito.
–
Sim, estava te procurando – respondi. – Você sumiu e eu queria…
Ele
colocou um dedo em meus lábios pedindo silêncio.
–
Xiiu…
E eu
me calei.
Depois
tirou os dedos e os substituiu pelos seus lábios. Beijou-me e me deitou na
grama, me cobrindo de carícias. O meu corpo reagia com arrepios e
afrontamentos. Gemi baixinho, ansiando por senti-lo mais uma vez me
completando, me tornando sua, mas ele simplesmente terminou o beijo, me olhou e
depois se deitou ao meu lado.
Ficamos
os dois a olhar para o céu que já tinha escurecido.
–
Vai fazer o que prometeu?
– O
quê?
–
Olhar as estrelas e se lembrar de mim?
A
primeira estrela já iluminava a negra cortina da noite.
–
Claro. Eu vou sempre lembrar-me de você, Douglas. Olha, estive pensando e venho
visitar você todo o fim de semana. É uma viagem longa, eu sei, mas eu virei
mesmo assim… Pode acontecer um ou outro fim de semana ser impossível, por causa
da faculdade, mas…
Ele
disse sério, me interrompendo:
–
Você não vai mais me ver...
O
meu corpo gelou, o meu coração parou, o meu estômago deu um nó.
Sentei-me
e ele também se sentou.
–
Por que, Douglas? – Perguntei.
Ele
me encarou e havia uma dor qualquer, como um véu, a toldar-lhe o olhar. Eu
apertei a boca, para não desatar a chorar. Por causa da desilusão que sentia,
porque via que ele estava sofrendo, porque não conseguir perceber o motivo de
tudo aquilo.
– Eu
disse que a amava…
–
Pois disse – confirmei triste. – Isso era mentira?
–
Não, Lana. Não era mentira. Eu a amo.
–
Então, porque é que disse que eu nunca mais vou te ver?
–
Vou lhe contar o que nunca contei para ninguém.
Ele
me abraçou, me encaixando entre os seus braços que eu adorava tanto e começou a
narrar:
– Eu
vim para essa cidade há muitos anos estudar essas grutas... Tinha ouvido falar
delas na faculdade, onde eu tinha estudado e resolvi descobrir para ver se
existiam de verdade. Eu já tinha terminado o curso, era um historiador e fazia
pesquisa sobre civilizações antigas. Quando cheguei aqui comprovei que de fato
este lugar tinha sido habitado há milhares de anos por uma comunidade que nunca
havia sido estudada antes e que iria revolucionar o que conhecíamos sobre as
origens da humanidade. Fiquei muito entusiasmado! Ah, Lana, era o sonho de uma
vida, descobrir algo que nunca tinha sido descoberto antes!
Ele
se afastou um pouco e olhou em meus olhos.
–
Comecei a fazer pequenas escavações, sozinho nessa gruta recolhendo artefatos e
todos os vestígios que conseguia encontrar. Nunca contei para ninguém, estava
cego de ambição. Queria ser o único responsável pela descoberta… Pouco a pouco
ia mais fundo, descobrindo novos desenhos e novas inscrições, decifrando-os e
de noite eu regressava ao pequeno hotel onde estava alojado.
Interrompeu
sua fala e os seus olhos estavam agora marejados de emoção.
– Um
dia, descobri uma pedra brilhando no fundo da gruta. Tinha uma cor verde água e
emanava uma suave luz arroxeada. Puxei a pedra, arranquei-a do lugar para ver o
que escondia e como podia brilhar daquela maneira. Com a pressa não reparei que
a pedra tinha umas inscrições.
– O
que dizia a pedra? – Perguntei aflita.
Ele
acariciou o meu rosto e respondeu:
–
Dizia assim: “Aquele que retirar a pedra da vida do lugar, ficará preso entre o
mundo dos vivos e o mundo dos mortos, até que encontre um amor verdadeiro que o
libertará para a vida eterna”.
Duas
lágrimas se soltaram das pestanas dele. Eu segurei nas mãos dele. Estávamos
sentados de frente um para o outro, envolvidos pela noite.
– No
início, achei a profecia muito interessante. Era demonstrativa das crenças
daquela civilização antiga e seria uma das peças arqueológicas mais importantes
que havia encontrado, pois o que tinha colecionado até então se resumia a
pedaços de cerâmica e algumas pontas de flecha. Arrastei a pedra para mais
longe, a luz arroxeada foi-se apagando. Pincelei o sítio onde tinha arrancado a
pedra, varrendo a poeira, para verificar se havia mais artefatos que poderiam
ser recolhidos. De repente a gruta começou a tremer estranhamente e as pedras
começaram a rolar. Eu pensei que estava a acontecer um terremoto e tentei
escapar, mas tropecei na pedra. Ao cair, a frase me entrou pelos olhos adentro.
