As aulas da faculdade tinham terminado há alguns dias e estava a
preparar-me para ir para a estrada com alguns amigos. Apesar de não estar muito
animada com esta viagem, aceitei por dois motivos que me parecerem suficientemente
válidos na altura da decisão: era a única que tinha carro próprio e sabia
conduzir (mesmo que fosse um carro velho que eu teria de ir buscar na oficina,
onde o tinha deixado para uma revisão completa, por causa da longa viagem que
se avizinhava) e porque o chalé da família precisava ser arejado de vez em
quando; o meu pai já tinha ameaçado vender a barraca (era assim que chamava ao
chalé quando estava irritado) pois, segundo ele, ninguém queria saber do chalé
das montanhas para nada.
Suspirei fundo e olhei para as malas prontas em cima da cama. Aquelas
férias iriam ser partilhadas com a Sara, o Luís, a Bruna e o Gustavo.
Suspirei mais uma vez. Era a única solteira no meio de dois casais
perfeitos e sabia que me estava reservado o castiçal inteiro, não apenas uma
velinha, naquela viagem, mas eles insistiram tanto que não pude dizer que não e
havia os tais dois motivos válidos: o meu carro e impedir a venda da barraca.
Depois do almoço, dirigia-me à oficina quando recebi um telefonema.
Cliquei na tecla verde do celular.
– Lana! – A voz da Sara soou animada. – Tudo bom? Olha, esqueci a hora
que você vai passar aqui em casa... – ela não conseguia conter o entusiasmo.
– Ah… Bem, tínhamos combinado entre as quatro e as cinco horas.
– Perfeito! Vou estar pronta… Nós vamos divertir muito. Vão ser umas
férias inesquecíveis! – Eu conseguia perceber o estado sorridente dela através
do celular. – Estarei te esperando, mais os nossos amigos. Até mais – ela
desligou, sem ao menos esperar que eu respondesse.
Ótimo! Pelo menos havia alguém entusiasmado com aquelas férias. Eu iria
para salvar a barraca e para servir de motorista, elas iriam para se
divertirem. Podia-me divertir com elas se o Luís e o Gustavo não estivessem,
seria umas férias de meninas, a fazer coisas de meninas
Depois de regressar da oficina com o carro todo afinado, entrei em casa
a ansiar por um ducha. Gostava de me entregar ao chuveiro quente antes de uma
longa viagem. Não apenas pelas horas que me esperavam atrás de um volante, mas
para conseguir suportar a bagunça do caminho: a Sara aos amassos com o Luís, o
Gustavo rindo e tirando com a cara deles, a Bruna no lugar do carona me
perguntando quando eu ia arrumar um namorado.
***
Cheguei à casa da Sara perto das quatro e vinte minutos. Após os cumprimentos
de praxe, as malas foram guardadas na bagageira do carro.
– Então, Lana. Pronta para encontrar com o seu futuro Clark Kent? –
Brincou Bruna, me olhando com a cara de quem ia pegar no meu pé a viagem
inteira.
– Até parece que se eu encontrasse um Clark Kent da vida, eu seria muito
feliz. – Sorri querendo parecer irônica, mas acabou soando carente.
– Lana, quem sabe, nessa viagem, você não desencalha – falou Luís com um
ar zombeteiro abraçando a cintura da Sara.
– Pois… Esquecem-se que vamos para o chalé da minha família? – Lembrei
tentando, pela segunda vez, parecer irônica. Mas agora soava a louca histérica.
– E da última vez que vi, não estava carregado de homens bonitos, solteiros e
cobiçados pelas garotas dos arredores. O que havia lá mais eram aranhas e
formigas!
– Mas as montanhas, nesta época do ano, estão cheias de forasteiros, que
aproveitam estes dias para tirar férias. Assim, como nós! – Explicou Sara
entusiasmada. – Quem sabe, não está lá o seu príncipe encantado.
– Infelizmente, eu já não acredito em conto de fadas faz tempo, Sara.
Agora, é melhor entrarmos no carro. A viagem vai ser longa e já está a ficar
muito tarde. Está difícil, começarmos estas férias!
– Ui, deixamo-la nervosa – comentou o Luís, entrando com a Sara para o
banco de trás.
Gustavo ocupou o banco da frente e Bruna foi fazer companhia para o
casalinho.
