Estava muito escuro naquela parte da gruta, mas aos poucos a minha visão
foi se habituando e comecei a distinguir alguns contornos na penumbra. Havia um
vulto estendido que me puxava pelo pulso, isso já eu sabia. Depois vi que tinha
uma perna entalada debaixo de um pedregulho e que era do corte provocado pela
grande pedra que saía o sangue que molhava o chão.
Abaixei-me e foi então que ele me soltou o pulso. Puxei o pano que me
prendia os cabelos e apliquei um torniquete na coxa, acima do corte, para
estancar a ferida que sangrava. Sabia algumas coisas, pois cursava enfermagem a
um ano e meio; e pela primeira vez, o que aprendi iria ser finalmente útil.
Estava orgulhosa, mas continuava cheia de medo. Reparei que o vulto era um
rapaz, provavelmente da mesma idade que eu.
Logo em seguida, tentei mover o pedregulho. Encostei-lhe um ombro, mas
era muito pesado e não se deslocou um milímetro.
– Eu vou buscar ajuda – disse e nem esperei que ele respondesse.
Corri para fora da gruta o mais rápido que pude. No exterior já me
preparava para quase voar pelo caminho quando ouvi vozes me chamando.
– Estou aqui, pessoal! – Gritei alto, esganiçada. – Venham rápido.
Preciso de vocês!
Os meus amigos apareceram correndo.
– O que foi? – Perguntou Gustavo ofegante.
– Venham comigo. Por favor!
Entrei na gruta e ainda escutei o comentário da Sara:
– Mas… que lugar é este? Dá-me medo!
E também escutei a resposta do Luís:
– Medo? Parece um lugar de fantasia!
E ainda escutei a réplica da Sara:
– Por isso mesmo! Não existem lugares assim, de verdade.
Paramos junto ao vulto e o Luís perguntou admirado:
– Nossa, o que houve com ele?
– Eu não sei – respondi – Mas temos que tira-lo daqui e leva-lo a um
médico.
– Lana tem razão – concordou Bruna e começou a comandar as operações. –
Vamos, meninos! Têm de tirar essa pedra de cima da perna dele.
Gustavo e Luís moveram o pedregulho devagar, para não machucar o rapaz,
mas qualquer coisa haveria de magoá-lo e ele uivou com a dor lancinante.
– A perna dele parece quebrada – observou Bruna se abaixando e
observando o ferimento, mesmo com tão pouca luz. Ela também cursava enfermagem
como eu.
– Vamos ter que arrumar um jeito de imobilizar a perna – disse o Luís que
cursava psicologia, mas que entendia de primeiros socorros. – Para o podermos
tirar daqui.
– Temos mesmo de o tirar daqui, ou ele vai sangrar até…
Cortei o Gustavo gritando:
– Vou pegar uns ramos de árvore. Venham, amigas!
Fui eu e a Bruna que fizemos a tala improvisada na perna do rapaz, com
dois ramos atados com tiras que rasguei da minha blusa. Depois, o Luís e o
Gustavo carregaram ele para fora da gruta, Sara seguindo-nos roendo as unhas,
olhando para todos os lados parecendo assustada com o que via. Os rapazes
carregaram o ferido pela trilha abaixo até ao chalé, o colocaram no carro. Para
não me deixarem ir sozinha, notaram que eu estava muito nervosa, também
entraram no carro, tentando acomodar-se e não machucar ainda mais o rapaz que
gemia desacordado. Agora, com à luz da manhã, dava para perceber que ele estava
num estado grave, bastante sujo de sangue e terra, com um aspeto enfraquecido,
de quem não se alimentava há alguns dias.
Dirigi até ao vilarejo e estacionei o carro diante do posto médico, que
prestava os cuidados de saúde à população do local. O hospital mais próximo
ficava a mais de trinta quilômetros e era muito arriscado percorrer essa
distância com um rapaz ferido atravessado sobre o colo dos meus amigos que
ocupavam o banco de trás. Naquele posto médico conseguiriam tratar de uma perna
quebrada. Se o caso fosse grave, poderiam chamar pelo helicóptero de emergência
para transferir o paciente para o hospital.