E
ele repetiu com a voz embargada:
–
“Aquele que retirar a pedra da vida do lugar, ficará preso entre o mundo dos
vivos e o mundo dos mortos, até que encontre um amor verdadeiro que o libertará
para a vida eterna”.
Abanou
a cabeça, convocando uma memória que era mais dolorosa que todas as outras.
–
Não compreendi logo. As pedras começaram a rolar, a gruta se desintegrava.
Tentei me levantar, mas não consegui. Senti uma dor funda e apaguei. Quando
acordei estava escuro… A bateria da lanterna já tinha terminado, certamente,
pensei, e me senti preso a alguma coisa. Tentei me mover e percebi que tinha a
perna direita entalada, que me doía muito. Estava quebrada, debaixo de uma
grande pedra e comecei a gritar por socorro. Mas ninguém apareceu. E então
percebi também que a profecia inscrita na pedra se estava a cumprir. Eu tinha
retirado à pedra da vida do lugar e estava de alguma maneira, preso entre o
mundo dos vivos e o mundo dos mortos.
Eu o
olhava incrédula e boquiaberta.
–
Mas você disse… que tinha vindo para esta gruta… há muitos anos.
–
Sim. Não lhe sei dizer quantos anos, mas foram muitos…
Negou
com a cabeça, como que a sacudir a lembrança do tempo passado, e continuou a
narrar:
– Eu
estava à espera que alguém me encontrasse e finalmente apareceu você, Lana.
Entretanto, tenho vivido entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Eu não
morri, apesar de ter desejado que isso tivesse acontecido porque tenho sofrido
muito, com uma perna eternamente entalada debaixo de uma pedra, sangrando sem
parar… Mas essa era a maldição, compreende? A minha ambição me levou a deslocar
a pedra da vida que não podia, nunca, ser deslocada e por isso tive de pagar um
preço.
Eu
murmurei:
–
Mas eu consegui te salvar.
–
Sim, sim… Oh, querida… Sim! – Exclamou ele entre lágrimas. – Você me salvou.
Mas não o fez apenas quando me tirou da gruta e me levou para o posto médico.
Lana, você me salvou por me ter amado logo naquele primeiro momento, em que
entrou na gruta.
–
Douglas… e agora?
Ele
me beijou derramando lágrimas em minha face.
–
Agora… estou livre.
Eu
continuava sem entender muito bem aquela história toda. E voltei a insistir:
–
Mas, Douglas… e agora?
–
Graças a você, Lana… Eu posso seguir o meu caminho. Sabe? Há alguns dias, eu
estive no céu, entre as estrelas. E foi tudo graças a você. Lana, meu amor.
Ele
estava feliz, percebia isso, mas estava ao mesmo tempo triste e eu não sabia
como me devia sentir. Apesar de ter um pressentimento ruim que me deixava um
vazio por dentro. E gaguejei:
–
Mas para você seguir o seu caminho…
–
Nós vamos nos separar – confirmou-o. – Eu queria me despedir de você antes de
partir para a vida eterna.
–
Não! – Gritei, atingida subitamente com a verdade.
Ele
apertou as minhas mãos nas dele.
–
Lana, por favor. Compreenda… Eu não tenho a idade que você pensa que eu tenho.
Por causa da maldição, os anos não passaram por mim e esta aparência jovem que
tenho em breve se vai desintegrar.
–
Não… – murmurei começando a chorar.
–
Quero que saiba que eu a amo e que aprendi muito nesse pouco tempo que
estivemos juntos. Adorei ter escutado você a ler o livro da grande baleia
branca. Ainda me lembro de quando esse livro saiu…
–
Você se lembra? Mas esse livro é muito velho! – Admirei-me. – Tem muitos anos!
Douglas
sorriu com tristeza.
–
Pois… Eu também sou muito velho. Tenho muitos anos!
Eu
apertei os lábios, soluçando e chorando. Ele me envolveu em seus braços e me
deu um abraço forte, selando com o seu calor aquela nossa despedida. Depois se
afastou e olhou as estrelas, me fustigando com as perguntas:
–
Você entende por que eu disse que queria ter conhecido você antes, não entende?
Você entende por que eu não posso ficar aqui com você? Você entende o quanto eu
adoraria continuar aqui? Você entende o significado das estrelas e aquilo que
eu lhe pedi?
–
Sim – respondi, limpando o rosto com as mãos, fungando e soluçando cada vez
mais alto.
–
Não se esqueça Lana. Quando olhar para o céu à noite, se lembre de mim. Eu
estarei entre as estrelas.
–
Sim – tornei a responder num sussurro fraco
O
corpo dele piscou. Douglas passou uma mão no meu rosto, puxou o meu queixo e depositou
um beijo carinhoso nos meus lábios, levemente, com muita ternura. A umidade dos
lábios dele permaneceu nos meus durante breves segundos, mas que foram
suficientes para imprimir na minha memória uma marca eterna.
– Eu
te amo, Lana. Sempre te amarei.
