Eu olhava para aquele carro capotado no meio da estrada, duas vidas
perdidas ali no meio do nada, apenas eu, o carro e as pessoas mortas dentro
dele. Não havia nada no meio da estrada, já estava tarde da noite, não havia
ninguém para me ajudar.
Eu olhava todos os lados sentindo o sangue escorrer por um corte na
minha cabeça e não via uma alma viva ali.
Aproximei-me do carro e toquei o corpo inerte de cada um deles. As
lagrimas escorriam sobre meu rosto e a culpa invadia todo o meu ser.
Tudo que eu queria era que aquilo não tivesse acontecido. Tudo que eu
queria era ver o sorriso dela de novo, a alegria da minha filha sorrindo para
mim me chamando de papai, mas nada disso eu teria de volta, tudo por culpa
minha só minha.
Eu ainda olhava aquele carro capotado ali no meio da estrada vazia, sem
uma alma viva.
Tudo que eu via em minha volta era, árvores, mato e como se estivesse
procurando algo eu continuei olhando quando vi uma ponte um pouco mais a
frente, caminhei até ela e olhei para baixo, vi um rio com corredeiras fortes e
violentas.
Parei a beira e olhando para baixo, eu abri meus braços respirei fundo,
olhei mais uma para as águas violentas daquele rio.
“O que a minha vida vale agora, sem minha família? O que a minha vida
vale se eu as matei? O que minha vida vale agora, se nada pode mudar o meu
destino é minha culpa?” Eu pensava olhando para baixo tomando coragem para me
lançar para junto delas, minhas duas amadas e preciosas joias raras.
Eu abri meus braços e estava pronto para pular quando ouço uma voz suave
atrás de mim;
– Vai mesmo se jogar daí? – Era uma voz doce, meiga, parecia de um anjo.
– Acha mesmo que sua vida não vale mais nada? – Novamente aquela voz me
perguntou como se lesse meus pensamentos. – Acha mesmo que morrendo vai
encontra-las?
Eu olhei para o lado e vi um rapaz de dezesseis anos olhando para mim,
seus olhos eram cor de mel, seus cabelos eram castanhos claros, ele era magro,
vestia uma camisa amarelo pastel, uma bermuda preta e calçava um tênis.
– Você não entende nada da vida. ainda é uma criança e também não sabe
nada sobre mim. – Eu respondi o olhando com reprovação, raiva e me virei
novamente para ponte.
– Morrer não vai trazer ninguém de volta. – Ele fala e se aproxima mim,
toca o meu ombro. – Venha, eu já liguei para o IML, logo eles levaram o corpo
delas. – Ele falou com um sorriso meigo.
Uma criança me dando lição de vida.
Eu fui até ele e o acompanhei até o meu carro novamente.
– Como sabia? – Perguntei derramando lagrimas olhando para o meu carro.
– Eu moro em uma vila não muito longe daqui, eu senti que algo ruim
tinha acontecido e vim ver o que é.
– Sentiu! – Exclamei surpreso o olhando novamente.
– É, vamos dizer que eu tenho um dom.- Aquele garoto abaixou a cabeça e
fez uma oração a minha família. – A culpa não foi sua. – Ele falou após
terminar a pequena oração. – Era pra ser assim.
– Obrigada pelas palavras garoto, mas eu tive culpa sim, eu não devia
estar discutido com elas, nem percebi quando perdi a direção e o carro capotou.
– Eu ainda sentia o sangue escorrer na minha cabeça, minhas pernas bambas, e
minha dor estava estampada em meu rosto.
– Não fique assim, tudo acaba bem. – O garoto sorriu um sorriso tão
meigo e viu a ambulância do IML chegar.
Eu o deixei ali e caminhei até lá, explicando o que tinha acontecido e
depois de receber primeiros socorros, eu fui levado a um hospital e minha
esposa e filha foram levadas para o preparo do enterro. Naquele dia eu não vi
mais o garoto e parti dentro a ambulância.
Alguns dias se passaram e eu fui enterrar meus entes queridos. No
enterro poucas pessoas apareceram apenas alguns parentes da minha esposa e
alguns meus. Foi muito triste ter que despedir-me delas, foi doloroso ver
aqueles caixões descendo para o além juntos.
Agora eu estava sozinho, perdido e desamparado, era como se o mundo não
girasse mais, era como as flores não tivesse mais perfume, e como se tudo que
eu sonhei e planejei tivesse sido enterrado ali junto com minha filha e minha
esposa amada.