Fomos recebidos por dois enfermeiros com uma maca. O Gustavo e o Luís
pousaram o ferido na maca e ele foi levado às pressas, entrando direto na sala
de cirurgia.
As horas passaram.
– Lana, estamos voltando ao chalé. Você vem? – Perguntou a Sara me
olhando.
Os meus amigos tinham estado ali comigo. Olhei para o relógio da sala
das visitas, onde estávamos os cinco. Eram cinco e dez da tarde. Nem tinha
percebido que já se tinha passado a manhã toda e a hora do almoço e a maior
parte da tarde e que continuávamos todos a precisar de um banho depois da nossa
tarefa de faxina daquele primeiro dia de férias.
– Eu queria saber como ele está – disse eu num murmúrio preocupado.
– Hum… Paixão ao primeiro salvamento – brincou Gustavo.
Recebeu uma cotovelada da Bruna.
– Não é hora de brincar! – E depois acrescentou incisiva: – E creio que
lhe está devendo um pedido de desculpas, Gustavo.
– Ah…
O meu amigo Gustavo enfiou as mãos nos bolsos e disse sincero:
– Foi mal. Desculpe-me. Não só por aquilo que disse agora… Mas por tudo.
Fiz um gesto com a mão, tentando sorrir.
– Ora, Gustavo. Tudo bem…
– Nos vemos mais tarde – disse a Sara se entrelaçando no braço do Luís.
– Vão a pé?
– Se não conseguirmos uma carona, entretanto… – disse o Gustavo,
piscando o olho.
A distância do vilarejo até ao chalé ainda era grande, mas conseguia-se
fazer o caminho a pé, a passo normal e não demoraria mais do que trinta a
quarenta minutos. Os meus amigos saíram da sala de visitas.
– Até mais, então – respondi, acenando a eles.
Passaram-se mais algumas horas, a noite caia novamente. O relógio
marcava as oito horas e vinte e dois quando o médico apareceu e me viu à
espera. Aproximou-se e eu levantei-me da cadeira de plástico onde tinha estado
sentada aquele tempo todo.
– Você é a garota que trouxe o rapaz com a perna quebrada, certo?
– Sim, doutor. Eu e os meus amigos. Como ele está?
– Ele teve que passar por uma cirurgia na perna e teve que receber uma
grande transfusão de sangue, pois tinha perdido bastante. Mas recuperou bem da
anestesia, acordou muito bem disposto e parece-me que vai ficar bem. É um rapaz
muito forte. Onde foi que o encontraram?
– Eh… Numa gruta.
– Sabia o que fazia ele nessa gruta e como foi que ocorreu o acidente?
– Não, doutor. – Corei ao acrescentar: – Eu… eu nem sequer o conheço.
O médico arqueou as sobrancelhas.
– Sério? Bem, garota. O rapaz quer vê-la. Mesmo sem o conhecer, aceita
acompanhar-me?
– Bem… Sim.
Não percebia por que razão continuava nervosa e imbecilmente corada.
Acompanhei o médico pelo corredor e ele deixou-me junto a uma porta
entreaberta, indicando que poderia ficar no máximo dez minutos. As horas
normais das visitas já tinham terminado. Entrei timidamente, dizendo:
– Oi…
Um par de olhos verdes e muito serenos me olhavam.
– Oi – respondeu ele sorrindo. – Então, você é a minha heroína?
– Ah, não… Eu só estava passando por ali e… Não o podia deixar naquela
gruta, pois não?
Os seus cabelos eram negros como a noite, um rosto moreno arredondado
onde se destacavam uns expressivos olhos cor de esmeralda e uma boca bem
desenhada. Por debaixo da bata azul que lhe tinham vestido notavam-se os
músculos bem torneados. Era um homem lindo e eu não conseguia acalmar o
coração. Mesmo com aquele volume engessado pendurado a pouca distância do
colchão que destoava daquele corpo jovem e aparentemente saudável.
– Podia ter fugido… – disse-me ele. – Eu teria fugido, se tivesse
escutado alguém gritando por ajuda, como se fosse uma alma penada.