Uma
luz invadiu o meu olhar, me cegou e me deixou pertubada. Caí de costas na grama
como se tivesse perdido o controlo do corpo que estava agora mole e tremulo.
Pestanejei, esfreguei os olhos até conseguir recuperar a visão. No céu, uma
estrela brilhou mais forte.
–
Douglas?
Levantei-me,
olhando em volta. Estava sozinha.
Gritei:
–
Douglas?!
Corri
até à gruta, corri à volta da gruta, corri entre as árvores. As lágrimas tinham
regressado e eu chorava sem parar, chamando por ele. Mas quando compreendi que
estava mesmo sozinha, caí de joelhos no chão e gritei o mais alto que pude:
–
Douglassssss!
Levantei
o rosto para o céu, em busca de conforto e voltei a ver a estrela que brilhava
mais forte entre todas as estrelas daquele céu especial das montanhas. E disse:
– Eu
também te amo.
***
Regressei
ao chalé muda e apática. Não cumprimentei os meus amigos e enfiei-me no
banheiro para uma ducha de água gelada. Fiquei a ouvir os cochichos deles na
sala. Estavam preocupados comigo, mas naquela noite não havia explicações para
ninguém.
Nem
naquela noite, nem nos dois dias seguintes que faltavam para o fim das férias.
O ambiente ficou pesado, mudo e apático como eu. Não saí mais de casa.
Abriguei-me na barraca, como dizia o meu pai, aninhei-me no sofá com o livro de
Herman Melville e terminei de ler “Moby Dick” entre lágrimas, pois fingia que
continuava a ler para ele que já não estava ali para me escutar.
Na
véspera da nossa partida, o Luís e o Gustavo tinham cozinhado para as meninas e
arrumavam a cozinha. Sara sentou-se ao meu lado, no sofá e começou a pentear-me
os cabelos com muito cuidado.
–
Você vai ficar bonita – disse-me.
Eu
lhe mostrei um sorriso triste.
Nunca
tínhamos comentado nada, mas todos os meus amigos sabiam que o meu estado se
devia à partida do Douglas. Para eles, o maldito me tinha enganado e tinha dado
o fora. Continuava sem querer dar explicações, pois sabia que eles não iriam
acreditar naquela história da gruta e da maldição. Poderiam julgar que eu
estava a proteger o Douglas, inventando uma mentira descabelada para melhor
suportar a realidade de ter sido rejeitada depois de me ter entregado daquela
maneira. Mas, por outro lado, seria melhor não dar explicações nenhumas e
aquilo ficar como um segredo especial entre mim e o misterioso rapaz dos olhos
verdes.
A
Bruna segurou na minha mão, enquanto a Sara trançava os meu cabelo.
–
Ei, continuamos amigas. Pode contar conosco para levantar o astral, Lana.
– Eu
sei. Obrigada por me terem aturado o mau-humor destes últimos dias.
–
Qualquer um ficaria assim… descanse – sossegou a Bruna.
–
Foram umas férias ótimas, amiga! – Exclamou o Luís sentando-se no encosto do
sofá atrás de mim.
– E
também inesquecíveis – acrescentou o Gustavo abaixando-se junto às minhas
pernas e pousando o queixo sobre os meus joelhos. – Por todos os motivos.
–
Vocês são os melhores amigos do mundo, sabiam? – Disse eu emocionada.
– E
você também é a melhor amiga do mundo – contrapôs a sensata Bruna. – Ter
concordado em nos trazer de férias para o seu chalé da montanha, dirigindo o seu
carro velho, aturado os amassos dos dois esfomeados aí… Aguentando as
implicâncias do Gustavo e a minha curiosidade. Fazendo faxina, cozinhando e
lendo um livro do tempo do meu avô! Que paciência, viu?
Desatamos
a rir e eu senti-me melhor.
***
A
longa viagem de regresso foi típica, com o Luís e a Sara enrolados no banco de
trás, com o Gustavo fazendo brincadeira com tudo e com a Bruna tentando acalmar
as coisas porque me deviam um respeito muito grande. No chalé, eu tinha dito
uma grande verdade: eles eram realmente os melhores amigos do mundo. Mesmo com
todos os defeitos, porque me aturavam também todos os defeitos.
Depois
de deixá-los na casa da Sara, parti para a minha casa. Anoitecia e as primeiras
estrelas despontavam no firmamento. Deixei as malas no chão do quarto e corri a
abrir a janela. Uma estrela brilhava mais forte que as outras.
No
meio das lágrimas que corriam, no meio de todas as lembranças de momentos
deliciosos que eu tinha partilhado com ele, no meio de um sabor agridoce no
fundo da garganta e de um coração demasiado cheio, mas ferido, eu disse para o
céu:
–
Com certeza, Douglas. Nunca me esquecerei de você...
E
mesmo chorando, mesmo que se passassem muitos anos, sabia que seria feliz
daquele jeito, olhando o céu à noite e amando uma estrela longínqua.
Fim
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