Lagrimas saiam de meu rosto diante daquele túmulo e tudo que eu fiz foi
me lembrar daquele menino que eu nem sabia o nome dele, nem onde ele morava,
mas como eu tinha uns dias antes de voltar a trabalhar eu voltei a minha casa
vazia e com tudo no lugar, como elas haviam deixado. Eu olhei mais uma vez, as
lagrimas teimavam em cair sobre meu rosto e caminhei até o meu quarto, arrumei
algumas roupas em uma mala e parti para a rodoviária em busca de um ônibus que
passava naquela estrada deserta com a ponte.
Demoraram algumas horas. Eu pedi ao motorista para descer ali perto da ponte daquela rodovia, olhei em todos os lados e não vi nenhuma aldeia, nada, ninguém.
Eu sentei-me ao chão e fiquei olhando o céu límpido e azul, algumas
nuvens brancas e leves vagavam no céu. O sol estava tímido escondido em uma
delas, aquilo me fazia lembrar tanto Linda e Laura. Eu dei um leve sorriso
quando ouvi aquela mesma voz.
– Querendo se matar de novo?
– Não, na verdade eu queria te encontrar de novo. – Eu sorri meio tímido
ao garoto e ele me olhou estranhando.
– Como se chama?
– Lian. E o senhor ex-suicida tem nome? –Ele perguntou em um tom
brincalhão.
Eu sorri alegre a ele e falei:
– Sim, eu sou Owen.
– Sua família se incomodaria de eu ficar uns dias com vocês? – Eu
perguntei me levantando com a minha mochila nas costas.
– Eu não tenho família, eles morreram de uma doença rara.
– Eu lamento.
– Também lamento pela sua. – Ele começou a caminhar e eu comecei a
segui-lo.
Nós caminhamos muito tempo juntos e logo eu vi uma pequena barraca
montada em no meio de algumas árvores, uma fogueira apagada montada do lado de
fora, algumas roupas dependuradas em arames improvisados entre algumas árvores
e um pequeno riacho não muito distante. Eu olhei curioso e perguntei;
– Por que mora aqui sozinho? – Eu olhava tudo em volta.
– Tomaram tudo que eu tinha. Não me quiseram, me jogaram em um orfanato
e me deixaram lá a deus dará. – Ele abaixou a cabeça e deixou algumas lagrimas
caírem. – Eu já tenho dezesseis anos, ninguém me adotaria nesta idade e eu não
tenho nada, nem ninguém, mesmo assim eu sempre tive esperanças, sempre acreditei
e quando ouvi o barulho do carro eu corri lá e vi que o senhor ia se jogar. Um
senhor tão novo e que também tem muito pela frente. – Ele ainda chorava, eu
intrometi na sua vida, mas foi para ajudá-lo.
– Eu entendo Lian... Que tal juntar nossa solidão e sermos grandes
amigos? Eu acho que no fundo um jovem rapaz me deu um pouco de esperança em um
coração velho e perdido na escuridão. – Eu me levantei e olhei arredor, não
tinha nada a não serem árvores e plantas rasteiras. – Grande vila! – Eu exclamei
em um tom de brincadeira e ele sorriu carinhosamente a mim.
– O senhor quer mesmo ser meu amigo? – Ele perguntou estranhando o fato,
pois eu tenho trinta e dois anos, sou bem mais velho que ele.
– Quero, mas não vou garantir que gostarei de tudo que você gostar. – Eu
ainda olhava aquele ambiente natural e deserto.
Ele sorriu animado e balançou a cabeça em um gesto de sim.
– Não podemos ficar aqui. – Ele olhou o lugar. – Tem um hotel perto?
– Aqui não há nada, a não serem árvores, animais e plantas.
– Como sobrevive? – Eu perguntei curioso.
– Caça, pesca e alguns frutos.
– Tem quanto tempo que está aqui?
– Dois meses. – Ele falou cabisbaixo.
– Bom vamos ficar aqui essa noite então e amanhã agente pega um ônibus e
vamos pra minha casa. – Eu me animava um pouco, eu ia ajudar um rapaz que agora
e podia chamar de amigo e que me ajudou a ter um pouco de luz no meu coração.
Nós divertimos muito pescando, assando o peixe na fogueira e contando.
Aquele rapaz me fez esquecer um momento de dor com a alegria dele, com a força
de vontade dele.
Logo depois fomos dormir. Eu dormi do lado de fora da barraca, já que
era muito pequena para dois.
Na manhã seguinte o amanhecer bateu claro nos meus olhos e eu abri lentamente vendo um sol apontar vagarosamente. Eu vi o nascer do sol e vi que uma nova vida ia começar.
Levantei-me, preparei algumas frutas de café da manhã e logo aquele
rapaz estava me olhando com carinho.
– Bom dia Lian.