Fez-me rir e cobri a boca com os dedos.
– Mas não fugiu. Obrigado. Você… salvou-me.
– Ora, de nada.
Ele me encarava sério e eu desviei o olhar.
– Como se chama?
– Lana. E você?
– Me chamo Douglas. – Tentou se mexer, mas franziu-se todo com a dor que
sentiu. Acrescentou: – Mora aqui?
– Não, estou passando as férias.
– Hum… Se está de férias… Estuda?
– Sim, faço faculdade de enfermagem.
– Por isso, soube o que fazer quando me encontrou na gruta e não fugiu.
Linda profissão.
– Obrigada, Douglas. Você é muito gentil. E você, mora aqui? O que foi
que aconteceu?
A gentileza dele se diluiu e de repente ficou sério.
– Olha, está ficando tarde – disse ele. – Os teus amigos não estão
esperando?
– A-amigos? – Gaguejei subitamente perdida com a mudança de humor dele.
– Aqueles que também me salvaram.
– Ah… sim. Eles já foram para casa. Só fiquei eu…
– Eles devem estar preocupados.
– Sim, acho que sim.
O sorriso dele foi largo, mas não lhe chegou ao olhar que permanecia de
um verde opaco e disse:
– Obrigado, mais uma vez. Quer voltar para conversarmos?
Acenei que sim, sorrindo com ele, a alegria espalhando-se pela minha
cara toda.
– Claro. Voltarei com certeza.
Saí do quarto e, já no corredor, pulei feito uma louca.
***
Quando regressei ao chalé, o cansaço daquele dia tinha-se abatido sobre
mim como uma avalanche e só me apetecia estender-me na cama. Não quis comer,
acho que a preguiça me tinha atacado os maxilares, impedindo-os de se
movimentarem como lhes era exigido, apesar de o meu estômago protestar que
necessitava algo para digerir.
Sara brincava com o Luís no sofá, eles realmente gostavam de se amassar
em qualquer canto. Cumprimentei-os de fugida e fui até à cozinha. Abri a
geladeira, enchi um copo de suco de laranja gelado e bebi-o depressa. Mastiguei
e engoli um bolinho e enfiei-me no meu quarto, fechando a porta. Escutei
gemidos vindos do quarto ao lado, eram a Bruna e o Gustavo fazendo as coisas
que os casais costumam fazer quando se gostam. Tomei um banho quente e quando
me deitei, não me importei mais com os barulhos apaixonados dos meus amigos.
Adormeci imediatamente.
***
Os dias foram se sucedendo. A minha rotina era simples. Passava as
manhãs com os meus amigos, em jogos, em passeios pelas trilhas do bosque ou em
banhos divertidos na cachoeira. Preparava o almoço para todos, gostava de
cozinhar, pois me ajudava a distrair. No início da tarde descia até ao
vilarejo, a pé, para aproveitar a hora da visita no posto médico para ir ver
Douglas.
As nossas conversas eram agradáveis. Falávamos sobre assuntos
superficiais. Eu contava pequenas histórias que o faziam rir, ele evitava fazer
perguntas para que eu também não as fizesse. Eu aplacava a minha curiosidade e
aceitava-o como ele era, tímido, reservado, misterioso mas de algum modo
acessível. Relatava-lhe as minhas manhãs com os meus amigos, os amassos da Sara
e do Luís, as piadas do Gustavo e a solidariedade da Bruna, ele observava que
eu estava a desperdiçar as minhas férias a visitar um enfermo e eu refutava
energicamente, afirmando que ninguém me obrigava a estar ali, que eu vinha
porque queria e começávamos a entrar no plano pessoal, que ele parecia evitar e
eu cortava rente a conversa, punha um sorriso e contava-lhe um mexerico
qualquer da novela. Ele ria-se e ficava tudo bem.
No terceiro dia de visita, levei um livro comigo.
– Eu gostaria de ler para você – comecei eu. – Você se importa?
– Ah, não… Claro que não – respondeu ele de olhos brilhantes. – Há muito
tempo que não leio um livro.