Finalmente, pegamos a estrada, uma longa linha de asfalto negro que
cortava a paisagem a direita, onde corria a espaços regulares o tracejado
branco pintado no piso. De um lado da estrada, mato e serra. Do outro, passava
de vez em quando uma fazenda, enfiada entre árvores e plantas rasteiras. O céu
avermelhava-se, mostrando que a noite se instalava e que a lua seria mais uma
companheira da nossa viagem até às nossas férias.
No banco traseiro, Sara e Luís se beijavam quase o tempo inteiro,
Gustavo comentava se os dois não poderiam esperar para chegar ao chalé para
fazerem o que queriam tanto fazer. Bruna implicava com o meu constrangimento ou
então era mais desbocada, dizendo o quanto eu estava com inveja deles namorando
no banco de trás do meu carro. Acrescentando que o banco de trás daquele carro,
em particular, nunca tinha conhecido a condutora naquela situação e o Gustavo,
vendo-me contorcer no banco e a fazer caretas, tomava o meu partido e mandava-a
calar com uma palmada amistosa.
As estrelas já brilhavam e a lua fazia a sua habitual viagem noturna
pelo firmamento quando o carro entrou no pequeno carreiro de terra batida que
levava ao chalé da família, depois de quase cinco horas na estrada. As rodas do
carro passavam pelas pedrinhas que saltavam e batiam na lataria. Eu sentia os
braços e as pernas dormentes, estava cansada e os meus passageiros também. A
Sara tinha adormecido no ombro do Luís, os dois grudados como gêmeos siameses,
com ele a abraçá-la pela cintura, mão sobre o quadril da moça, ela com as
pernas sobre as dele. O Gustavo cochilava no banco da frente. Só a Bruna estava
acordada, mas bocejava ruidosamente, a olhar pela janela do carro.
Vencido o carreiro, o carro estacionava num pequeno largo, em frente de
um casebre construída em madeira, com o telhado inclinado, forrado de telhas
pretas, para que a neve do inverno não se acumulasse, num estilo europeu,
lembrando um daqueles abrigos de montanha dos Alpes. Era um chalé
despretensioso, mas muito acolhedor – tinha quatro quartos em suíte, uma sala e uma cozinha no
mesmo cômodo. Nas traseiras, ficavam as montanhas que, àquela hora tardia,
formavam um muro alto escuro. Nas proximidades havia outras casas semelhantes,
também utilizadas para férias e um aglomerado de outras casas, num vale mais
abaixo, que formavam uma espécie de vilarejo, onde moravam os habitantes fixos
do lugar.
Espreguicei-me primeiro. Desenhei um sorriso torto e toquei na buzina do
carro. O Luís e a Sara assustaram-se, ela saltou do colo dele. O Gustavo despertou
estremunhado, erguendo os punhos, para se defender de qualquer coisa. A Bruna
fez-me uma careta, pois percebera a buzinadela propositada.
– Bem, cambada – falei em tom de brincadeira. - Chegámos ao nosso
destino.
– Lana, não precisava buzinar desse jeito. Quer matar-nos de susto? –
Reclamou a Sara com as bochechas rosadas, ajeitando a saia.
Soltei um risinho e a Bruna abanou a cabeça, mas já começava a sorrir
também. O Gustavo esfregou os olhos, recuperando a boa disposição e esquecendo
o inimigo invisível do qual se queria defender.
– Bom, a nossa diversão vai começar – anunciou ele, batendo a porta do
carro. – Nada como um saudável ar do campo, nada como um belo banho de
cachoeira, nada como ver tantas estrelas no céu através das árvores altas.
E abriu os braços, olhando para o firmamento negro, inspirando o ar puro
e natural.
O Luís, a Sara e a Bruna também desciam do carro animados, ele abriu a
bagageira para que cada um retirasse as suas malas. Eu olhava para aquele chalé
rústico, envolvido por alguns pinheiros, a barraca, segundo o querido do meu
pai, onde tinha passado excelentes momentos da minha infância, que guardava, em
muitos recantos, recordações especiais. E mesmo que tivesse aquele aspeto
desleixado que eu conseguia entrever à pouca luz que a noite disponibilizava –
um jardim sem vida abandonado pelo tempo, bancos velhos e enferrujados em volta
de um grande chafariz coberto de musgo, galhos secos espalhados e teias de
aranha oscilando à brisa fresca – jurei a mim mesma lutar sempre por aquele
lugar, protegê-lo contra os arremedos de mau humor do meu pai e evitar, com
todas as minhas forças, que fosse vendido e que eu o perdesse para sempre. Nem
que, para isso, tivesse de servir de castiçal a dois casais de amigos
fantásticos.