– Bom dia senhor Owen, parece animado! - Ele sorriu e se sentou.
– Estou tentando assim como você. – Eu sorri desarmando a barraca
enquanto ele comia.
Lian comeu animadamente enquanto me via arrumar nossa bagagem, depois de
alguns minutos eu me virei para ele e disse:
– Pronto para uma viagem?
– Estou sim senhor Owen. – Ele sorriu e deu um pulo no alto como se
fosse uma criança comemorando algo muito bom.
Caminhamos até a estrada e da estrada pegamos o ônibus que nos levaria a minha cidade. Durante toda a viajem nós fomos conversando, brincando, como fossemos mais que amigos, como pai e filho, nunca havia me divertido tanto. Eu nem vi que estávamos chegando a minha cidade. Logo Lian e eu descemos do ônibus, pegamos um taxi e logo chegamos a minha casa.
Lian viu a tristeza em meu rosto ao entrar na casa, pois ela me trazia
muitas recordações.
Eu senti sua mão em meu ombro e o olhei.
– Não é grande coisa, mas é minha casa e de agora em diante é sua
também. – Eu o vi entrar logo em seguida.
Mostrei a casa pra ele, tinha algumas fotos das minhas lindas mulheres
espalhadas pela estante, no armário da cozinha e por fim eu mostrei o quarto
pra ele.
– Desculpe, o seu quarto estar meio rosa e ter algumas bonecas, mas eu
ainda não mexi nele, era da minha filha. – Eu fiquei triste novamente.
– Sinceramente eu não me importo e a sua casa é muito melhor que aquela
barraca que eu morava. – Ele brincou para me fazer sorrir.
– Fique a vontade agora a casa é sua também e em breve eu mudo o quarto
do seu gosto. Esse está meio feminino. – Ele sorriu olhando eu sai dali o
deixando a vontade.
Os dias se passaram rapidamente e aos poucos eu fui trocando a decoração do quarto de Lian. Aos poucos eu me sentia como um pai daquele menino que um dia me salvara, aos poucos ele foi fazendo parte da minha vida, aos poucos eu busquei uma tutela pra cuidar dele e dar uma profissão e um trabalho, mas antes eu tinha que apresentá-lo a umas pessoas.
– Lian, hoje vamos sair. – Eu falei animado parando na porta do quarto
dele.
– Está bem, e aonde vamos? – Ele perguntou já vestindo uma roupa.
– Um lugar... Muito valioso pra mim.
– Então será uma surpresa.
– É... – Eu o deixei arrumar e quando ele terminou saímos.
Depois de meia hora, chegamos a um grande portão preto e eu olhei ao longe vários e vários túmulos e entre eles uma calçada que dividia como ruas levando a vários túmulos, tanto com grandes estatuas, como os mais simples que tinha.
Caminhamos pela calçada, o vento soprava em nossos cabelos, algumas
folhas caiam das arvores que tinha dentro do cemitério. Algumas pétalas de
flores também eram levadas pelo vento que soprava muito aquele dia.
Finalmente chegamos ao túmulo onde estava enterrada minha esposa e minha
menininha.
– Querida... – Eu depositei um vaso de rosa sobre o túmulo. – Quero lhe
apresentar o nosso mais novo filho. – Eu olhei Lian com algumas lagrimas nos
olhos e voltei o olhar à cripta. – Ele me deu uma segunda chance de viver
naquele dia... – Eu estava muito emocionado e Lian também chorava ao meu lado.
– Acho que você o colocou no meu caminho naquele dia... Eu achei que tinha
perdido tudo, mas descobri que ganhei algo muito melhor, um amigo e um filho...
– Eu derramava lagrimas e mais lagrimas. – Linda, Laura esse é o Lian seu mais
novo filho e irmão de Laura a minha princesinha. – Eu derramava mais algumas
lagrimas em frente o túmulo.
Lian estava em silêncio e emocionado também, quando eu entreguei a ele o
papel que me dava à guarda dele.
Lian leu e ficou tão emocionado que me abraçou em lagrimas e disse:
– Eu acho que elas sabiam o melhor para nós, pai... – Ele me abraçava
com tanto carinho e amor que eu não me senti mais só, que agora eu tinha mais
que um amigo, mais que um herói, eu tinha um filho, um filho de coração e que
eu cuidaria ainda mais dele.
Foi assim que eu descobri o verdadeiro amor incondicional, o amor que
Deus nos ensinou, foi assim que eu consegui seguir em frente, mesmo sem se
esquecer das minhas joias raras, minha esposa e minha filha e foi assim que
continuamos com nossas vidas até que um de nós vá para os braços do senhor,
onde minhas duas princesas estão me olhando agora.
Fim
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