Eu remexi o livro grosso entre as mãos e expliquei acanhada:
– Encontrei esse no chalé, onde estou passando férias. Olha, peguei ele
sem pensar, viu?
– “Moby Dick”?
– É…
– Um livro sobre o mar… nas montanhas? – Douglas sorriu e eu corei.
– Era do meu pai – apressei-me a acrescentar. – O sonho dele era ser
marinheiro. Acho que ele leu este livro uma dúzia de vezes. Trouxe-o para o
chalé para se lembrar do cheiro das ondas no meio dos pinheiros, disse-me uma
vez, quando eu era garotinha.
– Já leu?
Neguei com a cabeça. Ele assentiu com a cabeça e pediu:
– Pode começar…
Aclarei a garganta, abri a capa com uma mão a tremer e comecei:
– “Capítulo um. Miragens. Tratem-me por Ismael. Há alguns anos –, não
interessa quantos exatamente – achando-me com pouco ou nenhum dinheiro no bolso
e sem qualquer interesse especial que me prendesse à terra firme, senti vontade
de embarcar e de ver a parte aquática do mundo”.
***
Numa dessas tardes de visita, quando cheguei ao posto médico,
informaram-me que o Douglas tinha tido alta nesse dia e eu entristeci. Fiz o
caminho de volta a pé até ao chalé arrastando os pés, carregando como um
castigo o livro de Herman Melville e levei o dobro do tempo, que aproveitei
para tentar organizar os meus pensamentos. Para onde Douglas teria ido, depois
de lhe darem alta? Ele moraria no vilarejo? Ou também estaria de férias? E já
teria a perna totalmente sarada? Foi então que descobri que apesar de ter
passado aqueles dias com ele, eu verdadeiramente não sabia nada sobre o
Douglas.
Mas isso era apenas um detalhe. Não me importava de continuar na
ignorância, o que eu desejava era poder estar novamente com ele. Eu queria
vê-lo, mesmo que fosse só de longe, um vislumbre fugaz. Vê-lo, uma última vez.
Talvez ler-lhe mais um pouco de “Moby Dick” que ainda nem estava a meio. Senti
uma dor funda no coração ao imaginar que poderia nunca mais ver o Douglas.
Talvez o Gustavo tivesse razão quando me dizia, naqueles dias em que eu
contava os minutos até à hora da visita, que eu estava apaixonada. Não sabia se
era assim, pois nunca tinha me interessado por ninguém. Mas o certo era que eu
necessitava absolutamente da companhia do Douglas.
O chalé estava vazio. Fui até à cachoeira, onde encontrei os meus
amigos. O tempo estava quente e convidava a um banho frio, mas eu não entrei na
água. Sentei-me numa pedra e abri o livro preferido do meu pai. Tentei ler para
me distrair.
– “Deixo atrás de mim uma esteira túrbida e branca – murmurei. – Águas
pálidas e faces mais pálidas ainda por onde quer que eu passe. As vagas,
invejosas, entumecem para apagar os vestígios da minha passagem. Que importa,
se eu já passei?”.
Sara nadava com o Luís, o Gustavo apercebeu-se da minha chegada e
acenou-me com um braço. A Bruna gritou para que eu me juntasse a eles, mas eu
disse que não me apetecia e mostrei o livro. Voltei a enfiar-me nas suas
páginas.
– “Lá no fundo, nos rebordos desta taça sempre transbordante, as vagas
tépidas tomam a cor do vinho. O prumo dourado sonda o mar azul.”
Senti um toque no ombro e olhei para cima. Ele estava apoiado nas
muletas, a perna direita enfaixada, com um sorriso maroto, os olhos verdes
brilhantes, os cabelos negros revoltos.
– Encontrei você.
– Douglas! – Exclamei sem conseguir conter a alegria.
– Aqui é muito gostoso, não é mesmo? – Juntou as muletas e sentou-se ao
meu lado, com alguma dificuldade.
Fechei o livro e pousei-o no colo.
– É um sítio muito bonito, sim – concordei.
– Porque é que não está com os seus amigos? Eles estão se divertindo.
Encolhi os ombros.
– Não me apetecia tomar banho de cachoeira… Estava… hum, a ler.