O aspeto geral do chalé não passou despercebido.
– Poxa, Lana. Podia ao menos ter contratado alguém para limpar o chalé.
Olha só o estado disto! – Protestou a Bruna no alpendre, analisando algumas
teias de aranha nos pilares que sustinham a cobertura.
– Não acha que está querendo de mais, amiga? – Perguntei com cara de
tédio, caminhando até à porta com uma mala em cada mão e uma mochila nas
costas. – As finanças da minha família estão um pouco em baixo. Temos lá
dinheiro para contratar alguém para fazer a manutenção da casa de férias. O meu
pai até quer vender isto, já tinha explicado…
– Podemos faxinar amanhã e dar um jeito nessas teias de aranha que
incomodam tanto a Bruna – sugeriu o Gustavo retirando a última mala, fechando a
bagageira do carro.
– Você está louco, não é, Gustavo? – Gritou a Sara arrastando as malas
dela. – Viemos aqui para passear, não para trabalhar. Estamos de férias,
lembra? – E acrescentou a ranger os dentes: - Ou quer que eu desenhe para você?
A Sara sempre fora alérgica a trabalho físico. Vivia afirmando que
estava talhada para ser uma grande senhora. Já carregar com a sua própria
bagagem era um sacrifício, notava-se pela carantonha que fazia a arrastar os
dois pesados sacos que deviam estar cheios de lingerie sensual,
de estojos de maquilagem e acessórios desnecessários para uma estadia no campo.
O Luís aliviou-a do seu tormento ao tirar-lhe os sacos das mãos, dizendo
ao mesmo tempo:
– Querida Sara, a Lana é a nossa anfitriã e devemos ser agradáveis com
ela. Estou de acordo com o Gustavo. Faxinámos amanhã… Não vai custar assim
tanto, pois somos quatro. – Não incluía a Sara naquilo, era notório. – Acho que
nos vai ocupar apenas a manhã. E depois, proponho um piquenique na cachoeira.
– Combinado! – Exclamou a Bruna, que sempre se inscrevia para trabalho
voluntário na faculdade. – Então, Lana?
– OK, OK… Combinado…
Abri a porta e veio do interior uma baforada de mofo, típica das casas
fechadas há muito tempo. Completei cansada:
– Vamos arrumar as camas logo, que eu estou cheia de sono.
O Gustavo passou um braço por cima dos meus ombros.
– Eu faço a tua cama. Deves estar mesmo morrendo de sono, amiga… Foi a
única que não pregou o olho durante a viagem.
– Eu estava dirigindo! – Apontei incrédula. – Não podia pregar olho,
ora!...
A Bruna passou por nós, observando:
– Olha que eu fico com ciúmes, hein? Olha aí, Gustavo!...
– O que foi Bruna do meu coração?
E, para provocá-la, deu-lhe uma palmada no traseiro que a fez saltar.
– Ei!! – Protestou ela.
Libertei-me do braço do Gustavo. Liguei o quadro elétrico e acendi as
luzes do cômodo, uma sala espaçosa, ao fundo um balcão que dividia o espaço
numa cozinha pequena, mas com o essencial para cozinhar e tomar as refeições.
Os móveis estavam cobertos por tecidos brancos para os proteger do pó e o chão
exibia uma fina camada de poeira onde as nossas pegadas ficaram marcadas. Do
lado direito ficavam as quatro portas que conduziam aos quartos. A Sara entrou
farejando o ar, torcendo a cara com os odores que ia encontrando, caminhando
devagar com medo de ser surpreendida por alguma barata. O Luís abraçou-a e
deu-lhe um beijo na orelha, distraindo-a da sua tarefa inspetiva.
Eu fechei a porta e distribuí os quartos. Devia ser a pior noite,
expliquei, porque faltava a necessária faxina, mas era tarde demais para nos
preocuparmos com isso e eu estava cansada demais para sequer me importar.
Esperavam-nos umas férias preenchidas, pensei quando pousei a cabeça no
travesseiro e fechei as pálpebras pesadas, no escuro do meu quarto. Muito
trabalho, brincadeiras, alguns arrufos, namoros exagerados, banho de cachoeira
que terminava sempre com alguém pelado e com algum casal mais entusiasmado,
fazendo aquele tipo de coisa que os casais entusiasmados fazem e que eu
preferia nem saber, pois ficava sempre mergulhada numa depressão nessas alturas
e a remoer que não havia mesmo volta a dar, que eu tinha nascido para tia.