– “Moby Dick”.
– É um livro muito grande.
– Concordo – disse ele lacônico.
Eu baixei a cabeça.
– Não está feliz? – Perguntou-me.
Na verdade, eu não me sentia feliz. As férias estavam a terminar, estava
demasiado envolvida com um rapaz de quem eu não sabia mais nada a não ser o
nome e que tinha uma perna quebrada e que nunca iria acabar de lhe ler um livro
chamado “Moby Dick”.
– Onde está seu namorado? – Perguntou-me de seguida.
Uma pergunta pessoal e fiquei boquiaberta. Neguei devagar.
– Não… Eu não tenho namorado. E… você?
Ele se aproximou
– Uma menina corajosa, determinada, heroína e linda como você… E está
sozinha.
Ele se aproximou mais um pouco e acrescentou:
– Isso não me parece justo. E eu também não tenho namorada.
– Eh… Isso também não é justo – observei atrapalhada.
As nossas respirações estavam próximas, ele olhando nos meus olhos e
abrindo os lábios em um convite que não resisti. Entreguei-me ao beijo terno,
caloroso. Ele envolveu as mãos na minha cintura e me puxou para mais perto.
Um grito explodiu com o clima.
– Dá-lhe, Lana!
Era o Gustavo, que socava a água, entusiasmado com o que via.
– Até que enfim, desencalhou!
Afastei-me daquele abraço, assustada e corada. O livro tinha resvalado
do meu colo.
A Bruna protestou:
– Gustavo, deixa a nossa amiga!
Olhei para o lado e Douglas não estava mais ali. Estranhei porque ele
tinha uma perna quebrada e não conseguia se movimentar com tanta agilidade e
rapidez. Levantei-me da pedra, olhando em volta, o coração disparou de
ansiedade por não o estar a ver em lado nenhum.
– Gustavo! Viu onde o Douglas foi?
– Não. Você quem devia saber. Não estava no maior love com
ele agora mesmo? – Riu alto e saiu da água todo molhado se aproximando.
Sentou-se ao meu lado, onde Douglas tinha estado, balançando os cabelos
castanhos e lisos.
– Ei, você está me molhando.
Ele me pegou no colo dizendo:
– Pois você precisa de um banho, mesmo! Vamos dar um mergulho na nossa
amiga, Bruna?
Eu segurei-me ao pescoço dele.
– Para, Gustavo!
– Esteja à vontade, Gustavo – gritou a Bruna.
Ele se atirou à água levando-me com ele. Afundei no lago da cachoeira,
quando emergi tentei respirar e depois persegui o Gustavo, esmurrando e
xingando. Ele ria alto, tentando escapar de mim, correndo pela água rasa da
beira do lago e eu ria com ele, com todos os meus amigos. Acabou por ser uma
tarde muito divertida.
Quando voltamos ao chalé, escurecia. Sem paciência para cozinhar,
encomendamos pizza, que acompanhamos com um bom vinho. A ceia
prolongou-se por altas horas noturnas, até que resolvemos nos render ao cansaço
daquele dia longo. Sara foi para o quarto com o Luís. No sofá, a Bruna
dormitava no colo do Gustavo que acariciava os cabelos dela.
– Eu vou à varanda.
Levantei-me meio tonta e abri as portadas.
– Verás a lua? – Perguntou o Gustavo com um meio sorriso. – E pensar no
beijo desta tarde?
Saí, deixando-o sem resposta. Fechei a portada atrás de mim. Sentei-me
num dos bancos pintados que ainda cheirava a tinta fresca. Mas apesar de ter
sido limpo, o jardim mantinha um ar decrépito, despido de vida. Olhei o céu
salpicado de luzes brilhantes.
– Mesmo com as finanças da família em baixo – murmurei. – Vou contratar
alguém para reformar este jardim. Quando eu voltar aqui, quero que esteja
lindo.
– Vai ficar lindo.
Senti um arrepio ao reconhecer a voz. Ele vinha apoiado nas suas
muletas.
– Douglas… – suspirei.
O meu coração batia descompassado, a minha face rosada, tive um ataque
de timidez, mas ainda consegui convidar:
– Gostaria de entrar e conhecer o meu chalé?
– Obrigado pelo amável convite, Lana – respondeu ele. – Mas prefiro
ficar aqui neste jardim, por agora. Se você não se importar.
– Não, claro que não.
Ele se sentou ao meu lado, no mesmo banco de jardim que ainda cheirava a
tinta fresca.
– Onde é que você foi esta tarde?
Mas ele não me respondeu e perguntou, mudando o assunto:
– Que dia vai voltar para casa? – Entrelaçou as mãos dele nas minhas e
eu perdi o controle do meu corpo.
– No fim da próxima semana – respondi.
Deslizou as mãos nos meus braços. Inclinou-se e passou o nariz no meu
pescoço.
– Ainda bem…
Ele colocou a mão no meu rosto e me puxou para um beijo. Seus braços me
envolveram, deslizando as mãos quentes pelas minhas costas. O clima ia
esquentado, afastei-me buscando ar.
Ele sorriu de uma forma tão perfeita para mim, que eu desejei nunca mais
sair de perto dele. Não sabia nada sobre ele, ele era misterioso e de certo
modo, fechado. Mas era carinhoso e sensível e eu estava disposta a entrar de
cabeça naquela aventura e ir fazendo as descobertas necessárias à medida que ia
percorrendo o caminho.
– Gosta das estrelas? – Perguntou ainda abraçado a mim.
– Sim, muito – respondi, encaixando-me na curva do ombro dele.
– Quando chegar na sua cidade, vai olhar para elas e se lembrar de mim?
Olhei-o, estranhando a dúvida.
– Claro que sim. Mas por que me perguntou isso?
– Por que eu estarei lembrando-se de você Lana.
Ele me beijou novamente e eu me perdi tanto naquele beijo que viajei
para outro lugar. Deitei-me sobre o banco, sem nunca deixar de o beijar, ele se
debruçando sobre mim, aquecendo-me com as suas mãos quentes. De repente, ele já
não tinha a perna quebrada e eu já não estava no banco do jardim decrépito do
chalé. Estávamos numa nuvem azul, embalados pela brisa, ele me beijando, me
despindo e eu me entregando incondicionalmente. E acabamos fazendo o que eu
nunca imaginei que faria com um rapaz tão rapidamente, tão perfeitamente.
Depois ele me envolveu em seus braços me protegendo do frio. Regressamos ao
jardim, ao chalé, à noite, à perna quebrada dele e à minha falta de jeito.
– Lana.
– Hum… – Eu estava sonolenta.
– Queria ter te conhecido antes.
– Por que diz isso? – Perguntei e o olhei.
– Porque… – Fez uma pausa, entristeceu e respondeu, por fim: – Porque eu
a amo.
E me beijou, mais uma vez, levando-me para o mundo dos sonhos.
Acordei com o vento frio arrefecendo a minha pele. Ele não estava mais
lá ao meu lado.
Mesmo sem ele, eu me senti feliz, pois tinha a certeza que ele voltaria.
E isso aconteceu no dia seguinte e nos outros dias que se seguiram. Encontrávamos-nos
em lugares discretos e longe dos meus amigos, nos amávamos loucamente e nesses
minutos acontecia a mesma magia: a perna quebrada sarava e ele deitava-me sobre
uma nuvem azul, nos envolvendo com um calor especial nascido da ternura e do
desejo.
Mas quando faltavam três dias para o fim das férias, o Douglas deixou de
aparecer e eu entristeci. Não sabia como fazer para encontrá-lo, era sempre ele
que vinha ao chalé, à cachoeira, ao vilarejo, onde quer que eu estivesse.
“Onde está você, Douglas”, perguntava-me olhando para o céu, de sorriso
triste, a brisa brincando com os meus cabelos. Na lembrança tinha o sabor dos
beijos dele, a luz dos olhos verdes dele, o aroma almiscarado da pele dele,
recordações que faziam o meu coração bater depressa.
De repente, descobri: poderia me encontrar com ele. Bastava regressar ao
lugar encantado onde o tinha visto, pela primeira vez.
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