***
As portadas da sala estavam abertas de par em par fazendo entrar o sol
em catadupa por ali adentro. Os quartos também estavam de janelas escancaradas
e a corrente de ar que varria o chalé de uma ponta à outra trazia o cheiro
agradável dos pinheiros e a pureza da montanha. O Gustavo e o Luís terminavam o
trabalho no jardim. Já tinham varrido as folhas e os galhos secos e raspado o
musgo do chafariz, tinham também cuidado do alpendre. Acenei-lhes enquanto
pousava os sacos de papelão com as compras que tinha feito no vilarejo do vale.
Adquirira alguma comida para forrar a despensa e para preparar o café da manhã
daquele primeiro dia de férias e outras aquisições especiais. Agitei a lata de
tinta antiferrugem e o Gustavo entrou na sala. Entreguei-lhe também a trincha e
ele saiu assobiando para se dedicar à próxima tarefa: pintar os bancos do
jardim e dar-lhes um aspeto renovado.
A Bruna limpou a testa com as costas da mão, soprando, indicando que
tinha acabado de lavar o chão. Tinha também ajudado a destapar os móveis e a
arrancar as teias de aranha, acompanhando-me na limpeza geral do chalé, antes
de eu ter pegado no carro e ter ido até ao vilarejo. A Sara distraía-se a
pintar as unhas dos pés e limitara-se a puxar para cima as cobertas da cama que
partilhara com o Luís. Da parte dela, tinha ajudado que bastasse na faxina
forçada.
– Agora, precisamos todos de um banho na cachoeira – disse a Bruna.
– Concordo – disse a Sara fechando o frasco do verniz.
– Nossa! Olha só o jardim! Como ficou bonito! – Exclamou a Bruna.
– É… O Luís tem muito jeito para esse tipo de coisa.
– Um excelente futuro marido… hein, amiga?
E a Sara soltou um risinho.
– Mas antes do merecido banho de cachoeira, amigas… – disse eu. – Vamos
comer qualquer coisa. Eu estou esfomeada! E aposto que os nossos “futuros
maridos” – fiz o sinal de aspas com os dedos. – também estarão.
A Sara saiu para o alpendre e ficou a observar o Gustavo a pintar o
primeiro banco de jardim, o Luís dando indicações e segurando a latinha, os
dois de tronco nu, suados, brilhando ao sol. A Bruna ajudou a colocar a mesa.
Uma travessa de fruta, bolinhos, suco de laranja e eu fui preparando o café.
Depois chamei-os com um grito estridente, no preciso momento em que o Gustavo
terminava de pintar o primeiro banco de jardim. Entrou comentando:
– Que grito, Lana. Hoje amanheceu animada. Aconteceu algo de especial no
vilarejo?
– Bom dia também para você.
– Bom dia.
Deu-me um beijo na cara só para me ver corar. E depois acrescentou
trocista:
– Ah… Já sei. Não foi um encontro no vilarejo, foi na sua cama. Sonhou
que encontrava um amor para cantar um dueto com você. – E cantarolou para cima
de mim: – Em teus sonhos dou um beijo de amor, em um…
– Ai Gustavo, não estraga meu dia – protestei enfezada, enrugando a
testa.
A Bruna puxou-o pela cintura, obrigando-o a sentar-se numa das cadeiras,
diante de uma generosa xícara de café preto fumegante.
– Deixa a nossa amiga.
– Que falta de senso de humor. Era só uma canção!
– Xii… Você está fedendo, Gustavo – disse a Bruna para tentar mudar o
rumo da conversa. – Precisa de um banho.
A Sara sorriu para o Luís enchendo um copo de suco.
– De cachoeira? – Perguntou o Gustavo com um ar de malícia.
– Claro!
– Só se for pelado.
A Bruna sentou-se ao meu lado.
– Logo para começar, Gustavo? Que exagero!
– E a Lana também… Hein, amiga? Vamos nadar sem roupa na cachoeira.
Eu sentia a cara a escaldar e, de repente, tinha perdido a fome.
Segurava um bolinho na ponta dos dedos mas não o conseguia meter na boca. Bebi
um grande gole de suco de laranja para refrescar-me e para ver se a secura
passava.
– Acho que ela não vai querer ir – apontou o Luís.
– Ora, por quê?
– Para de implicar com ela – defendeu a Bruna. – Ouviu Gustavo? Já se esqueceu
de que ela é a nossa anfitriã e que esta é a casa dela?
Levantei-me nervosa.
– Eu… Acho que vou pegar um pouco de ar.
E saí pela portada escancarada. O jardim cheirava a tinta fresca.
– Melhor ir pedir desculpas a ela – disse a Bruna carregando uma
sobrancelha para o Gustavo.
Ele tinha a boca cheia de bolinhos e encolheu os ombros. A Sara
acrescentou num tom petulante, bebericando o seu café:
– É. Senão, acho que não vai haver banho de cachoeira para ninguém, viu?
As férias acabam hoje e antes mesmo de terminarem de pintar o segundo banco do
jardim.
***
Contornei o chalé e entrei por uma trilha que ficava nas traseiras. Os
meus passos eram rápidos, queria distanciar-me depressa da humilhação sofrida.
O sol morno da manhã batia-me no rosto, as sombras das árvores estendiam-se
pelo chão verde, as flores silvestres balançavam com a brisa.
A raiva ia passando aos poucos por cada passada acelerada que me
afastava do chalé. A natureza que me envolvia ia arrancando aquela sensação
ruim de solidão entranhada, como se eu me despisse de camada sobre camada de
roupa, que eu usava desnecessariamente num dia demasiado quente. Eu sabia que
eles eram meus amigos, sabia que o Gustavo adorava curtir com a minha cara, mas
não gostava que ele me recordasse o tempo todo que eu nunca tinha tido o
expediente necessário para arranjar um namorado e que, nessas matérias, era tão
inexperiente.
Parei. Olhei o céu azul onde pairavam algumas nuvens brancas que pareciam
algodão. Vi os pássaros a voar no céu e quis ser como eles, sem preocupações,
aproveitando a liberdade e a beleza do dia.
Foi quando ouvi um gemido baixo e distante.
Estaquei, estreitando os olhos, sustendo a respiração e apurando o
ouvido para não me deixar confundir pelos sons do bosque.
Ouvi novamente o mesmo gemido.
Com passos cautelosos, controlando a respiração, segui o som, receando
perder o rasto auditivo que me guiava por entre as árvores até que descobri uma
gruta muito bela à minha frente.
A entrada era formada por pedras azuis que brilhavam ao sol. Uma pequena
nascente brotava mais abaixo e ia encher uma lagoa mais adiante, rodeada de
plantas exuberantes e de flores coloridas.
Olhando para todos os lados, o coração aos pulos, entrei na gruta,
convencida que o gemido vinha daí. A escuridão do interior era medonha mas até
onde a claridade do dia conseguia penetrar, deixava ver um espetáculo memorável
de paredes feitas de pedras verdes, azuis e vermelhas, onde existiam pinturas
históricas deixadas há milhares de anos por quem seguramente vivera ali. Um
sopro inesperado mexeu com os meus cabelos castanhos, que eu cobrira com um
pano para a faxina.
Ouvi o gemido mais perto e senti um frio percorrer a minha espinha. As
minhas mãos começaram a tremer, pois eu entrava na escuridão da gruta e esta
deixava de ser bela sem a claridade do dia para lhe revelar os detalhes
espetaculares.
Os gemidos soavam mais fortes, como se fossem fruto de uma dor
lancinante e eu não conseguia deter os meus passos, pois ia ficando cada vez
mais curiosa e assim vencia o meu medo. Algo escamoso e frio passou por cima do
meu pé e eu gritei. Surgiu uma voz no fundo da gruta:
– Me ajude... Alguém...
A voz era fraca, o gemido que se seguiu também foi mais fraco, como se
quem quer que estivesse a sofrer ali dentro fosse perder a consciência a
qualquer momento.
– Quem está ai? – Perguntei, com a voz embargada.
Mas, envolvida na excitação da aventura, não recuei. Aproximei-me um
pouco mais e descobri um vulto. Pisei algo molhado e viscoso. Agachei-me,
molhei os dedos e o odor férreo disse-me que era sangue. Gritei.
– Me ajude…
Uma mão agarrou-se ao meu pulso e puxou-me. Gritei outra vez e comecei a
ter dúvidas se queria ser a heroína do momento e salvar quem quer que estivesse
ali.
Mas eu já estava envolvida e não podia ir embora.
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